Filme sobre pai de Eike põe o dedo na ferida da Vale

Documentário Eliezer Batista - O Engenheiro do Brasil traz bastidores importantes sobre a privatização da Vale e ainda ajuda a mapear o DNA do bilionário Eike Batista

Esqueça Lua Nova, 2012 ou qualquer outro blockbuster em cartaz. Para quem se interessa por economia e negócios, o filme mais interessante nos cinemas é Eliezer Batista – O Engenheiro do Brasil. É verdade que a fita, vista por apenas 350 pessoas no final de semana passado, o primeiro de exibição, comete boa parte dos pecados capazes de estragar qualquer documentário. A produção foi paga pelas empresas interessadas na divulgação da história. Os depoimentos de amigos são óbvios e excessivamente elogiosos. A própria família se encarrega de contar boa parte do enredo. A narração dos acontecimentos é feita de uma maneira  quadradona.


Em uma reunião com o então presidente antes da privatização, Raphael de Almeida Magalhães, amigo de Eliezer, diz ter aconselhado FHC a desistir porque a Vale poderia ser o instrumento do governo para resolver os problemas de logística do país. Com a geração de caixa da mina de Carajás, a maior do mundo, com capacidade de produção de 100 milhões de toneladas de minério ao ano, a Vale poderia viabilizar a construção das obras necessárias para reduzir o custo Brasil. Segundo Magalhães, FHC teria levado adiante o plano de leiloar a mineradora com a justificativa de que era necessário convencer os investidores da seriedade de seu programa de privatizações.

É óbvio que vender um bem estatal tão valioso quanto a Vale apenas por uma questão de credibilidade seria estupidez. FHC não comenta diretamente a afirmação. Diz apenas que tomou a decisão mais adequada para o Brasil naquele momento e descarta a precipitação nas privatizações, citando empresas que se mantiveram sob o controle estatal em seu governo. “Poderíamos ter privatizado a Petrobras, mas eu não permiti que isso acontecesse.”

De qualquer forma, quem assiste ao filme sai do cinema com a convicção sobre a necessidade de diminuir a presença do Estado na economia um pouco abalada. O controle da Vale foi vendido por 3,33 bilhões de reais – um preço ínfimo sob qualquer ângulo de análise. Hoje o lucro da mineradora em apenas três meses costuma ser superior ao valor desembolsado pelo consórcio formado por BNDES, fundos de pensão, CSN, Opportunity e NationsBank para arrematá-la.

No entanto, é impossível afirmar que, sob a tutela estatal, a Vale teria resultados próximos aos apresentados atualmente. Privatizada, a mineradora cresceu exponencialmente, gerou riquezas, contratou funcionários e passou a pagar muito mais impostos. Há quem defenda, principalmente na esquerda mais radical, que o governo poderia ter colhido os mesmos frutos.

Mas basta olhar para a Eletrobrás para entender que uma posição de liderança e ativos valiosos não são suficientes para transformar uma estatal em um colosso. Nas mãos do Estado, a maior empresa de energia do Brasil dá exemplos de má governança, retém o pagamento de dividendos aos acionistas, chega a dar prejuízo em alguns trimestres e, vez por outra, deixa milhões de brasileiros sem luz por não resolver problemas que poderiam ser evitados.

Não é possível voltar ao passado, cancelar o leilão de privatização da Vale, acelerar de novo o tempo e saber o que aconteceria. Líquido e certo é que hoje milhões de brasileiros podem lucrar com as riquezas produzidas pela Vale via mercado de capitais, comprando ações da mineradora. Enquanto isso, em empresas como a Eletrobrás, quem mais ganha são alguns caciques políticos e seus apadrinhados.