Huawei ou Apple e Google: quem mais perde com guerra comercial?

Enquanto a chinesa viu bloqueada parceria com o Android, Google perde bilhões sem os usuários da Huawei na Europa e Apple pode perder mercado chinês

O celular topo de linha da empresa de tecnologia Huawei, o P30, chegou ao Brasil no último dia 17 de maio portando um sistema operacional Android e prometendo brigar de igual para igual com modelos de ponta das concorrentes, como o Galaxy S10 da Samsung e o iPhone 8 da Apple. O problema é que, uma semana depois, o presidente americano, Donald Trump, colocou a Huawei numa lista de “empresas proibidas”, o que fez o Google, fabricante do Android, anunciar que, como empresa americana, vai ter de parar de continuar oferecendo o sistema operacional para os celulares chineses.

Esse é um dos grandes obstáculos com os quais a Huawei vai ter de lidar depois que a guerra comercial entre China e Estados Unidos se intensificou nas últimas semanas. Os Estados Unidos impuseram aumento de impostos em produtos chineses, enquanto a China devolveu com novas taxas. A Huawei foi particularmente afetada: além do bloqueio aos Androids, a empresa já havia sido proibida de vender nos Estados Unidos e de comprar componentes americanos sem aprovação especial.

Mas nem só a Huawei pode perder nessa história. Se a China devolver na mesma moeda e impuser sanções ainda mais fortes aos Estados Unidos, empresas americanas que compram componentes na China ou que vendem para o mercado chinês também podem ser amplamente afetadas.

Um relatório do banco Goldman Sachs informou que a Apple, por exemplo, poderia ter seus lucros reduzidos em 29% caso a China proibisse a venda de produtos da empresa no país — algo como 20 bilhões de dólares. Em 2018, 15% do faturamento da Apple veio com a venda de seus aparelhos na China. A Apple é hoje uma das poucas empresas americanas com livre acesso ao mercado chinês, com produtos de empresas como Amazon, Facebook e Google já sendo vetados na China.

Além disso, parte importante da cadeia de mais de 200 fornecedores da Apple está na China, incluindo empresas que não são chinesas, como as de Taiwan. Os analistas do Goldman acreditam que, no curto prazo, seria muito difícil deslocar a produção para outro país.

Google vs. Huawei

Já o Google, fabricante do Android, do buscador de mesmo nome e de serviços como o Gmail e o Google Maps, deve ser menos afetado que a Apple, uma vez que seus produtos já são majoritariamente proibidos na China. Mas, sem os Androids nos celulares da Huawei, a empresa perde acesso ao gigantesco mercado chinês, que tinha o Android como porta de entrada.

A China é o maior mercado do Android: com mais de 700 milhões de aparelhos, os usuários no país representam cerca de 40% do sistema Android no mundo. Por enquanto, o bloqueio só afeta a Huawei, que tem um terço do mercado chinês, e não as outras empresas do país, como Xiaomi e Lenovo.

Mas o principal impacto é que o Google perde também acesso aos clientes da Huawei fora da China, onde seus aplicativos não são proibidos, como a Europa, o restante da Ásia e as Américas. No Brasil, onde a Huawei chegou neste mês, mais de 90% dos usuários usam o sistema Android. Esse “resto do mundo” é crucial para o Android, uma vez que, nos Estados Unidos, os celulares com o sistema representam menos da metade, com predominância do iOS, sistema operacional dos iPhones da Apple.

Analistas ouvidos pelo portal de negócios americano Business Insider estimam que o Google pode perder entre 150 milhões e 425 milhões de dólares por ano com o bloqueio à Huawei. A principal perda seria nas transações da loja de aplicativos Play Store que deixariam de acontecer, em que o Google fica com 30% de cada compra.

Pelo lado da Huawei, a empresa já estava proibida de vender nos Estados Unidos em 2018, e teve 52% de seu faturamento no ano vindo somente da China. Em seguida vem o grupo Europa, África e Oriente Médio (contabilizados juntos), com 28% do faturamento, 7% das Américas (com exceção dos EUA) e 11% de Ásia e Pacífico (excluindo a China) e 2% de outros lugares.

Mas o bloqueio do Google foi um baque para a empresa, pois implica fim das atualizações dos celulares que já foram vendidos com Android e, num primeiro momento, impossibilita tais usuários de usarem aplicativos do Google, como o Gmail, além de baixarem aplicativos pela Google Play. Isso pode fazer com que usuários, sobretudo os fora da China, decidam optar por aparelhos dos concorrentes.

