Falta de profissional qualificado é o maior gargalo em tecnologia no país

Para a cofundadora do Nubank e os presidentes do Google e da SAP, o Brasil corre o risco de ficar de fora da corrida tecnológica

São Paulo — Por mais que o segmento de tecnologia seja um dos únicos que despontam com crescimento acelerado no Brasil, ainda há vários gargalos a serem enfrentados. O principal deles é a falta de mão de obra qualificada, como cientistas de dados, desenvolvedores de software e engenheiros, o que acaba afetando diretamente a produtividade e a competitividade das companhias. O problema começa na infância, com crianças de escolas públicas tendo pouco ou nenhum acesso a tecnologias, como notebooks.

“Por mais que 70% das pessoas estejam conectadas com seus smartphones, o estado precisa fazer mais”, afirma Fabio Coelho, presidente do Google Brasil, durante evento EXAME FÓRUM 2019, na manhã desta segunda-feira (9). “É necessário que mais pessoas sejam incluídas no processo de digitalização e que a inclusão seja plural. Ao mesmo tempo, o governo deve remover as amarras da economia.”

Cristina Palmaka, presidente da SAP Brasil, concorda. Para ela, não dá para dissociar a iniciativa das empresas dos programas de governo. “A tecnologia está aí. A questão é quão rapidamente faremos a nossa transição para uma realidade mais conectada. É bom lembrar que não estamos concorrendo só com as empresas vizinhas e, sim, com companhias da China e dos Estados Unidos”, diz. “Por isso, a capacitação da mão de obra é tão importante, não podemos perder o bonde por causa do analfabetismo digital.”

Veja também

A saída, segundo Cristina Junqueira, cofundadora do Nubank, pode ser pensar em alternativas que não apenas a educação tradicional. “Parte dos nossos melhores desenvolvedores não fez faculdade. Precisamos pensar de forma diferente, caso contrário, a gente vai ter de esperar outros 20 anos até que uma nova geração seja formada”, afirma. Uma forma de encontrar talentos é por meio de eventos voltados para desenvolvedores (chamados de hackatons).

O Nubank, por exemplo, promoveu há duas semanas o “Yes, she codes”, um evento exclusivo para desenvolvedoras de tecnologia. Ao todo, compareceram 1000 mulheres – algumas delas foram contratadas pela instituição financeira. “A nossa expansão para a América Latina também tem a ver com atração de talentos: existem muitos gênios nos países vizinhos que não conseguem emprego”, comenta Junqueira sobre a entrada do Nubank no México neste ano e da expectativa de iniciar uma operação na Argentina em breve.

A SAP, por sua vez, está preparando um evento voltado para desenvolvedores em Sergipe. A ideia é aumentar a equipe do laboratório digital que hoje conta com 1200 profissionais.

Mas não são apenas as pessoas que precisam de uma forcinha. O Google oferece o programa Google Campus de aceleração de empresas – até hoje cerca de 200 já foram aceleradas. “O problema é que o Brasil tem poucos campus, e acho que o governo deveria se voltar mais para essa questão, pois só a iniciativa privada não vai resolver todos os problemas da comunidade”, afirma Coelho. Hoje, existem polos de inovação importantes em Florianópolis (Santa Catarina) e em Recife (Pernambuco).

Além de mão de obra qualificada e de incentivos governamentais, a equação da transformação tecnológica só fecha com acesso a capital. Quanto a isso, os executivos afirmam que os investidores estão mais dispostos a aplicar seus recursos no Brasil. Tanto é que 74% do dinheiro de fundos de venture capital voltados para a América Latina são aportados no país.

“Passamos por um amadurecimento das empresas de tecnologia e do consumidor. Por isso, os investidores veem potencial aqui”, diz Junqueira. “É claro que no início do Nubank atraímos pessoas da elite, mas hoje temos 15 milhões de clientes. Isso é massa, gente que estava ganhando merreca na poupança e ficando três horas na fila do banco”, comenta.

Veja nos vídeos a seguir o que dizem Cris Junqueira, do Nubank, e Cristina Palmaka, da SAP.

Cris Junqueira, do Nubank

Cristina Palmaka, da SAP