Humanos substituem robô e anunciam visão de futuro da Toyota

A montadora procura apurar as habilidades manuais dos funcionários para que novas formas de melhorar a linha de produção sejam descobertas

Tóquio – Dentro da fábrica mais antiga da Toyota Motor Corp., há um canto onde os humanos substituíram os robôs na tarefa de martelar massas de metal para transformá-las em virabrequins. Essa é a visão de futuro de Mitsuru Kawai.

“Precisamos nos tornar mais sólidos e voltar ao básico, para apurar as nossas habilidades manuais e aprimorá-las ainda mais”, disse Kawai, veterano da companhia há meio século, convocado pelo presidente Akio Toyoda para promover a produção artesanal nas fábricas da Toyota. “Quando eu era novato, os mestres experimentados costumavam ser chamados deuses, e podiam fazer qualquer coisa”.

Esses deuses – ou Kami-sama, em japonês – estão voltando à Toyota, a empresa que há muito marcou o caminho das proezas de fabricação na indústria automotiva e em outras.

O próximo passo da Toyota parece contraditório na era da automação: humanos estão substituindo máquinas em fábricas do Japão para que os operários possam desenvolver novas habilidades e descobrir formas de melhorar as linhas de produção e o processo de fabricação de carros.

“A Toyota vê os funcionários de uma fábrica como essa como artesãos que devem continuar a refinar sua arte e seu nível de habilidade”, disse Jeff Liker, que escreveu oito livros sobre a Toyota e visitou Kawai no ano passado. “Em quase todas as empresas que você visita, as tarefas dos operários são colocar partes em uma máquina e ligar para pedir ajuda quando ela quebra”.

O retorno dos Kami-sama é um emblema do modo em que Toyoda, 57, está reconstruindo a empresa fundada por seu avô, pois o CEO se comprometeu a reconduzir as prioridades para a qualidade e a eficiência, em vez de adotar uma mentalidade de crescimento. Ele conterá a expansão da maior montadora do mundo com um período de três anos sem abrir fábricas novas de carros.


O esforço chega enquanto a Toyota reforma o desenvolvimento de veículos, passando para plataformas de fabricação que poderiam reduzir 30 por cento dos custos. Ele também enfatiza o compromisso da Toyota em manter uma produção anual de 3 milhões de veículos no Japão.

100 espaços de trabalho

Aprender a fazer autopeças desde o início dá aos operários mais jovens conhecimentos que eles não obteriam ao pegar as peças de caixas ou de esteiras rolantes, ou ao apertar botões em máquinas.

Com cerca de 100 espaços de trabalho com trabalho manual intensivo introduzidos nos últimos três anos nas fábricas da Toyota no Japão, essas lições podem ser aplicadas posteriormente ao reprogramar as máquinas para reduzir o desperdício e melhorar os processos, disse Kawai.

Embora Kawai não anteveja que um dia seu empregador abandone os robôs – 760 destes participam de 96 por cento do processo de produção na sua fábrica em Motomachi, Japão –, ele introduziu várias linhas dedicadas ao trabalho manual em cada uma das fábricas da Toyota no seu país natal, disse.

Durante sua ascensão até o topo da indústria automotiva – a Toyota estabeleceu para 2014 a meta de vender mais de 10 milhões de veículos, um marco que nenhuma montadora alcançou –, no final do século a empresa estava aumentando a produção em mais de meio milhão de veículos por ano.

Grandes recalls

Um ano depois que a falência da Lehman Brothers Holdings Inc. em 2008 fez despencar a demanda por carros, a Toyota começou a fazer recall de mais dez milhões de veículos para consertar problemas relacionados a acelerações involuntárias, o que prejudicou sua reputação de qualidade.

Nos anos anteriores aos recalls, Kawai também tinha se preocupado cada vez mais com que a Toyota estivesse crescendo rápido demais, disse ele. Para ele, um modo de evitar que isso se repita é ajudar os humanos a supervisionar as máquinas.

“Se algum dia houver uma tecnologia perfeita que sempre faça produtos perfeitos, então estaremos prontos e dispostos a instalar essa máquina”, disse Kawai. “Não existe uma máquina que seja eternamente estável”.