Futuro verde

Biotecnologia

O empresário e médico Leonides Rezende Jr. nunca esquecerá fevereiro de 2002. Foi o mês em que sua empresa entrou no azul, depois de cinco anos de trabalho. O lucro da Katal está longe de impressionar (trata-se de uma microempresa com 15 funcionários), mas ano a ano ela toma mercado de produtos importados de alto valor agregado, como kits para diagnóstico de alguns tipos de câncer. Empreendimentos assim mostram que o Brasil tem espaço a ocupar na biotecnologia — indústria que revolucionará a medicina e a agropecuária em algum momento do século 21. Ainda é difícil responder a perguntas como “quando?”. Mas, no Brasil, questões como “onde?” já têm uma resposta: Belo Horizonte.

É na capital mineira que ocorre a maior concentração de empresas de biotecnologia do país. São mais de 60 companhias, ou um quinto do total existente no Brasil. “Aproveitamos uma vocação natural do estado. Temos pesquisa de qualidade, boa mão-de-obra e grandes companhias do ramo instaladas no interior”, diz Rodolfo Koeppel, da Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg). A vocação foi confirmada em 1999, quando a biotecnologia se destacou numa avaliação, realizada pela McKinsey, do potencial de 47 diferentes setores.

“O país tem chances reais de se tornar um centro de excelência mundial em biotecnologia nas área de agricultura e de criação de animais”, diz Edwin Russel, sócio da Advent (investidora americana de indústrias de crescimento rápido) e ex-executivo de uma multinacional do setor agrícola. Não custa lembrar que biotecnologia é a capacidade de aproveitar processos de organismos vivos para fins comerciais — por exemplo, alterar geneticamente bactérias para que produzam insulina humana. Em outras palavras: é algo demorado e complicado, e o setor ainda trabalha no vermelho em todo o mundo. A promessa de lucro, porém, é enorme — o suficiente para que empresas americanas de biotecnologia invistam mais de 11 bilhões de dólares por ano em pesquisa, segundo a consultoria Ernst & Young.

Mesmo sem tanto dinheiro, companhias de outros países estão em expansão. A Associação da Bioindústria do Japão alertou, no ano passado, que o país tinha apenas 150 empresas do setor, contra 1 500 nos Estados Unidos. Em resposta, o governo japonês anunciou que dobrará o investimento na bioindústria até 2005. A Alemanha vem incentivando a instalação de empresas na Baviera. A corrida não se restringe mais às corporações com interesses diretos, como produtoras de medicamentos e sementes. Hitachi, IBM, Motorola, Compaq, Oracle, Sun — todas têm investimentos estratégicos em biotecnologia.

As empresas do setor, instaladas no pólo de Belo Horizonte, tiveram receita de 227 milhões de reais em 2000, conforme levantamento do economista Pablo Fajnzylber, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O crescimento do mercado, a partir de 1996, é de pelo menos 18% ao ano. Misturam-se nesse conjunto empresas jovens como a Katal, a fabricante dos kits de diagnóstico, e veteranas como a Vallée, de produtos veterinários. Elas se dedicam a segmentos como fármacos, biomateriais, agricultura e meio ambiente, e foram quase todas criadas por empolgados cientistas-empreendedores. “Meu produto ainda é considerado experimental, mas tenho contatos de venda para 11 países”, afirma o oftalmologista Paulo Ferrara, presidente da Ferrara Ophtalmics. “Espero ter a aprovação para a União Européia nos próximos meses.”

Os mineiros já têm até seu caso clássico de sucesso. É a Biobrás, fundada em 1976 pelo cientista Marcos Mares Guia e pelo capitalista de risco Guilherme Emrich. Nos anos 80, a empresa passou a dominar o mercado brasileiro de insulina, chegou a exportar 8 milhões de dólares por ano, fechou a década de 90 faturando mais de 50 milhões de reais e foi comprada em dezembro do ano passado pela norueguesa Novo Nordisk, por 75 milhões de dólares. “É o modelo que deve se instalar por aqui, parecido com o americano. O capital de risco entra no estágio inicial, a empresa cresce e é comprada por uma companhia maior”, diz Emrich.

