Fundador da Localiza começou o negócio com seis fuscas financiados

Hoje, a empresa de Salim Mattar é a maior do país no setor, conta com mais de 50 mil carros, filiais em nove países e faturamento superior a 1 bilhão de reais

Aos 17 anos, o neto de libaneses Salim Mattar decidiu o que queria fazer na vida ao fazer uma entrega de cheque a um cliente da empresa onde trabalhava como office-boy. Com uma conta rápida a partir do valor do cheque, concluiu que uma locadora de carros podia render gordos negócios. Aos 23 anos, concretizou o plano e, a partir da primeira loja, com seis fuscas financiados, chegou hoje à maior empresa do setor no Brasil, a Localiza, com uma frota de mais de 50 mil carros. Leia abaixo entrevista sobre a história dele. 

– Qual é a origem da sua família?

Meu avô era Libanês e veio para o Brasil foragido por desavenças e perseguição religiosas. Ele chegou no país aos 14 anos, na primeira dezena do século passado. Como todo jovem imigrante, veio sem dinheiro, sem recursos, sem falar o idioma, apenas com o endereço de um conhecido. Aqui ele se realizou e constituiu uma certa riqueza. Estou contando essa história do meu avô para dizer que a mobilidade social já existia desde aquela época. Um menino pobre do Líbano veio ao Brasil e, ao morrer, era um homem milionário. Meu avô foi para nós um exemplo. Era um homem muito dedicado aos negócios. Morava nos fundos do armazém de secos e molhados para assistir aos clientes na hora que fosse. Ele começou como mascate na rodoviária de São João Del Rey. Vendia pequenas bugigangas como espelho, pente, cortador de unha, canivete, caneta, tudo numa mala sobre um cavalete. Foi assim que ele começou a vida e foi conseguindo acumular o mínimo de capital. Mudou-se para uma cidade melhor e abriu um pequeno armazém, mudou para outra cidade e abriu outro armazém.

– Quando ele veio, chegou a que cidade?

São João del Rey. Depois ele foi para São Tiago, viu oportunidades na cidade de Morro do Ferro, depois na cidade de Passatempo. Ficou nessa região com armazém de secos e molhados. Antes de falecer ele tinha casado e quando faleceu tinha acumulado um patrimônio formado por fazendas, casas de aluguel, armazéns, postos de gasolina, linha de ônibus. Ele morreu um homem muito rico. Ele abraçou esse país como se fosse sua terra natal. Tanto é que não permitiu que os filhos falassem árabe. Ele dizia: nós adotamos essa terra como nossa terra natal, não vamos voltar, aqui é nossa pátria, aqui finquei minhas raízes, aqui vamos ficar. Ele tinha pavor de algum filho falar árabe e voltar para lá. Ele não queria, porque a imagem dele era uma imagem de perseguição religiosa, de guerras. Era um país complicado, ele veio para o Brasil com o passaporte da Turquia porque naquela época não existia o Líbano como país. Todos os libaneses vieram com passaporte da Turquia e por isso eram chamados de turcos. Só para lembrar: os libaneses não são árabes, eles são fenícios. Os turcos, do que meu avô era taxado, eram aqueles homens bárbaros, que não eram uma cultura fina. Era uma coisa pejorativa. Temos dentro de casa um exemplo com muita força de vontade, de trabalho, determinação. Uma pessoa incansável, que gozava de uma boa saúde, inteligência mínima e que tinha prazer de servir e atender clientes.

– Onde o senhor nasceu?

Nasci em Oliveira, uma cidade na zona oeste de Minas Gerais. Lá meu pai tinha um pequeno negócio.

– O seu pai teve uma infância tranquila?

Sim. Teve uma educação muito rígida e quando se casou mudou-se para outra cidade, como era costume na época. Os laços familiares diminuíram, naquela época não era tão fácil ir de uma cidade para outra como hoje. Meu pai se casou, mudou-se para Oliveira, tinha um pequeno armazém. Sou do meio de uma família de nove filhos. Meu pai faleceu muito cedo num acidente na minha cidade natal num clube náutico. Ele, dois primos e uma prima sofreram um acidente e faleceram.

