Fina estampa

Ser a maior fornecedora brasileira de fios acrílicos já não basta para a centenária Paramount. O objetivo agora é se tornar uma grife internacional de tecidos

A sofisticação do empresário paulistano Fuad Mattar, um senhor sorridente de cabelo grisalho sempre impecavelmente penteado, vai além da cuidadosa escolha da gravata ou do lenço de seda discreto que costuma usar num dos bolsos do paletó. Fuad, como é mais conhecido, tem outros hábitos refinados. Um deles: pai do tenista brasileiro Luiz Mattar, que teve certa evidência internacional nos anos 80, ele assiste há mais de 30 anos à final do torneio de Roland Garros no camarote do francês Bernard Lacoste. O amigo de Fuad é filho de René Lacoste, um dos melhores jogadores de tênis da década de 20 e dos primeiros a estrear as quadras do estádio mais famoso da França, além de fundador da grife de roupas esportivas que leva seu sobrenome. “Ficamos amigos freqüentando Roland Garros, que é uma espécie de clube”, diz Fuad. De lá, ele costuma seguir para a província de Biella, no norte da Itália. A região abriga outra paixão desse senhor: os lanifícios que fabricam os tecidos de pura lã mais prestigiados do mundo. São nomes como Vitale Barberis Canonico, Loro Piana e Ermenegildo Zegna.

É compreensível que Fuad seja fascinado por Biella. Aos 77 anos, ele é o presidente e um dos principais acionistas da centenária Paramount, uma empresa têxtil familiar que no ano passado obteve mais de 65% da sua receita de 250 milhões de reais com a venda de fios acrílicos para malharias e linhas para trabalhos manuais de tricô, crochê e tapeçaria. De três anos para cá, suas viagens à Itália ganharam uma importância ainda maior: ele decidiu que a Paramount também produziria tecidos finos de pura lã.

A Paramount — também representante da marca Lacoste no Brasil — nasceu em 1893 como uma pequena tecelagem no bairro paulistano do Bom Retiro. O fundador foi o pai de Fuad, o imigrante libanês Nassib José Mattar, que teve cinco filhos. Há 30 anos Fuad é o único membro da família na gestão da empresa. Até a década de 50, foram milhares de metros de tafetá, crepe e cetim que garantiram o crescimento do negócio. “Charme e bom-tom, organdi Paramount”, diz Fuad, ao se lembrar da campanha publicitária do tecido mais badalado da empresa meio século atrás. Ela costumava ser veiculada durante as transmissões dos concursos de miss na antiga TV Record.

Nas últimas décadas, entretanto, as mudanças no hábito de vestir das mulheres, que aos poucos foram trocando as visitas às costureiras por idas às lojas de roupas prontas, empurraram a empresa para outro negócio: o de fios. Atualmente, a Paramount, com 3 300 funcionários, sede em São Paulo e cinco fábricas no interior paulista e no Rio Grande do Sul, é a maior fornecedora de fios acrílicos para as malharias nacionais. Além disso, exporta 25% da produção para países da América do Sul e Japão. “Empresas como Aziz Nader, Vicunha e Kurashiki já foram concorrentes, mas acabaram saindo do mercado devido à sua instabilidade”, diz Luiz Cavalcanti, diretor da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit). Em 2001, a Paramount registrou um lucro de 22 milhões de reais, 50% menor que o do ano anterior. “A crise da Argentina, um dos nossos principais mercados externos, nos afetou muito”, afirma Fuad. Mas o resultado, diz ele, é positivo se comparado aos anos de prejuízo que a empresa enfrentou na década de 90, primeiramente com a abertura do mercado e, depois, com a paridade do real com o dólar, que prejudicou a exportação.

Os tecidos finos de lã respondem atualmente por 12% do faturamento da Paramount. O objetivo de Fuad é que dentro de cinco anos se transformem no carro-chefe da empresa. “Quero que a minha marca de tecidos, a Collezione Paramount, seja tão prestigiada quanto as italianas”, afirma. A meta é ambiciosa. O renome dos lanifícios da Itália — característica presente em quase tudo que o país produz na área da moda — é resultado de anos de investimento em dois pilares: qualidade e marketing. Se considerado o histórico cultural dos italianos, é possível dizer até séculos de investimento. O Lanifício Loro Piana, por exemplo, fornecedor de grifes como Giorgio Armani, Brioni e Canali, existe desde 1812. “Estamos falando do país que mais trata a moda como negócio”, diz Luciane Robic, consultora paulista especializada em varejo e marketing de moda.