A Huawei pode ainda continuar usando o código aberto do Android para manter o sistema operando, embora, desse modo, os usuários percam acesso antecipado a atualizações e tenham de usar uma versão com menos funcionalidades. Ainda não está claro o tamanho do impacto nos mais de 200 milhões de usuários que, só em 2018, compraram celulares da Huawei. Dentro da China, o problema deve ser menor, já que os usuários locais dependem menos de aplicativos de empresas americanas.

A empresa também pode, é claro, desenvolver um novo sistema operacional. Esperando o dia em que um bloqueio americano viria, a Huawei já havia anunciado que tinha planos para desenvolver um sistema próprio, e, com o bloqueio, afirmou que deve lançar o produto já em 2019. Contudo, fazer um novo sistema operacional vingar é uma tarefa árdua — que o diga a Microsoft, que tentou, sem sucesso, fazer o Windows Phone bater de frente como Android e ao iOS.

Uma das principais dificuldades, além de convencer os usuários, é fazer com que desenvolvedores e empresas façam aplicativos para o novo sistema, algo com o qual o Windows Phone sofreu.

Smartphone Android Huawei P30 Pro Review P30 Pro: com bloqueio do Google, celular topo de linha da Huawei pode parar de ter atualizações do Android

P30 Pro: com bloqueio do Google, celular topo de linha da Huawei pode parar de ter atualizações do Android (Lucas Agrela/Site EXAME)

Até onde vai a trincheira chinesa

Apesar de ter o gigantesco mercado chinês como porto seguro, a Huawei não terá tarefa fácil em fazer a guerra comercial não afetar de forma muito intensa seu desempenho. Além do Google, empresas fornecedoras de chips, como Intel, Qualcomm, Xilinx e Broadcom também vão parar de fornecer produtos à Huawei.

A empresa depende dos chips americanos e já vinha estocando os componentes para antecipar um bloqueio americano. O presidente da Huawei, Ren Zhengfei, disse que a empresa ficará “bem” sem os chips.

Com faturamento de 93 bilhões de dólares no último ano, a Huawei é um dos orgulhos chineses e tem fortes ligações com o governo central, o que desperta desconfiança dos governos ocidentais. A herdeira da empresa, Meng Wanzhou, está presa no Canadá desde dezembro, acusada pelos Estados Unidos de roubar tecnologia da empresa de telecomunicações americana AT&T.

As bombas de Donald Trump contra a empresa acontecem no melhor momento de sua história. Enquanto o número de smartphones vendidos caiu pela primeira vez na história em 2018, a empresa, então terceira maior do mercado, viu suas vendas crescerem 35%, com bons resultado na Ásia e na Europa. Outras chinesas como Xiaomi e ZTE também tiveram crescimento na casa dos dois dígitos no ano passado. Enquanto isso, as líderes do mercado, Samsung e Apple, tiveram queda nas vendas.

O segredo da Huawei para saltar de 6% para 19% de participação no mercado mundial desde 2014 foi apostar em produtos de boa qualidade a preços menores. A parceria com a fabricante de lentes alemã Leica é vista como um dos divisores de água para a companhia chinesa, fazendo os celulares da Huawei ficarem no mesmo nível dos concorrentes mais caros.

No primeiro trimestre de 2019, a Huawei conseguiu passar a Apple e tornar-se a segunda maior companhia em número de smartphones vendidos, segundo a consultoria IDC. O plano era não parar por aí e passar também a líder Samsung. O executivo-chefe da divisão de consumidores da Huawei, Richard Yu, disse à emissora americana CNBC em novembro do ano passado que “em 2019 estaremos muito perto do número um, talvez junto com a Samsung e, no ano seguinte, talvez tenhamos oportunidade (de ser número um)”.

A guerra comercial deve, inclusive, atrasar o lançamento do Mate X, celular dobrável que a empresa pretendia lançar até junho, além do desenvolvimento da rede 5G da Huawei em outros países, que, por pressão dos Estados Unidos, vêm proibindo a empresa de instalar a tecnologia.

Trump pode ter atrapalhado os planos da Huawei mais do que de qualquer outra empresa chinesa, mas o mercado de 1 bilhão de pessoas da China e suas empresas, com o apoio do governo local, podem conseguir resistir. O mais provável, nesse cenário, é que China e Estados Unidos cheguem a um acordo e a Huawei consiga voltar à parceria com o Google e as fabricantes de chips. Do contrário, as empresas americanas podem sofrer tanto quanto as chinesas.