Fiat: liderança ameaçada

Michele Loureiro

Quando começou a produzir o emblemático Fiat 147 em Betim (MG), no ano de 1976, a italiana Fiat nem de longe imaginava que o mercado brasileiro seria tão promissor. Já são 15 milhões de veículos e 50 modelos lançados em quatro décadas – e há 14 anos ninguém vende mais carros que a Fiat no Brasil. Porém, além de ser o ano em que a companhia comemora o marco de 40 anos no Brasil, 2016 pode ser o ano em que a montadora perde a liderança.

De janeiro a setembro deste ano, a Fiat vendeu 140 mil veículos, montante 42,7% menor do que o volume emplacado no mesmo período de 2015. A retração é a maior entre as quatro maiores montadoras instaladas no Brasil. Volkswagen tem queda de 37,3%, enquanto a Ford caiu 36,1% e a General Motors vendeu 10,6% a menos.

No acumulado do ano, a liderança do mercado está nas mãos da GM – que detém 16,9% do mercado, enquanto a italiana está com 15,3% da fatia. As explicações para o momento difícil da empresa começam com o cenário econômico. Não é novidade que as vendas de veículos foram afetadas pela restrição de crédito, altas nos juros e aumento do desemprego. A indústria automotiva regista queda de 20,1% em 2016. E esta é justamente a explicação dada pela montadora. “Estamos na mesma onda do setor”, diz Stefan Ketter, presidente Fiat Chrysler Automobiles (FCA).

Mas então por que as concorrentes caem menos? Para consultores de mercado, as limitações da Fiat vão além do cenário econômico. É bem verdade que a Fiat já começou acertando quando chegou ao Brasil e foi a primeira montadora a se instalar fora do eixo Rio-São Paulo. Em Betim, os custos de mão-de-obra eram menores, existia comprometimento do governo estadual e a empresa não sofria com o forte sindicato dos metalúrgicos de São Paulo. A estratégia era de se posicionar como uma marca de produtos simples, eficientes, robustos e de manutenção barata. Isso deu certo por muitos anos. Prova disso são os modelos de sucesso Uno, Palio e Tipo.

Só que a estratégia parou de funcionar. O mercado mudou, o consumidor evoluiu e a concorrência aumentou. Para se ter uma ideia, a participação de mercado das quatro maiores montadoras instaladas no Brasil era de 86% no ano 2000, passou para 74% em 2010 e, atualmente, é de 57%. “A briga da Fiat pela liderança a qualquer custo, bem como produtos com menos design e tecnologia justificam as quedas de participação de mercado ano a ano desde 2012”, diz Milad Kalume Neto, gerente de desenvolvimento de negócios da consultoria Jato Dynamics. Ele afirma que o lançamento de produtos como Onix, da GM, HB20, da Hyundai e até o Etios, da Toyota, atrapalharam o desempenho da montadora, que estava acostumada a nadar de braçada com o Palio e Uno.

A recente tentativa da Fiat de chacoalhar o mercado de entrada foi menos barulhenta que o previsto. Em abril de 2016, a companhia lançou o compacto Mobi. O carro com valores a partir de 32 mil reais pecou no preço e emplacou 17 mil unidades até setembro. O modelo está apenas na 23ª colocação do ranking entre os mais vendidos.

SUCESSO DAS PICAPES

A criação da FCA, em 2014, quando Fiat, Chrysler e Jeep passaram a ser uma só empresa, começa a colher frutos só agora — justamente em um momento decisivo do mercado nacional.

A FCA trouxe boas oportunidades de sinergia, que segundo o grupo vão “desde compra de peças, passando por logística combinada até o desenvolvimento conjunto de novos produtos, aproveitando o melhor de cada marca”. A picape Toro é um exemplo dessa sinergia. Totalmente desenvolvido no Brasil,é uma das boas notícias para o grupo. Lançado em fevereiro deste ano, o modelo já vendeu 27 mil unidades – bem acima das 10 mil emplacadas pela sua principal concorrente Renault Oroch.

A picape é produzida no Polo Automotivo Jeep de Pernambuco — um investimento de 7 bilhões de reais inaugurado em 2015 com a produção do Jeep Renegade, o décimo carro mais vendido este ano no país, com 39 mil unidades até setembro. Ainda em Pernambuco, recentemente foi iniciada a produção do Jeep Compass – foram três modelos em 18 meses, um índice impressionante para a indústria.

Para o presidente da FCA, o cenário externo deve continuar impedindo uma retomada das vendas no curto prazo. Ele não se arrisca em previsões para 2017, mas acredita que o mercado não deve avançar 8%, como previsto pela Anfavea, associação que reúne as montadoras. “Não acho que caia mais, mas é difícil saber o que vai acontecer. Acredito que a retomada será mais lenta”, diz Ketter. Apesar do discurso cauteloso, ele afirma que 2017 e 2018 serão os anos da Fiat, sem dar mais detalhes.

Enquanto o mercado nacional não mostra sinais de que voltará a patamares observados no início da década, Ketter afirma que o grupo ensaia novos caminhos. “Todos os nossos últimos produtos foram desenvolvidos com plataformas globais e estão prontos para serem exportados”, diz. Os três produtos de Pernambuco abastecerão países da América do Sul e a expectativa é ir ainda mais longe. “Dependemos que o governo federal faça mais acordos comerciais para ampliarmos as exportações”, afirma.

No Salão do Automóvel de São Paulo, as atenções do grupo ficarão com o recém-lançado Jeep Compass, que chega às concessionárias em novembro, e com uma nova versão do Toro com o motor Tigershark 2.4 Flex, com câmbio automático de nove marchas. Ao que tudo indica, os produtos de Pernambuco agora têm a missão de salvar a pátria.