Como Fuad pretende enfrentar essa concorrência? Recorrendo às mesmas armas dos italianos. Os passos para fabricar um produto de qualidade já começaram a ser dados. Nos últimos três anos, a fábrica da empresa em Santa Isabel, município da Grande São Paulo, recebeu cerca de 45 milhões de dólares em investimentos. Grande parte dos recursos foi gasta em máquinas para que a Paramount se equiparasse tecnicamente aos padrões dos melhores lanifícios da Europa. Ao andar pelos amplos galpões da fábrica, Fuad mostra entusiasmado alguns dos novos equipamentos adquiridos na Itália, Suíça, Alemanha, França e Bélgica. Mas isso não é tudo. “Precisávamos mais do que de máquinas para atingir o nível de excelência que desejamos”, afirma.

O mais recente investimento da Paramount, cujo valor ele não revela, foi a contratação de uma equipe de cinco técnicos estrangeiros — quatro italianos e um peruano — para uma consultoria de dois anos e meio. Cada um deles é especializado numa das etapas de fabricação dos tecidos de pura lã. O italiano de Biella Giuseppe Fornaro, de 54 anos, ex-funcionário do Lanifício Fratelli Bertotto, estava no Peru antes de ser recrutado pela Paramount há um ano e meio. É o responsável por definir os padrões, as mesclas e as cores dos produtos. “É o nosso estilista”, diz Fuad. Fornaro trabalha em parceria com Carlo Scoramal, um profissional italiano de função semelhante que permanece em Biella. “A ligação entre eles é o nosso canal direto com tudo que está acontecendo na Itália”, diz José Assini Perdomo, diretor da divisão de tecidos da Paramount. Mário Luis Bertocchi, um peruano filho de italianos que também estudou em Biella, comanda a tintura dos fios.

Depois de tintos, os fios são cuidadosamente monitorados nos teares pelo italiano Claudio Landi. Conferir o acabamento é o papel de Giovanni Giachero. Seu trabalho inclui ensinar aos funcionários brasileiros procedimentos minuciosos, como vistoriar metro por metro do produto com uma lupa à procura de possíveis imperfeições. “Um fio a menos depõe contra a nossa qualidade”, diz Giachero.

Fuad afirma estar satisfeito com os impactos que os novos equipamentos e o trabalho dos profissionais de Biella têm produzido no negócio de tecidos. Os produtos ainda não estão sendo disputados por grifes famosas mundialmente. Mas, em janeiro deste ano, no último SP Fashion Week, o principal evento da indústria da moda brasileira, os estilistas Ricardo Almeida e Alexandre Herchcovitch apresentaram criações confeccionadas com tecidos da Paramount. “A empresa é conservadora, mas tem mostrado capacidade de inovar para divulgar seu produto”, afirma a consultora Luciane Robic. Além de uma boa estratégia de marketing, a parceria com os estilistas mostra que a Paramount se preparou para atender aos seus exigentes pedidos. “Passei a fazer com a Paramount toda a criação dos tecidos, que antes só fazia fora do país”, diz Ricardo Almeida. “Desenvolvo um produto exclusivo e de qualidade, o que poupa tempo e muitas viagens.” Isso é possível, segundo Ricardo Almeida, graças a um software da empresa que permite simular diferentes misturas de fios e tramas. Herchcovitch também criou laços estreitos com a Paramount. “Uso os tecidos dela em muitas das minhas peças porque a qualidade pode ser comparada à dos europeus”, diz.

Outra vitrine para os tecidos são as lojas de roupas masculinas Brooksfield, Brooksfield Junior, Via Veneto e Harrys, que juntas formam uma das maiores cadeias vendedoras de ternos do país. Em seus 80 pontos-de-venda, ternos com as marcas das lojas e também com a etiqueta Collezione Paramount Super 120 — uma fibra de pura lã de toque sedoso — disputam a preferência do consumidor com modelos Ermenegildo Zegna, entre outras marcas renomadas, também confeccionados com Super 120. “O produto da Paramount está no nível dos outros artigos das nossas lojas”, diz Carlos Manuel Antunes, dono das redes.

A qualidade dos produtos pode ser semelhante. O preço, entretanto, é bem diferente. Um terno feito por confecções brasileiras com Collezione Paramount em uma loja Brooksfield é vendido, em média, por um terço do preço de um Zegna, que não sai por menos de 1 500 reais. O motivo: há muito a venda do tecido fino de lã deixou de ser o principal negócio da Zegna, uma empresa nascida como um lanifício em 1910, também em Biella. Hoje, é uma marca com forte identidade no mundo da moda e que se tornou sinônimo de roupa masculina de qualidade. No ano passado, as vendas de peças de vestuário e acessórios da Zegna foram responsáveis por 85% do seu faturamento de 570 milhões de dólares. Uma trilha parecida também vem sendo seguida por outro gigante italiano, o grupo têxtil Marzotto, dono de um faturamento de 1,5 bilhão de dólares em 2001. Em 1991, o Marzotto adquiriu a grife alemã Hugo Boss e passou a ter um destino certo para os tecidos que produz.

