Francis Collins

Diretor do Instituto Nacional de Pesquisas do Genoma Humano no National Institutes of Health, de Bethesda, Maryland

psMeus talentos, sejam quais forem, foram cultivados desde cedo por meus pais. Muito ativos ainda depois dos 90 anos, fundaram e desenvolveram diversos grupos de teatro e artes em uma pequena cidade da Virgínia. Cresci em meio a toda essa energia criativa e tive inúmeras oportunidades de observá-los trabalhar sua mágica: recrutando pessoas atarefadas, atraindo-as para sua visão de excelência compartilhada e, em seguida, dando a elas a responsabilidade e a liberdade de perseguir um sonho — e até de reformulá-lo.

No início da década de 50, meus pais decidiram inaugurar a temporada teatral de verão no bosque de carvalhos de nossa fazenda. Como não havia dinheiro para o projeto, meu pai recrutou um pequeno grupo de profissionais da cidade vizinha — advogados, homens de negócios e engenheiros –, todos com ocupações rotineiras no dia-a-dia. Nos fins de semana, eles trabalhavam duro na fazenda, empurrando pedras para montar o palco. Nos sábados à noite, meus pais organizavam festas maravilhosas, com muita música, para comemorar os progressos feitos. Daquele pequeno grupo de homens saíram atores, diretores e produtores de todo tipo de peça, de Shakespeare a Sondheim. Atualmente, o teatro está em sua 48a temporada consecutiva, e os ingressos, é claro, estão esgotados.

Com relação à má liderança, acho que a crítica tem de ser feita primeiramente a mim mesmo. Logo que cheguei ao instituto, os pesquisadores haviam acabado de fazer uma nova descoberta, não totalmente confirmada, sobre câncer de cólon. Preocupado com o fato de que a informação pudesse ser usada prematuramente, redigi uma declaração de cautela que meu conselho consultivo ratificou imediatamente. Contudo, eu não havia me empenhado o suficiente na ocasião para estabelecer contato com as sociedades médicas profissionais, igualmente interessadas no assunto. Embora elas concordassem em linhas gerais com minha declaração, seus chefes ficaram furiosos porque as recomendações vinham do instituto, e não deles. Levei anos para consertar esse erro, e com isso aprendi uma lição de valor inestimável: mesmo quando você tem certeza de que está certo, e sabe que outros especialistas provavelmente concordarão com você, nunca atropele o consenso. É uma tarefa que leva tempo, mas é fundamental.