Experiência de brasileiro em Marte vira livro de gestão

Em janeiro, dois robôs pousarão sobre a superfície de Marte para desvendar a composição do solo do planeta. Mais do que uma evidência do gigantesco salto tecnológico dos terráqueos nos últimos anos, a Missão Marte é uma prova da habilidade da Nasa, a agência espacial americana, em administrar seu negócio e seus profissionais. Na raiz de projetos vitoriosos como o lançamento dos robôs para Marte, está uma centena de regras gerenciais não-oficiais, mas bem difundidas na agência.

Único cientista brasileiro a integrar a Missão Marte, o físico Paulo Antônio de Souza Júnior, adaptou essas lições no livro As 101 regras gerenciais da Nasa adaptadas para você (Qualitymark), lançado neste mês. Para Souza, um dos idealizadores de um equipamento para análise de traços de compostos de ferro, entre as lições mais valorizadas pela Nasa — mas desprezadas nas empresas brasileiras — está o rigor na prevenção e no tratamento das falhas, que são aqueles erros considerados irreparáveis. Os brasileiros tendem a ser otimistas e a minimizar riscos , diz Souza, que é analista de tecnologia da Vale do Rio Doce. Isso pode ser fatal em alguns projetos importantes.

Em entrevista ao Portal EXAME, Souza comentou algumas regras da agência que podem ser úteis a pessoas físicas e jurídicas para combater e remediar eventuais falhas:

Erros são lições aprendidas para o futuro

Em 1967, a cabine da Apollo 1 se incendiou na contagem regressiva, matando três astronautas por asfixia. Na época, um membro da Apollo 2 ficou satisfeito porque a tragédia aconteceu na Terra. “A reação imediata dele não foi de lamento , diz Souza. Ele notou que, como o desastre foi aqui, seria possível investigar as causas do problema para prevenir outras falhas.”

Tente criar planos de contingência e abordagens alternativas para itens com maior risco

Em julho, quando foi lançado o foguete com o segundo robô da Missão Marte, chovia muito no Cabo Canaveral. Com isso, o lançamento foi suspenso quatro vezes. Em todas elas, os técnicos da Nasa precisavam esvaziar o tanque de combustível e refazer a camada de cortiça que funciona como isolante térmico. Segundo Souza, isso só foi feito com rapidez porque a Nasa se previne em relação a adversidades meteorológicas como essa, deixando a equipe já preparada e com material de reposição disponível. Cada detalhe era decisivo, pois se o robô não fosse lançado naqueles dias, não chegaria a Marte. Ficaria no éter.

Experiência pode ser bom, mas testar é melhor ainda

Um relógio que registra até 24 horas e 40 minutos pode ser visto na Nasa. Ele acompanha o dia em Marte, que é maior que o nosso. Conciliar essa diferença é um desafio homérico , diz Souza. A agência faz tudo para que isso não coloque em risco a missão. Nos treinamentos, equipes se acostumaram a se guiar pelo horário marciano: um funcionário que um dia chegava às 11 da manhã, semanas depois, entrava no final da tarde. Batemos ponto pela hora de lá , diz Souza, que se ofereceu como voluntário para ter seu biorritmo medido. O objetivo é adequar o movimento corporal dos profissionais à rotina em Marte. Enfim, vale tudo para acompanhar os robôs sem bocejar.

Não tenha medo de errar ou você não terá sucesso

Apesar dos prazos rígidos e da grande pressão por resultados, não se ouve na Nasa, segundo Souza, um líder repreender alguém diante da equipe. A crítica mais exaltada só cabe entre quatro paredes. A repreensão, mesmo reservada, traz sempre uma palavra de incentivo , diz. Faz parte da cultura da agência não criar o medo de errar.

Redundância em hardware pode ser uma ficção

Souza comenta que na aviação civil é comum acreditar que três computadores de bordo dão uma garantia maior de segurança. Esse não é o raciocínio da NASA, segundo ele. Se um deles falha, outro também pode falhar , afirma. Nos robôs da Missão Marte, existem quatro equipamentos no braço mecânico para tocar as rochas. Cada um é examinado e testado como se fosse único porque, se um falha, a missão fica comprometida.