Para tornar sua marca mais conhecida, a Paramount também deveria montar uma confecção? “Acho que poderia ser um caminho mais fácil do que tentar a notoriedade por meio de uma marca de tecidos”, afirma Ricardo Almeida. O estilista usa os produtos da Paramount nas peças vendidas em suas lojas, mas não divulga a etiqueta do tecido. Fuad não descarta a idéia de ter uma confecção para fortalecer a sua marca. Mas afirma que ainda é cedo para pensar nisso. “Estamos trabalhando primeiro para desmistificar o uso da lã no Brasil”, diz. Ele se refere ao programa Lã o Ano Todo, uma série de palestras promovidas para revendedores, lojistas e clientes com o objetivo de convencê-los de que o uso dos tecidos finos da Paramount não se deve restringir ao inverno. A iniciativa é vista com bons olhos pelo varejo. “O consumidor não tem muita idéia de que é um tecido que pode ser usado o ano todo nem sabe o que é um Super 120”, diz Antunes, das lojas Brooksfield.

O trabalho de construção da marca Collezione Paramount fora do país ainda não começou. A empresa já exporta quase metade da sua produção de tecidos de pura lã para Estados Unidos, Europa e países da América Latina, mas o acréscimo da etiqueta nas roupas confeccionadas por clientes estrangeiros ainda não ocorre. “Todos resistem muito a colocar a marca de terceiros nas suas peças”, diz Perdomo. “Para conseguir isso algum dia, temos de seguir adiante com a consolidação do produto.” Mesmo sem poder ostentar sua etiqueta nas roupas feitas no exterior, Fuad diz estar orgulhoso por ter conquistado clientes internacionais de peso. Ao falar sobre eles, exibe um terno cinza de corte impecável. A etiqueta estampada em uma das mangas é Oscar de La Renta, e o terno foi feito com o Super 120 da Paramount pela Oxford Industries, uma das maiores confecções dos Estados Unidos e dona da licença da marca De La Renta nesse país. “O tecido é nosso, embora nossa etiqueta não esteja aqui”, afirma. A Paramount também é fornecedora da Hartmarx, a principal concorrente da Oxford.

Esses tecidos são a menina-dos-olhos de Fuad. Por isso, encontrar tempo para cuidar dos outros negócios do grupo não tem sido fácil para ele. Um deles, além da produção de fios e de tops — o produto da primeira etapa de transformação da lã –, é a licença da Lacoste. Hoje, as roupas da grife francesa, vendidas em cerca de 300 lojas no país, respondem por 14% do seu faturamento.

Fuad diz que transformar os tecidos Collezione Paramount num objeto de desejo é o seu último grande projeto. A idéia de deixar o comando do grupo antes de realizá-lo, aparentemente, está fora de questão. Ele não gosta de falar a respeito de sucessão, muito menos sobre a possível participação dos seus quatro filhos na gestão do grupo. “Todos eles são muito bem-sucedidos em negócios fora da empresa”, diz. “Além do mais, o retrospecto de muitas empresas têxteis familiares no país não é positivo.”


OS FIOS DO NOVELO
O que é o grupo
Paramount
FUNDAÇÃO: 1893

SEDE:
São Paulo, SP

CONTROLE ACIONARIO:
família Mattar

FATURAMENTO EM 2001:

250 milhões de reais

LUCRO:
22 milhões de reais


NUMERO DE FUNCIONARIOS:

3 300


FABRICAS:
5 (em São Paulo
e no Rio Grande do Sul)


ÁREAS DE NEGOCIOS E SUA
PARTICIPAÇÃO NO FATURAMENTO
Tops de lã : 9%

Produção anual de 3 600 toneladas
Fios: 65%

Produção anual de 13 000 toneladas
de fios industriais para malharias
(marca Lansul) e fios para tricô,
crochê e tapeçaria (marca Pingouin)
Tecidos: 12%

Produção anual de 2,5 milhões
de metros de tecidos de lã pura
Lacoste: 14%

Produção, distribuição e
comercialização de roupas da grife francesa por meio de 51 lojas
franqueadas e 252 lojas multimarcas

Produto da primeira etapa de transformação da lã