Napa tem agitos além do vinho

Kathy Chin Leong
© 2017 New York Times News Service

Napa, Califórnia – No anos 1980, quando John Truchard era adolescente, o lugar mais popular no centro de Napa era o McDonald’s da Rua Jefferson. “Era uma cidade fantasma”, conta Truchard, proprietário de uma loja de vinhos, a JaM Cellars. “Não havia bons restaurantes e nada de interessante para fazer”.

Napa, com uma população de cerca de 80 mil habitantes, é a maior cidade do Vale do Napa, além da capital do condado. Até pouco tempo atrás, mesmo depois que o vale se tornou famoso no mundo todo pelos vinhos produzidos na região, os turistas quase sempre ignoravam a cidade e preferiam “subir o vale” para participar da degustação de vinhos, se hospedar em chalés luxuosos e comer em restaurantes premiados. Lugares como St. Helena, Yountville e Calistoga atraíam os turistas, enquanto Napa, uma hora ao norte de San Francisco, costumava representar apenas uma parada para encher o tanque do carro. Um dos problemas era o fato de que sempre que chovia as ruas do centro ficavam alagadas.

Agora, o centro da cidade tem 65 restaurantes e 24 espaços de degustação de vinho, afirmou Craig Smith, diretor-executivo da Downtown Napa Association. Há duas décadas, o centro tinha uma sala de degustação e aproximadamente 30 restaurantes – em sua maioria servindo café da manhã e almoço, já que não havia motivo para abrir para o jantar, afirmou. O que contribuiu para o crescimento foi um projeto de transposição para evitar as enchentes. Completado em 2015, o rio foi tirado do centro da cidade.

Para acabar de vez com a imagem sonolenta de capital de condado, o centro de Napa está passando por uma reforma completa. Três novos projetos importantes de construção devem ser terminados ainda este ano.

Um deles, o First Street Napa, é uma construção de 25.550 metros quadrados que irá custar US$ 200 milhões. O projeto vai cobrir três quarteirões e irá incluir mais de 40 espaços para lojas, escritórios e restaurantes. A âncora será o Archer Hotel, de 183 quartos, que terá cinco andares de apartamentos e contará com um mezanino com piscina e restaurante, tornando-se o mais alto de todo o Vale do Napa. O hotel representará um enorme contraste em relação às construções de um ou dois andares da cidade. O projeto não inclui a construção de estacionamentos, já que contará com as estruturas e lotes existentes.

A nova filial do Instituto Gastronômico da América, ou CIA, em inglês, será inaugurada em Copia. O projeto de dois andares, avaliado em US$ 12,5 milhões vai incluir acampamentos gastronômicos, um museu de artes culinárias e sessões de degustação de vinho. A loja, os cursos e o restaurante já estão funcionando.

Por fim, a rede “Feast It Forward”, um canal de TV on-line, está terminando de construir um prédio de dois andares em estilo colonial que vai incluir um shopping, vinho e alimentação, demonstrações gastronômicas ao vivo e música. Katie Shaffer, presidente da Feast It Forward, afirmou que a empreitada é um indício de que “as pessoas finalmente vão levar o centro de Napa a sério”.

“O gigante está prestes a acordar”, afirmou.

Ken Tesler, diretor-executivo do Blue Note Napa, o novo bar de jazz do centro da cidade, afirmou “Graças a Deus as ruas não ficam mais desertas às 21h”.

Para ele, “isso não tem nada a ver com a velha Napa. Há 10 anos, St. Helena era o lugar mais descolado. Há cinco anos, era Yountville. Agora, o centro de Napa é o melhor da região, e o crescimento foi impressionante”.

Truchard conta que começou a ver jovens pela primeira vez no centro de Napa. Os bares e as baladas ficam abertos até a meia-noite todos os dias. “Agora o centro está cheio de energia. Funcionamos até as duas da manhã no fim de semana.”

Contudo, nem todos estão animados com as mudanças. Algumas pessoas acreditam que a cidade está se dedicando demais ao turismo e que os habitantes vão acabar sofrendo com isso.

“Adoro a ideia de uma revitalização, mas as pessoas da cidade sentem que foram deixadas de lado”, afirmou Harris Nussbaum, de 81 anos, que vive em Napa há mais de 60 anos. “Eu me oponho ao desenvolvimento excessivo e à construção de arranha-céus sem o acréscimo de áreas de estacionamento. Depois que você constrói um monstro, não há como tirar ele dali”.

O Archer Hotel é grande demais em comparação ao seu entorno, afirmou Patricia Damery, dona de um sítio no Condado de Napa. Ela teme pelas perspectivas de longo prazo no desenvolvimento da comunidade. “Por que estamos construindo tantos hotéis? Não temos trabalhadores em número suficiente para dar conta dos novos”. Damery faz parte da coalizão Napa Vision 2050, que defende o planejamento responsável e sustentável do Condado de Napa.

Ela afirmou que muitos trabalhadores não têm condições de viver em Napa, o que os leva para cidades vizinhas, de onde vêm todos os dias. “Não sou contrária ao desenvolvimento, mas quero um desenvolvimento equilibrado. O centro está maravilhoso e muito melhor do que era antes, mas também precisamos investir em coisas que melhoram a qualidade de vida, como moradia e transporte público.”

Jill Techel, prefeita de Napa desde 2005, afirmou que a maioria das pessoas está contente com o crescimento econômico da cidade. A comissão de planejamento municipal aprovou a instalação de empresas no centro, incluindo mais cinco hotéis e pousadas, além de duas salas de degustação. Além disso, pelo menos quatro novos restaurantes vão abrir as portas em 2017.

“Não estaríamos aqui se a população local não estivesse apoiando. Eles dizem que precisam renovar as energias do centro, e queriam aproveitar o impulso das outras mudanças”, afirmou Todd Zapolski da Zapolski Real Estate, que está construindo o First Street Napa.

Jim Brandt, dono da Napa General Store, afirmou que o quarteirão onde o Archer Hotel vai ser construído está abandonado há um bom tempo. “E agora? Agora não vamos mais ter esse espaço ocioso. Estou animado para ver como vai ficar o novo hotel. Mais hotéis são uma boa ideia, porque contribuem para aumentar a arrecadação fiscal.”

Uma visão de futuro é fundamental, afirmou Brandt. “Quando abri a empresa há 16 anos, isso aqui era uma cidade fantasma. E nós tivemos que suportar a construção do muro de contenção de enchentes, o fechamento das ruas. Nunca tivemos tantos visitantes quanto agora.”

“As pessoas da cidade toda estão vindo para cá. Eu tento não me envolver com política, mas falo com muita gente que acha que as mudanças estão sendo majoritariamente positivas.”