Em um estudo sobre pólos industriais nos Estados Unidos, Michael Porter, professor da Universidade Harvard, destacou um depoimento sobre inspiração: um executivo de biotecnologia em San Diego dizia que foi o triunfo de uma empresa pioneira que “deu à comunidade uma história de sucesso e mostrou que boa ciência poderia ser feita fora da academia”. Com os cientistas-empreendedores inspirados por casos como o da Biobrás, Belo Horizonte já tem 4 000 trabalhadores no setor. Na área de biotecnologia, o estado de Minas Gerais perde apenas para São Paulo — onde não há nenhuma política específica para empresas da área.

A mola propulsora tem sido a iniciativa privada. Eis alguns feitos dos mineiros:

Em 2001, a Fundação Biominas, uma entidade privada sem fins lucrativos, criada em 1990 para estimular empreendimentos no setor, superou a marca dos 20 milhões de dólares levantados com instituições como Sebrae e Banco Mundial, para financiar e investir em pequenos negócios.

Em abril deste ano, o SindBio, sindicato de 116 empresas do setor, tornou-se a primeira associação de biotecnologia do país aceita numa federação industrial estadual, na Fiemg.

Acaba de acontecer a BioBrasil 2002, o maior evento de negócios em biotecnologia já realizado no país.

Esse empenho mira um alvo bem definido. Mais do que um pólo de biotecnologia, que já existe, os empresários pretendem criar um cluster — uma aglutinação de empresas que se beneficiem mutuamente. “Queremos que elas tenham até laboratórios compartilhados”, afirma Koeppel, da Fiemg. “O cluster favorece o investimento. Ele facilita o trabalho de procura do investidor”, diz Paulo Henrique de Oliveira Santos, presidente da Votorantim Ventures, fundo de investimento com 300 milhões de dólares reservados para novas tecnologias e indústrias emergentes. As maiores empresas de biotecnologia do mundo se beneficiam de clusters como os instalados em São Francisco (180 empresas), Boston (170), Munique (130) e San Diego (120).

Ainda há, porém, obstáculos a superar para que o ciclo virtuoso da biotecnologia se instale em Belo Horizonte e no Brasil. Primeiro, a formação dos empreendedores egressos da universidade levou à criação de mais empresas do segmento de saúde humana (área na qual o Brasil tem pouca tradição) do que nas áreas agrícola e veterinária (nas quais o país tem competência reconhecida), como constataram estudos da Fundação Biominas e de Pablo Fajnzylber, da UFMG. Em segundo lugar, Emrich alerta que, embora exista capital disponível na praça para empreendimentos tecnológicos, faltam capitalistas que olhem para o início do processo — aquelas etapas que exigem investimentos pequenos, de 400 000 a 1 milhão de dólares, em vários projetos.

A maioria dos fundos de risco prefere investir muito, acima de 10 milhões de dólares, em alguns poucos empreendimentos. Há exceções, como o BankBoston e a Votorantim Ventures. “Nosso investimento padrão é da ordem de dezenas de milhões, mas estamos preparados para investir 300 000 reais, dependendo do projeto”, afirma Oliveira Santos, da Votorantim Ventures. O mesmo vale para o FIR Partners (do qual Emrich é sócio), administrador da maior parte dos recursos levantados pela Fundação Biominas. Outro problema é a falta de visão e de experiência administrativa de muitos dos cientistas que fundam empresas. “Esse tipo de companhia exige maior empenho do investidor. Ele tem de ajudar a montar a estratégia. Não basta levar capital, tem de levar gestão”, diz Emrich. Essa dificuldade tem sido enfrentada, até o momento, por meio de incubadoras, como a da Fundação Biominas, que hoje abriga 16 empresas no início da vida para diminuir os índices de mortalidade.

Por que a experiência de Belo Horizonte merece atenção? Simples. O empresário brasileiro já viu que as ondas tecnológicas podem transformar economias — como os eletrônicos fizeram com a Coréia do Sul e os programas de computador com a Índia. Biotecnologia é a onda feita para o Brasil. Ou, como afirma a economista Valéria Judice, diretora técnica da Fundação Biominas: “Há janelas abertas, e o Brasil tem duas vantagens competitivas importantes: sofisticação no agronegócio e biodiversidade única”.