– Quantos anos o senhor tia?

Eu tinha 13 anos de idade. Eu diria que o exemplo do meu avô e a morte precoce de meu pai, que morreu aos 47 anos, marcaram a minha vida. Aos 13 anos de idade eu só tinha irmãs mais velhas e me transformei num arrimo de família. Aquilo para mim foi uma coisa que me amadureceu muito rápido e melhorou minha vida em termos de perspectiva porque eu já agia como um indivíduo adulto apesar da idade tenra. Eu trabalhava no pequeno armazém do meu pai, lutando com uma certa dificuldade. Apesar da falta de luxo, a vida no interior não deixava de ter uma certa dificuldade.

– A sua mãe não trabalhava?

Nunca trabalhou. Era uma pessoa dedicada à família, ao lar e aos filhos.

– Quando o seu pai morreu o senhor assumiu os negócios.

Isso. Eu tinha duas irmãs que estudavam em Belo Horizonte, Oliveira era uma cidade pequena e não tinha recursos e lugares para empregar e nem universidade.

– Quantos habitantes tem Oliveira?

Hoje tem 35 000. Naquela época uns 20 000. Aos 17 anos eu achei que não seria mais tempo de continuar na minha terra natal pelas perspectivas que eu queria na minha vida. Queria fazer faculdade boa, buscar oportunidades de negócios. Numa cidade do interior eu não teria as chances que talvez uma cidade grande me proporcionasse. Aos 17 anos eu mudei para Belo Horizonte, onde morava numa pensão. Dividia um quarto com um amigo. Era office-boy de uma companhia de engenharia, que seria o meu primeiro emprego. Isso foi em 1967.

– Qual era o nome da empresa?

Chama-se Construtora Euller e Barbosa Ltda. Ela não existe mais, os sócios se separaram e a empresa teve uma cisão. Eu era office boy: buscava sanduíche, pagava título no cartório, ia ao banco. Esses serviços de rua. Esse foi o meu primeiro emprego.

– Lembra o salário?

O salário mínimo era 84 moedas e eu ganhava 100 moedas. Não lembro qual era a moeda da época. Era 1,2 salário mínimo. Na minha primeira semana de trabalho, eu tinha um contador ao qual eu me subordinava. Muito preocupado comigo (tinha a ilusão de que menino do interior era mais bobo), me mandou pagar uma conta. Ele disse: você vai conferir a nota, pede para bater o carimbo, datar e assinar. Uma vez feito isso você entrega o cheque. E pediu que eu repetisse o procedimento e me mandou fazer o pagamento. Andei alguns quarteirões e chego num estabelecimento comercial para pagar a conta. Disse que tinha ido pagar uma conta do contador do Barbosa e o senhor procurou a nota num bloco, destacou a nota e eu pedi que ele carimbasse, assinasse e datasse. Ele já fazia aquilo automaticamente, pegou o carimbo que ele sabia de cor qual era, pegou uma almofadinha vermelha e bateu, fazendo aquele barulho: pá, pá. Guardou, datou, assinou. Peguei o cheque que estava apertadinho na minha mão e entreguei para ele. Naquele momento aconteceu um fato que preciso voltar no tempo para te contar uma história.

– Qual é essa história?

