Fortuna de André Esteves tem maior queda entre banqueiros

A fortuna do presidente do BTG Pactual mostra uma perda de US$ 700 milhões neste ano

São Paulo – A fortuna de André Esteves, presidente do Conselho de Administração do Grupo BTG Pactual, mostra uma perda de US$ 700 milhões neste ano. O valor de suas empresas foi arrastado por empréstimos e investimentos em companhias afetadas pelo escândalo da Petrobras.

A queda de 21 por cento de Esteves é a maior entre banqueiros no Bloomberg Billionaires Index.

O Banco BTG, única empresa listada do grupo, registrou um desempenho 4 pontos porcentuais abaixo do Ibovespa até esta altura do mês, desempenho que coincide com o dólar acima dos R$ 3,00 pela primeira vez em uma década.

A fortuna de Esteves, cujo pico foi de US$ 4,9 bilhões em setembro, hoje é avaliada em US$ 2,6 bilhões.

A garantia de Esteves, durante uma teleconferência de resultados, em 26 de fevereiro, de que a exposição à Petrobras é “muito pequena” não impediu a perda de valor.

O Deutsche Bank AG cortou ações do BTG para “manutenção” em um relatório de 8 de março depois que o banco descumpriu as estimativas de lucro dos analistas e disse que o BTG tem a maior exposição entre os bancos brasileiros a empresas dos setores de petróleo e de construção envolvidas na Operação Lava Jato, maior investigação de corrupção da história do país.

“O risco para o BTG parece ser bastante alto”, disse Monica de Bolle, ex-economista do Fundo Monetário Internacional que é sócia da Galanto Consultoria.

“O banco tem uma boa parcela de exposição aos ativos da Petrobras ou a ativos relacionados à Petrobras, o que pode ser um tanto problemático”.

Transparência limitada

A análise da exposição do BTG às repercussões na Petrobras surge depois que o lucro no quarto trimestre subiu 10 por cento.

A empresa descumpriu as estimativas de quatro analistas consultados pela Bloomberg após um prejuízo em sua divisão de principal investments e provisões mais elevadas para empréstimos inadimplentes.

A divisão de principal investments, que inclui private equity, imóveis e investimentos próprios, registrou uma receita negativa de R$ 132 milhões no quarto trimestre, disse o BTG no dia 26 de fevereiro.

Tito Labarta, analista do Deutsche Bank, disse que 14 por cento dos empréstimos do BTG estão expostos aos segmentos de energia e infraestrutura, pontuando que os riscos provavelmente estão contidos porque os empréstimos corporativos respondem por menos de 10 por cento da receita do banco.

Ele disse que a exposição do BTG poderia ser maior porque a transparência é “muito limitada”.

Esteves disse, durante a teleconferência de 26 de fevereiro, que o banco estava pronto para entregar um retorno sobre a ação de 20 por cento mesmo se a fornecedora de sondas Sete Brasil, cliente do banco, virasse “pó”.

Um ex-gerente da Petrobras disse em audiência no Congresso no dia 10 de março, que tinha conhecimento de pagamentos de propina envolvendo a Sete Brasil e que os bancos agora estão relutantes em oferecer financiamento à empresa.

Exposição à Eneva

A assessoria de imprensa da Sete Brasil disse em um e-mail no dia 13 de março, que está trabalhando para conseguir financiamento de longo prazo e recusou, nesta semana, um pedido para realizar comentários adicionais.

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), do Brasil, ainda não desembolsou um empréstimo de R$ 10 bilhões aprovado para a Sete Brasil há 14 meses.

O BTG investiu na empresa industrial juntamente com o Banco Bradesco SA e o Banco Santander Brasil SA.

O BTG não tinha provisão para qualquer prejuízo potencial em um investimento próprio de cerca de R$ 1 bilhão. O banco também investiu mais de R$ 1 bilhão em dinheiro de clientes.

Esteves disse durante a teleconferência, que o aumento da provisão do banco, de cerca de R$ 300 milhões, se deveu em grande parte à exposição à Eneva SA, empresa brasileira de eletricidade controlada pela EON SE e pelo ex-bilionário Eike Batista.

A companhia, que antes se chamava MPX Energia SA, entrou com pedido de recuperação judicial em dezembro. Esteves recusou um pedido de entrevista para esta reportagem.

Fortuna em queda

Um relatório de analistas do Goldman Sachs Group Inc. de 27 de fevereiro disse que a fragilidade do BTG no quarto trimestre nos negócios de trading e empréstimo corporativo foi equilibrada pelos “fortes” resultados na gestão de ativos e por uma taxa efetiva de imposto mais baixa.

