Falta de documentação é ponto fraco de auditorias internas

Com a prorrogação em um ano do prazo para se enquadrar na lei Sarbanes-Oxley, empresas brasileiras devem reforçar a formalização das rotinas de trabalho

As empresas brasileiras, assim como a de outros países, ganharam mais um ano para se adequarem às exigências da seção 404 da lei americana Sarbanes-Oxley. Em vez de relaxar, a melhor opção para as companhias é redobrar os cuidados com a documentação de processos internos que, atualmente, são realizados sem um controle formal. “Cerca de metade dos problemas de auditoria interna refere-se à falta de documentos e a deficiências nos sistemas informatizados de gestão”, afirma Bruce Mesher, sócio da área de auditoria da Deloitte Touche Tohmatsu.

A avaliação é confirmada por pesquisas de outras consultorias. A americana Jefferson Wells International, que conta com clientes em mais de 30 países, por exemplo, realizou um estudo com 203 multinacionais. Dos entrevistados, 34% apontaram a falta de documentação dos processos internos como a principal deficiência para a adesão à Sarbanes-Oxley. A informalidade na revisão e aprovação de procedimentos administrativos foi citada por 23%. A falta de separação clara das tarefas entre os funcionários vem em seguida, com 19% (clique aqui e acesse a íntegra do estudo da Jefferson Wells, em inglês).

Para Mesher, da Deloitte, há várias razões para que esses problemas ocorram. Uma delas é cultural. No Brasil e em alguns outros países, de acordo com o executivo, os modelos de gestão incorporam uma parcela maior de tarefas e supervisões offline, isto é, que não são documentados em relatórios, planilhas ou qualquer instrumento de controle (se você é assinante, leia reportagem de EXAME sobre o impacto da Sarbanes-Oxley sobre as empresas brasileiras).

Mesmo quando usam maciçamente softwares de gestão integrada, como SAP, ERP ou Oracle, as empresas estão sujeitas a falhas de controle. “Há muitas ferramentas de supervisão embutidas nesses sistemas, mas é preciso evitar que elas tenham um efeito perverso”, diz Mehser, referindo-se ao outro oposto delegar todo o controle a sistemas informatizados, reduzindo mais do que o desejável a supervisão humana.

A falta de pessoal qualificado para a elaboração dos relatórios financeiros é o terceiro gargalo das auditorias internas, segundo Mesher. Com a crescente complexidade das normas contábeis e das leis internacionais, o nível de cálculo requerido para essas demonstrações de resultados escapa a uma parte dos profissionais e dá margem para outros erros.

A prorrogação de prazo para o enquadramento à lei foi anunciado nesta quarta-feira (2/3) pela Securities and Exchange Comission (SEC) o equivalente americano da Comissão de Valores Mobiliários. A seção 404 da Sarbanes-Oxley determina novos procedimentos de governança corporativa e de gestão de riscos às companhias americanas, mas também afeta empresas estrangeiras com ações listadas em bolsas dos Estados Unidos e subsidiárias de empresas americanas instaladas em outros países.