Eu queria ser pianista. Aos seis anos eu tinha um colega que estudava piano. Achava aquilo bonito. Na verdade, eu não queria ser pianista, queria aprender a tocar piano. Toda vez que meu colega ia à aula de piano ele me ligava e a gente ia junto. Num sábado, dia do pai assistir a família, cada um contava quais eram seus problemas, um queria sapato, outro dinheiro, um queria contar que o irmão tinha batido nele. Pela ordem de tamanho, chegou a minha vez e ele, que me chamava de Zé, perguntou o que eu queria. Todo mundo queria alguma coisa. Ninguém chegava lá e dizia que não queria nada, só dar um beijo nele. Todo mundo queria alguma coisa. Eu falei que queria estudar piano com a dona Juju. Quando falei isso senti que tinha feito uma besteira. Ele me fitou assim, o olho dele ficou vermelho, apertou o meu braço. Senti que ele ficou com raiva e eu quis sair. Ele perguntou: quer dizer que você quer estudar piano? Você quer aprender a tocar piano? Disse que não queria mais. Ele chamou todos os irmãos para chegar mais perto e perguntou se eu sabia quem tinham sido Mozart, Bethoven. Com o dedo em riste. E eu não conhecia. Ele falou: eles eram os maiores pianistas do mundo e não há de ter nada igual. Não é você nem nenhum de vocês que vai ser tão bom quanto eles. E deixa eu falar como eles viviam: viviam pobres, famintos, esfarrapados, tocavam para os outros por um prato de comida. Para poder fazer figura, ele disse que os pianistas dormiam de favor num quartinho de empregada como tinha em casa. Eu decidi ali que não queria mais ser pianista, que aquilo não dava dinheiro. Meu pai pediu que eu tirasse aquela idéia da minha cabeça e pediu que eu abrisse um negócio. Ele falou: você vai crescer, abrir um negócio, ganhar dinheiro, comprar uma casa, constituir família e comprar a maior radiola que tiver e comprar todos os discos de pianistas. Na hora que saí do colo dele ele me deu um tapa com força, ele estava com raiva. Lembro da cena com detalhes, do cabelo molhado do meu pai, da água descendo no rosto dele.

– E depois, como ficaram as coisas?

A vida inteira ele falava: Zé, o que você vai ser quando crescer? E eu respondia: vou abrir um comércio para mim. Estava jogando futebol na rua e ele me chamava da janela: Zé, o que você vai fazer quando crescer? Vou abrir um comércio para mim. Chegava de viagem de noite e sussurrava no meu ouvido: o que você vai ser quando crescer? Vou abrir um comércio para mim. Durante o almoço, ele só olhava para mim. Eu levantava a cabeça e respondia balbuciando. Isso aconteceu durante anos. Ele tinha uma verdadeira aversão a que eu não abrisse um comércio para mim. Eu tinha o nome dele. Dos seis aos 13 anos ele deve ter me perguntado umas 30, 40 000 vezes: o que você vai fazer quando crescer? Voltando para Belo Horizonte, paguei a conta e fui ler a nota. Num bilionésimo de segundo eu fiz uma conta. Estava escrito ali: número de diária de Volkswagen tanto. Fiz uma regra de três se um dia custa x, 365 dias são 365x. Em voz alta, balbuciei na frente do dono da locadora: vou abrir um negócio desse para mim. Falei aquilo instintivamente porque seria mal-educado da minha parte falar aquilo. Eu jamais faria aquilo, que fluiu de mim. Ele perguntou: o que foi que você disse? Eu respondi que o valor do recibo estava correto. Não esqueci mais aquele negócio, eu tinha 17 anos de idade. A loja ficava numa avenida e, aos sábados, sentava num banco para ver os clientes chegar e sair. Aquilo era prazeroso para mim. O dia de maior satisfação para mim era quando eu tinha que ir lá pagar a locadora. Fazia de tudo para ficar um pouco mais de tempo lá. Gostava daquele ambiente, das pessoas chegando. Para mim era alucinante.

– Como chamava a locadora?

Volks Car. Ficava numa esquina da avenida Alves Cabral, uma região central de Belo Horizonte. Quando decidi abrir uma locadora abri na outra contra-esquina. Todas as agências de Belo Horizonte nessa mesma região. Continuei trabalhando até que aos 23 anos decidi abrir uma locadora de carros.

– Mas o senhor ficou dos 17 aos 23 trabalhando como office boy?

Não. Fui office boy e logo depois fui promovido. Aos 21 anos fui transferido para uma outra empresa do grupo. Apesar da pouca idade, era gerente dessa mineradora e tinha 240 pessoas subordinadas a mim. Era gerente geral, fazia compras, folha de pagamento. Tomava conta da empresa.

– O senhor estudou?

Fazia faculdade de administração de empresas na Fumec em Belo Horizonte à noite.

– O senhor trabalhava para pagar a faculdade?