Apesar das provisões mais altas em empréstimos corporativos e mercados globais, um desinvestimento bem-sucedido em private equity e um “escudo fiscal” de juros sobre o capital fez com que “no fim praticamente tudo fosse compensado”.

A fortuna de Esteves está a caminho da maior queda trimestral desde que o BTG concordou em conceder US$ 1 bilhão em crédito para apoiar o império de commodities de Eike Batista em março de 2013, promessa que fez a fortuna do banqueiro cair mais de US$ 1 bilhão na época.

O bilionário se recuperou quando o BTG cancelou o empréstimo sem ter liberado os recursos.

Presidente do Conselho de Administração do principal banco em operações brasileiras de fusão, aquisição e subscrição de ações no ano passado, Esteves brincou em uma entrevista em 2012, dizendo que o BTG — oficialmente chamado Banking and Trading Group — significa Better Than Goldman (“Melhor que o Goldman”, em tradução livre).

O BTG era negociado a uma relação preço/valor patrimonial de 1,36 no final de 2014, contra 1,13 do Goldman Sachs.

Ativos na África

Nascido no Rio de Janeiro, Esteves construiu sua fortuna vendendo o banco de investimento brasileiro que ele possuía com sócios ao UBS em 2006 por US$ 3,1 bilhões e comprando-o de volta três anos depois por US$ 2,5 bilhões, quando o banco suíço passou por dificuldades durante a crise financeira.

Hoje, a divisão de commodities do BTG é promissora — as exportações de matérias-primas subiram para US$ 500 milhões no ano passado, saindo do zero.

Alguns outros investimentos afundaram. O BTG tem participações na Brasil Pharma SA, na BR Properties SA e no Banco Pan SA e cada uma dessas empresas caiu mais de 40 por cento no ano passado.

O banco disse em um e-mail no dia 17 de março, que 4 por cento de sua carteira de crédito estão no setor de petróleo e gás. Embora uma parcela de 40 por cento dessa carteira seja garantida pela Petrobras, outra fatia de 40 por cento tem relação com empresas europeias e latino-americanas não ligadas com o setor brasileiro e outros 20 por cento são diversificados, sem uma concentração relevante.

Belo Monte

Em maio, auditores do governo abriram uma investigação a respeito da aquisição de US$ 1,5 bilhão, pelo BTG, de uma participação de 50 por cento em operações da Petrobras em seis países africanos depois que um parlamentar de oposição indicou que o preço poderia ser baixo demais.

A Petrobras disse em um comunicado em janeiro, que 14 empresas foram convidadas a apresentar ofertas e que o preço foi analisado pelo Standard Chartered Bank, assessor do negócio.

O Standard Chartered preferiu não comentar. O BTG disse em um e-mail, que a aquisição na África não tem relação com o desempenho das ações do banco, que segundo a empresa tem estado em linha com o de outros ativos brasileiros.

Os empréstimos do BTG para o setor de infraestrutura incluem um repasse de R$ 2 bilhões do BNDES para Belo Monte, terceira maior usina hidrelétrica do mundo. O BTG disse em um e-mail, que o empréstimo inclui garantias para os acionistas.

A usina de R$ 29 bilhões, que deveria começar a fornecer energia no mês passado, não terá fornecimento até novembro, disse a operadora Norte Energia SA em um e-mail.

Os procuradores que acusaram as empresas construtoras de formarem um cartel para manipular os contratos da Petrobras estão voltando sua atenção para a megarrepresa.

O presidente da Camargo Corrêa SA, Dalton Avancini, fechou um acordo de delação premiada com os procuradores para testemunhar sobre o que ele disse ter sido uma fraude e a respeito da participação da empresa em um cartel para a construção de Belo Monte, disseram duas fontes com conhecimento do assunto, que não puderem ser identificadas porque o acordo é privado.

‘Modo de paralisia’

A Camargo disse que está cooperando com as autoridades e ao mesmo tempo trabalhando para consertar qualquer irregularidade. A Norte Energia preferiu não comentar porque não teve acesso ao depoimento.

O declínio de Esteves ocorre depois que magnatas brasileiros como o construtor César Mata Pires e o empreendedor do setor de educação Janguiê Diniz perderam o status de bilionários neste ano.

A especulação de que a economia estagnada e a fragilidade fiscal levarão a um rebaixamento da nota soberana do Brasil ajudou a impulsionar a queda do real.

“O desconhecido coloca as pessoas em uma espécie de modo de paralisia”, disse de Bolle em entrevista por telefone. “Esse tipo de risco de contraparte pode estar ocorrendo no setor financeiro”.