“Globalização é condicionante do futuro da empresa e da sociedade”

Alain Belda, CEO e presidente do conselho da Alcoa, afirma que o sucesso das organizações e da vida em sociedade não pode ignorar o fenômeno da internacionalizacão da economia e da cultura. Em entrevista exclusiva à EXAME, o executivo brasileiro também af

Alain Belda, um dos dois executivos brasileiros de projeção mundial o outro é Carlos Ghosn, presidente da Nissan é CEO e presidente do conselho da americana Alcoa, maior produtora mundial de alumínio. À frente da subsidiária brasileira, Belda, hoje com 60 anos, formou uma geração de executivos. Alguns deles estão no comando de empresas importantes como Fernando Tigre, da Molson, e Paulo Periquito, da Multibrás.

Nesta entrevista a EXAME, Belda discorre sobre mudanças no ambiente de negócios que afetam o desempenho de um presidente e as novas habilidades exigidas. Ele cita as habilidades que um dirigente precisa apresentar nos dias de hoje e conta que “o trabalho ficou mais complexo, menos individual e dependente de gente que possa administrar diversas culturas”. Confira.

Revista EXAME O senhor é das primeiras gerações de CEOs brasileiros no comando de subsidiárias de multinacionais. Que diferenças na gestão empresarial observa daquela época para os dias de hoje?

Alain Belda Primeiro o mundo foi ficando menor e os mercados maiores. A inserção na globalização deixou de ser opcional e passou a ser condicionante do futuro das empresas e mesmo da sociedade. Isto não quer dizer que somente grandes empresas sobreviverão, mas sim que, para sobreviver e prosperar, é necessário atender a padrões globais de qualidade, eficiência, custos, serviços, processos e competência de networking, em nível mundial. Esses padrões passaram a ser os mesmos para empresas no Brasil, subsidiárias ou não de empresas estrangeiras. Há 15 anos dava para aceitar ineficiências locais e proteger-se atrás de barreiras alfandegárias e não alfandegárias. Pensávamos no “nosso mercado”. Hoje pensamos nos nossos mercados e clientes em nível mundial e local. Nós nos servimos de qualquer parte do mundo onde possamos atingir os maiores níveis de eficiência, a partir de fábricas construídas para o mundo com tecnologia mundial e produtos mundiais. Não pretendemos continuar operando fábricas que não sejam competitivas em escala mundial.

EXAME O que mudou em relação ao papel do CEO no ambiente corporativo? Quais eram os desafios do passado em relação aos atuais? Quais são as novas habilidades requeridas?

Belda O mercado ficou mais transparente, mais exigente e muito mais eficiente na alocação de recursos. São poucos os investidores de longo prazo em uma empresa. Uma companhia tem como acionistas coleções de fundos representando milhares de decisões, que são revisadas diariamente de acordo com as notícias mundiais. Os eventos nos Estados Unidos trouxeram muito mais complexidade, exigências e conseqüências ao relacionamento do CEO e do conselho da empresa com os processos gerenciais, as informações fornecidas ao público e a contabilidade.

EXAME Executivos de sua equipe tornaram-se depois presidentes de empresas. Exemplos: Fernando Tigre, Paulo Periquito, entre outros. Que ensinamentos práticos e valores você passou para estes empresários? Esses valores mudaram com o tempo?

Belda Essa gente era competente antes de entrar na Alcoa. O que tiveram na Alcoa foi a oportunidade, ainda cedo em suas carreiras, de ter responsabilidade gerencial por resultados. Conseguiram levar esta responsabilidade com sucesso e administraram bem momentos de euforia e de recessão. A Alcoa é uma meritocracia, e eles floresceram neste meio. O que fizemos foi dar a oportunidade. A lição talvez seja muita responsabilidade o mais cedo possível na sua carreira e um empurrãozinho quando as coisas não vão tão bem quanto deveriam estar indo.

EXAME Num mundo globalizado, um presidente de uma empresa brasileira necessita ter a mesma formação de um europeu ou americano? Quais são as “habilidades globais” mais demandadas atualmente?

Belda No nível gerencial, a capacitação principal continua sendo a de atingir resultados. Adicionalmente são necessários a capacidade de traduzir idéias, práticas, know how, de todo o mundo a fim de encontrar soluções para problemas e necessidades de clientes locais e globais. Outra habilidade necessária é a capacidade de construir networks dentro e fora da empresa que consigam alavancar as competências necessárias ao sucesso do negócio. Além disso, o executivo precisa estar aberto para o aprendizado contínuo. O trabalho ficou mais complexo, menos individual e dependente de gente que possa trabalhar nesse ambiente globalizado. É preciso habilidade para administrar diversas culturas e se inserir num esquema internacional. Um benefício que essa mentalidade traz é o acesso às melhores competências humanas em nível global. O país de origem da multinacional não tem mais o monopólio das competências e responsabilidades gerenciais. Na Alcoa de hoje, o conselho é composto por 50% de estrangeiros e 50% de americanos. Na diretoria executiva, 40% são estrangeiros, 50% dos negócios são dirigidos por americanos, e 50%, por nacionalidades diversas. Quando assumi a presidência da Alcoa Alumínio em 1979, fui o primeiro presidente de subsidiária que não era americano. Quando, em 1982, passei a ser vice-presidente da matriz, com responsabilidade pelas operações na América Latina, fui o primeiro não americano com o título de vice-presidente da matriz.

EXAME Que experiências profissionais mais marcaram sua carreira?

Belda A construção de nossa fábrica em São Luís. Foram 1 milhão de dólares gastos por dia ao longo de quatro anos. Vender a idéia para os acionistas, para os banqueiros, para o governo, organizar a empresa que na época faturava 100 milhões de dólares por ano. Tudo isso era um desafio, uma experiência incrível e uma oportunidade sem par, aos 35 anos de idade. Administrar a empresa em meio a todos os planos econômicos brasileiros, entre 1979 e 1994 [quando Belda foi para os Estados Unidos]. Outra experiência marcante foi a mudança para os Estados Unidos. Era um cucaracha à frente da maior empresa do setor! Foi um grande desafio pessoal e profissional. Também foi desafiador transformar a empresa de internacional [com operações em varias partes do mundo] para uma empresa global [operando em mercados globais, com gente global].

EXAME Qual o CEO mais completo que você apontaria como benchmark desses tempos?

Belda Acho que continua sendo o Jack Welch. Ele antecipou o imperativo da globalização, transformou a empresa para fazer face à realidade industrial de hoje.