Sim. Mas eu estava bem, subi muito rapidamente no meu emprego. Com dois anos trouxe a minha família para Belo Horizonte. Aluguei um apartamento, todos ficavam lá. Eu tinha uma condição financeira boa, era muito bem remunerado. Cedo eu tive uma condição financeira boa. Aos 21 anos de idade ser gerente de uma companhia com 240 funcionários. Eu era o único gerente, não tinha ninguém acima de mim. Galguei muito rápido meu crescimento nessa companhia.

– O senhor levou a família toda para Belo Horizonte?

Sim. Alguns irmãos já estavam encaminhados. Um morava em Juiz de Fora, outro em Belo Horizonte. Uma outra era casada. Então, eu trouxe duas irmãs solteiras, dois irmãos e a minha mãe.

– E o senhor bancava a casa toda?

Era meio dividido, uma irmã trabalhava. Então um pagava a conta de luz, outro o condomínio. A gente rateava a conta, mas eu assumia o maior compromisso porque era eu que ganhava mais naquele grupo de pessoas.

– Como era o apartamento?

Era um apartamento simples no bairro Anchieta. Tinha dois quartos, era suficiente para a família.

– O que te fascinava tanto numa locadora?

Tudo. O carro, o cliente chegar, sair. Voltar, abrir o capô para mostrar o pneu estepe. O dono e o cliente davam uma volta no carro para checar. Estava enamorado com a locadora. Aos 23 anos de idade decidi abrir o meu negócio.

– Qual era o nome da mineradora?

EIMCAL. Empresa Industrial Mineradora Calcária. Era uma fornecedora de calcário. Mas recebi uma proposta para ir para uma rede de supermercados, chamada Epa. Era a maior rede de supermercados de Minas Gerais. Ainda existe em Belo Horizonte. Recebi um convite, tinha um colega de escola que era um dos proprietários, era o irmão caçula. Ele gostava muito de mim, do meu trabalho. Sabia o que eu fazia na mineradora e me convidou para ser gerente dessa rede de supermercados. Eu tinha 22 anos. Fiquei dois anos nessa rede, era gerente de logística e distribuição. Abastecia todas as 70 lojas na grande Belo Horizonte. Era uma rede de grandes mercearias. Trabalhava nessa rede, mas não saía da minha cabeça a idéia de abrir um negócio para mim. Depois de dois anos irriquieto, insatisfeito porque eu queria abrir um comércio, aquilo estava impregnado dentro de mim. Quando vi aquele recibo eu estava condicionado.

– O senhor era bom no colégio?

Sempre. Era muito curioso. Na universidade, eu me fascinava com as matérias de Direito Comercial, de Marketing. Eu sabia que tinha escolhido o curso certo. Aos 23 anos de idade eu abri a Localiza.

– O primeiro nome da empresa foi Localiza?

Isso. A gente pensava muito grande, embora tivéssemos apenas seis carros comprados a crédito.

– A gente quem?

Eu e meu sócio, o Antônio Claudio. Ele era meu fornecedor na empresa de mineração, tinha uma empresa de transportes. Quando fui para a rede de supermercados Epa, fiz com que ele fosse o meu fornecedor lá também. E o chamei para gerenciar o departamento de transporte da rede. Ele era o meu gerente de transporte do Epa. Foi uma empatia. Quando resolvi abrir o negócio eu perguntei se ele queria ir comigo. Abrimos a Localiza em maio de 1973 sem dinheiro, sem nada. Só com a coragem, um sonho grande e vontade de trabalhar. Abrimos com seis Fuscas usados e comprados a crédito.

– Mas o senhor não estava bem de vida nessa época?

Eu tinha um bom salário, mas era consumido no padrão de vida da minha família. Três irmãos faziam universidade, eu liberava meus irmãos de assumir os compromissos da casa. Mas era um executivo apenas bem remunerado. Era um bom salário, mas não era 20 000 reais hoje. Era uns 4, 5 000 reais. Para quem tinha 22 anos estava bom demais.

– E já tinha um patrimônio?

Nada. Morava de aluguel. Aos 23 anos abrimos a Localiza.

