Governança corporativa das empresas americanas ainda deixa a desejar

De acordo com reportagem do The Wall Street Journal, as reformas feitas durante o último ano ainda não podem ser consideradas suficientes

A Lei Sarbanes-Oxley, que entrou em vigor em 30 de julho de 2002, junto com outras medidas propostas pelas bolsas de valores dos Estados Unidos, provocou dezenas de reformas nas empresas americanas de capital aberto. A revisão da governança corporativa nestas empresas começou há um ano, depois que autoridades dos EUA mandaram o recado de que o velho modelo tinha de mudar. No entanto, ainda não é possível dizer se tais reformas significam que as empresas são melhor administradas hoje que no passado.

O diário americano The Wall Street Journal traz uma reportagem na qual mostra as áreas mais críticas das empresas que estão tentando melhorar sua governança. De acordo com ela, a Sarbanes-Oxley certamente colabora com a punição pelo não cumprimento de regras, além de acabar com a privacidade dos conselhos e tirar um pouco do poder dos presidentes das companhias. No entanto, alguns críticos dizem que as novas regras enterraram os conselheiros em mais burocracia sem atacar problemas considerados fundamentais pelos investidores, como os salários generosos dos executivos, a pouca avaliação do próprio desempenho dos conselheiros e a dificuldade dos funcionários em delatar irregularidades.

As novas leis incluem uma separação mais clara do trabalho do comandante da empresa e do presidente do conselho. Além disso, comitês de auditoria dos conselhos, que devem vigiar os livros da empresa, agora precisam ter pelo menos um especialista em finanças – ou explicar por que não têm um. O comitê de auditoria precisa revisar as demonstrações financeiras trimestralmente depois que o diretor-financeiro e o presidente da companhia atestaram sua veracidade.

Veja algumas áreas consideradas críticas que têm sido alvos de reformas, apontadas pelo Wall Street:

Comitês de auditoria

A Sarbanes-Oxley propõe maior vigilância pelos comitês de auditoria que supervisionam as práticas de contabilidade, os controles internos e os auditores. Alguns estão aumentando a quantidade de vezes que se reúnem no ano, por exemplo. O resultado é que “eles estão mais preparados para detectar problemas”, disse Barbara Hackman Franklin, que preside os comitês de auditoria da Dow Chemical Co. e da Aetna inc. e ainda é membro dos comitês de auditoria de outras duas empresas. O problema é que muitos membros de comitês de auditoria ainda não têm conhecimento suficiente para analisar demonstrações financeiras. Em recentes seminários de governança patrocinados pela universidade de Chicago, 70% dos cerca de 500 participantes que fizeram o teste básico de princípios contábeis foram reprovados.

Transferência de poder aos conselhos

Muitos conselhos estão contratando advogados e consultores para aconselhá-los em como expandir suas responsabilidades de acordo com as novas leis e mudanças ainda pendentes. Mas eles algumas vezes se vêem investindo muito tempo em reuniões com conselheiros em detrimento de outras questões importantes para a empresa. Para obter mais informação, separada da que recebem nas reuniões do conselho, mais conselheiros estão também visitando instalações da empresa.

Acesso para queixas internas

Muitas empresas criaram linhas especiais para receber queixas de empregados, investidores e outros sobre problemas éticos. Mas os executivos muitas vezes analisam as queixas confidenciais antes de compartilhá-las com os conselheiros. Poucos comitês de auditoria de conselhos têm os procedimentos exigidos pela Saranes-Oxley para receber reclamações de funcionários sobre problemas contábeis.

Escolha e avaliação de conselheiros

Sete em cada dez conselhos de empresas americanas ainda não avaliam o desempenho individual de seus membros. Os conselheiros que o fazem acabam ficando pouco tempo em seus cargos – o que significa que muitos deles relutam em perturbar o espírito coletivo dos conselhos.

Salários dos executivos

Um grande problema de governança que ainda precisa ser resolvido é a compensação de executivos. Embora a popularidade de opções de ações tenha se reduzido com a fraqueza do mercado acionário e os bônus salariais tenham encolhido, os candidatos ao cargo de diretor-presidente e outros executivos ganham gordos pacotes que os premiam independentemente do desempenho da empresa.