Globalbev: o investimento virou suco

Mariana Segala 

É possível que você nunca tenha ouvido falar da empresa mineira Globalbev. Mas deve conhecer alguma das marcas de bebidas e alimentos que ela comercializa, entre as quais o energético Flying Horse, as batatas Pringles e as castanhas Iracema. Ou sabe quem são alguns dos nomes estrelados que já passaram pelo seu quadro societário, como Henrique Alves Pinto, antigo dono da construtora Tenda, e João Paulo Diniz, filho do empresário Abílio Diniz, ex-grupo Pão de Açúcar.

As metas da companhia, presidida pelo empresário Bernardo Lobato Fernandes, sempre foram muito ousadas. Fernandes tem 42 anos, mas o primeiro negócio – uma franquia dos Correios – aos 18. Para a Globalbev, criada em 2000, almejava um faturamento anual de 1 bilhão de reais até 2015. “Sempre tive vontade de construir um negócio grande”, disse em uma entrevista há dez anos. Mas uma sequência de maus investimentos empurrou os planos para mais tarde. Na verdade, para bem mais tarde.

O último ano de lucro da Globalbev foi 2013. De lá para cá, a coisa degringolou – e não foi só por causa da crise econômica. “Fizemos investimentos ruins”, explica Fernandes. No início da década, a empresa gastou cerca de 100 milhões de reais comprando e ampliando uma fábrica de 20.000 metros quadrados em Visconde do Rio Branco, no interior de Minas Gerais, para fabricar a marca de sucos Fast Fruit, e outra de industrialização de polpas, no Pará, focada na produção de açaí. Era uma tremenda aposta para uma empresa que, na época, tinha receita inferior a 150 milhões de reais. Pois nem uma nem a outra vingaram. O faturamento da empresa em 2016 somou cerca de 200 milhões de reais, segundo Fernandes (as demonstrações financeiras ainda não foram divulgadas).

A Globalbev já foi também a importadora da vodka russa Stolichnaya e é dona da marca de isotônicos Marathon (hoje licenciada para produção e distribuição pela New Age Bebidas). Originalmente, era uma empresa de marcas, com a fabricação toda terceirizada. Investir na produção se revelou um erro, ainda maior considerando os segmentos escolhidos. O consumo de sucos prontos mudou no Brasil. A imagem de produto saudável perdeu o apelo, diante dos sucessivos alertas quanto à quantidade de açúcar das bebidas. Números da consultoria Euromonitor indicam que as vendas de sucos aumentaram 2,5% no ano passado. Mas as de néctares, que possuem uma concentração menor de polpa de fruta, recuaram 3,5%. Eles eram justamente o foco da Fast Fruit. A fábrica acabou sendo fechada.

Com o açaí, o caso foi outro. A Globalbev almejava se tornar uma referência global no produto – mas, na visão de especialistas, pode ter errado mesmo é na entrega do açaí para os consumidores brasileiros. A linha Amazoo Açaí não é nem suco, nem polpa. Está na categoria dos smothies, semelhantes a vitaminas. Não é um segmento muito desenvolvido no país. Mais uma vez, foi um tiro n’água.

Novos rumos

Fernandes tenta corrigir os rumos dos negócios há pelo menos três anos. Já não conta mais com Henrique Alves Pinto como sócio. Ele saiu da Globalbev em janeiro de 2014, alguns meses antes de outra das suas empresas – a rede de perfumarias Água de Cheiro – entrar em recuperação judicial (os ativos da marca foram vendidos para a Beauty Franchising em novembro de 2016, mas o processo de recuperação ainda está em andamento). Fernandes comprou a sua parte. Seguem com ele na sociedade Guilherme Gama, engenheiro com quem fundou o negócio, João Paulo Diniz, na empresa desde 2009, e o fundo de participações Bratus, que entrou na companhia com um investimento de 50 milhões de reais em 2011.

A aposta hoje é em uma espécie de retorno às origens. “Somos essencialmente uma empresa de marcas. Retomamos essa ideia, voltando a terceirizar a produção”, diz Fernandes. O segmento de sucos foi abandonado – a marca Fast Fruit já não circula mais no mercado. Já a marca Amazoo Açaí foi mantida, mas, para que se tornasse rentável, a fábrica no Pará também precisou ser desativada. A fórmula, a marca, o marketing e a distribuição ficaram com a Globalbev, mas quem efetivamente passou a fabricar e embalar o produto é a TecPolpa, empresa paulista que produz mais de 40 marcas diferentes de bebidas.

Vender as duas fábricas paradas desde 2015 está nos planos, mas não há propostas formais em andamento. Os dois imóveis são avaliados em 40 milhões de reais. Hoje, as duas unidades são vistas exatamente assim: apenas como imóveis. Com capacidade instalada sobrando na indústria, não se espera que a infraestrutura de equipamentos de fato interesse a outros fabricantes. Para os sócios, isso parece importar menos agora. Em março, a Globalbev inaugurou um centro de distribuição em Cariacica, no Espírito Santo. Eles só querem olhar para frente.