– O que é a Localiza hoje?

É uma empresa presente em nove países na América do Sul, mais de 350 agências. Temos mais de 50 000 carros, é uma das maiores empresas de aluguel de carro do mundo. Estamos entre as sete maiores do mundo.

– Quanto fatura a empresa?

Só posso falar sobre passado. Te dou esse número com precisão mais tarde. A Localiza hoje é um modelo de empresa de aluguel bem gerenciada, bem administrada. A Localiza tem um elevado nível de qualidade de serviços, que é imbatível. Isso vem dos meus primórdios, meu pai tinha prazer em atender os clientes do armazém. Isso ficou impregnado em mim. Isso continua até hoje. Atendemos da melhor forma possível todos os nosso clientes. Temos uma frota nova, substituímos os carros a cada 12 meses para sempre dar ao cliente um carro novo, seguro, confortável. Temos um sistema de tecnologia moderno. As transações são feitas online, de qualquer parte do mundo. Você pode alugar um carro em Porto Alegre e devolver em Belém. Temos a maior malha do país. A Localiza é maior do que a segunda, a terceira e a quarta somadas.

– Mas como a empresa cresceu tanto no começo?

Começamos em Belo Horizonte como uma pequena agência no centro da cidade. Logo depois abrimos uma agência no aeroporto. Em 1978 já éramos líderes de mercado em Minas Gerais. Achamos que deveríamos ir para fora. Durante o primeiro choque do petróleo a Localiza resolveu comprar uma locadora de Vitória, no Espírito Santo. Sempre houve uma grande ligação de Minas com o Espírito Santo, Belo Horizonte com Vitória. Muitas empresas mineiras, como a Vale do Rio Doce e a Samarco tinham negócio em Vitória. Compramos uma locadora de Vitória e aprendemos a administrar uma filial à distância.

– Foi a primeira filial?

Isso. Com o sucesso do modelo, compramos dez outras cidades. Compramos em Curitiba, São Paulo, Salvador, Aracaju, São Luís do Maranhão, Recife, Campo Grande. Primeiro, fomos líderes de mercado em Belo Horizonte. Depois da liderança a primeira estratégia foi de aquisições. Compramos 11 no Brasil porque era um processo mais rápido. Depois disso começamos a expansão orgânica, começamos a abrir nós mesmos as nossas agências. Quando veio a crise da dívida externa em 1983, com capital escasso e caro, começamos a estratégia de franchising. Franqueamos o interior do Brasil e deu certo. Em 1992, com o PIB negativo e Itamar Franco no poder e o Brasil numa situação difícil, decidimos iniciar o nosso projeto de internacionalização. Começamos na Argentina em 1993 e hoje estamos em todo o continente, menos na Venezuela. Nosso objetivo é cobrir toda a América Latina. Até 2009 estará consolidada a rede na região. Temos 350 agências. Nenhuma outra rede chega a um terço disso.

– Quantos funcionários?

3 200

– E a receita de 2006?

Um bilhão, cento e quarenta e cinco mil reais.

– O senhor tem planos de levar a Localiza para outros continentes?

Não. Ainda tem muito mercado no Brasil. Temos mais a ganhar consolidando a nossa marca aqui. Queremos dominar mais esse mercado. Hoje não faz sentido ir para a Europa e para os Estados Unidos. A América Latina ainda tem muito o que crescer. No futuro vai ser um continente sem fronteiras, como o Nafta, a Comunidade Européia. Os países têm a inflação sob controle, os fundamentos da economia sob controle. Com todos os problemas que temos na América Latina, isso vai ter que dar certo alguma hora. A empresa tem que estar preparada para quando o continente entrar numa fase de crescimento contínuo.

– Quando o senhor chegou a Belo Horizonte, o senhor achou que teria um crescimento tão grande na vida?

Não. Eu sabia que ia abrir um negócio, mas não sabia o quê. Eu sabia que aquilo era passageiro, que estava naquela empresa de passagem. Eu era irriquieto e não sabia o que queria abrir. Mas na hora em que cheguei aos 17 anos de idade eu decidi a minha vida. Foi uma questão de timing. Não fiz pesquisa de mercado, nada. Fiz uma conta e disse que queria abrir um negócio como aquele para mim. É até perigoso algum jovem ler isso e dizer que vai abrir um negócio dessa forma. É claro que para isso requer uma pesquisa, um conhecimento prévio. Eu não sabia nada de aluguel de carro, fiquei até surpreso. Foi uma coisa absolutamente intuitiva.

– A que o senhor atribui essa virada?

Sou incorrigivelmente otimista. Em qualquer situação. Sou otimista por natureza. Não é só o otimismo. Sou muito determinado, obstinado. Trabalho muito duro. No início da Localiza, eu fazia como o meu avô, que morava no fundo da loja para atender os clientes que às vezes batiam na porta fora de hora. Quando abrimos a empresa, a gente já trabalhava 24 horas. Imagine uma locadora 24 horas há 33 anos. Hoje Belo Horizonte não tem nenhuma locadora 24 horas, nem a Localiza. Naquela época a gente precisava de cliente, cada semana um de nós dormia no escritório.

– Tinha um quartinho nos fundos?

Não, tinha um sofá na sala. Era ali que a gente dormia. Às vezes tinha cliente que fazia reserva para as cinco horas da manhã. Outros devolviam o carro meia-noite. Cada semana um ficava de plantão. A gente se barbeava lá, tomava banho lá, almoçava lá. Na hora do almoço ia para uma outra sala, comia alguma coisa e continuava. Era eu que lavava os carros junto com o meu sócio. O cliente devolvia o carro, a gente recebia o carro. Quando o cliente saía a gente lavava o carro e depois colocava a gravata de novo para atender cliente. Quantas vezes fui motorista da Localiza. Às vezes algum cliente pedia carro com motorista e eu ia lá. Como eles não sabiam que o motorista era o dono, eles muitas vezes davam até gorjeta. Uma vez fui levar um engenheiro até Caeté, que decidiu parar num restaurante para almoçar. Ele disse para eu sentar numa mesa separada e comer. Chegou um prato para mim e almocei normalmente. Eu era o motorista dele, ele achava aquilo completamente natural. Lavar carros, ser motorista. Eu fazia de tudo. É normal em qualquer empresa, todo mundo que tem empresa pequena sabe que isso é normal. Todos os empreendedores são iguais: fazem de tudo, varrem a loja. Eu não era diferente dos outros. Fui um obstinado, passei por momentos difíceis. A empresa esteve numa situação difícil em 1976, 77, tinha poucas chances de continuar no mercado. Os dois sócios capitalista viram a situação nebulosa e pediram para sair da companhia. No momento que mais precisava deles, eu perdi o aval e não conseguia recursos, não conseguia dinheiro. Foi por obstinação. Os relatórios diziam que a empresa não tinha chance de sobreviver. Os números mostravam que o negócio era inviável no papel. Hoje a empresa tem elevada reputação no mercado financeiro brasileiro, junto aos nossos clientes e na comunidade onde vivemos por causa dos nossos elevados padrões éticos. Desde 1990 montamos um código de ética. A Localiza nunca foi fornecedora do governo, nunca vendeu para o governo. Hoje é mais tranquilo porque o processo é mais transparente. Houve períodos que era complicado. Não fazemos certos negócios que nossos concorrentes fazem. Aos 16 anos eu fazia um curso científico, trabalhava à tarde e à noite fazia um curso técnico. Tive o prazer de o meu professor nos ensinar e dar como leitura o livro A Riqueza das Nações, de Adam Smith. Aos 16 anos de idade comecei a entender o que era mercado. Até hoje sou discípulo de Adam Smith, da escola liberal. Isso me ajudou muito. Ao entender o que era mercado livre, concorrência, competência… Nunca tivemos financiamento de governo, de BNDES, benefício de imposto. Nunca tivemos nada.

– O senhor estudou num colégio estadual?

Sim. Hoje temos três consultorias internas ajudando a nos preparar para um novo ambiente competitivo, de um país que poderá crescer a taxas de 4, 5% ao ano por alguns anos. Não vemos isso desde os anos 70. Se isso acontece, a Localiza vai ter saltos de crescimento. Temos que deixar a empresa preparada como um carro de Fórmula 1, que está preparado para o dia da corrida. É isso que fazemos com a Localiza. Como a nossa indústria é uma indústria nova, temos taxas de crescimento superiores ao PIB. A nossa média tem sido de 5,7 vezes o PIB. Se o PIB vai crescer 4, 5%, você imagina o crescimento que a gente tem pela frente. Dobramos a companhia a cada três, quatro anos. Esse é o grande desafio. Fomos a primeira empresa no Brasil a abrir ação com 10 anos de balanço em US Gap.

– O senhor é casado?

Sou casado duas vezes. A primeira foi aos 25 anos, fiquei 10 anos casado e não tive filho. Depois me casei e tenho três filhas de 18, 16 e 15.

– Eles trabalham com o senhor?

Não. Lá na empresa, por elevados níveis de governança, os nossos filhos não podem trabalhar na companhia. Ela é absolutamente profissional. As minhas filhas estão preparadas para fazer aquilo que elas se sentirem confortáveis a fazer.

– Elas já sabem o que fazer?

A mais velha faz business administration nos Estados Unidos. As duas mais novas ainda estão no colégio.

– O senhor acredita que teria um crescimento como esse num país que não o Brasil?

É difícil falar o se, porque o se é uma conjunção que nos permite falar o que quisermos. Acho que a oportunidade que tivemos no Brasil é do tamanho do mercado em que nos inserimos. A empresa começou com seis Fuscas usados e tem 50 000 carros porque ela está num país que cresceu no governo militar nos anos 70, nos anos 80 tivemos Figueiredo e Sarnei. Tivemos um indivíduo chamado Funaro como Ministro da Fazenda que declarou a moratória. Tivemos um período de Collor cassado. Entrou o Itamar Franco. Tivemos um período de Fernando Henrique Cardoso, uma administração mais moderna, e depois entrou um operário para administrar o Brasil. A história dele você conhece. Nosso país foi um país conturbado. A Localiza é do tamanho que o Brasil permitiu que ela fosse. Vamos mudar de dimensão. A Localiza existe há 33 anos. Tem uma locadora nos Estados Unidos que tem 50 anos. Ela tem 1,1 milhão de carros. O mercado onde eles se criaram tem pessoas competentes, boas, usaram boas estratégias, souberam trabalhar o mercado, evitar a concorrência. Por que não temos 1,1 milhão de carros? Porque é impossível. Lá uma locadora tem isso. Aqui não é possível. A Localiza é maior do que a segunda, terceira e quarta locadoras somadas.

– Mas e pessoalmente? O senhor acredita que teria deixado de ser office boy para ser dono da maior locadora do país?

Sim. Oportunidade existe em todo lugar. O cara não sai de uma garagem da Califórnia e se transforma no homem mais rico do mundo? O Slim, que hoje é o homem mais rico do mundo, não sai de uma pequena corretora para ser o homem mais rico do mundo? Essa locadora americana foi criada por um vendedor de Cadillac, um vendedor de concessionária. Ele montou a Enterprise. Oportunidades existem em qualquer parte do mundo. Elas existiram e continuam existindo. No mercado brasileiro, um punhado de jovens criaram negócios e estão crescendo. Amanhã elas serão grandes empresas. Algumas são da área da internet. O mercado muda demais. Grandes redes desapareceram. Veja o caso da Sears, por exemplo. O mundo dos negócios muda. Oportunidade existe em qualquer parte. Não importa se a pessoa abre uma pequena sorveteria e tem sucesso. Porque sucesso não é tamanho, mas ligado a realização. Às vezes ter a melhor padaria da região é um sucesso. Em todos lugares do mundo existem oportunidades. Vide o que tem de novos milionários e bilionários na China e na Rússia. Aqui na Localiza, estamos no meio de uma trajetória onde nós construímos uma grande base de um negócio. A partir dela, uma nova Localiza se inicia. Aquela fase difícil, de locadora pequena, acabou. Hoje é uma rede em consolidação na América Latina.