Evernote: a reinvenção de um unicórnio

Letícia Toledo

San Francisco – A sede da startup Evernote, em Redwood City a 40 quilômetros de San Francisco, é um símbolo da geração de startups que aos poucos se instalaram na região. Mais do que isso, este ano a sede da companhia – conhecida por seu aplicativo que funciona como um bloco de notas virtual – se tornou também um símbolo de resistência das startups do Vale que se mantém vivas, apesar do ceticismo de investidores.

Entre 2007 e 2012, a companhia recebeu quase 300 milhões de dólares em aportes de diversos fundos de investimentos e foi avaliada em 1 bilhão de dólares, entrando assim, para o time dos famosos unicórnios. No fim de 2012, o Evernote tinha mais de 30 milhões de usuários e seus fundadores falavam em preparar a companhia para abrir capital em breve.

Com bastante dinheiro em caixa e um aplicativo simples, a estratégia foi adotada foi adquirir outras companhias, como o site de comércio eletrônico para produtos para escritórios Market, e lançar novos aplicativos, como o de culinária, Evernote Food. Ao longo do ano passado, porém, investidores e especialistas do Vale do Silício começaram a questionar a estratégia de crescimento da empresa, dizendo que ela havia expandido demais, estava gastando muito dinheiro e seria destruída pelos concorrentes.

“A empresa tem feito uma série de aquisições menores, mas não conseguiu fazer uma única aquisição que teve um efeito importante sobre o seu principal produto. (…) O Evernote não faz bons produtos há um bom tempo, tenta fazer muitas coisas ao mesmo tempo e faz todas mal”, escreveu Josh Dickson, fundador da ferramenta de criação de sites Syrah, em um artigo no ano passado.

Comando novo

As críticas tomaram proporções maiores após o inesperado anúncio – em julho do ano passado –  de que o co-fundador e presidente da companhia desde o seu início, Phil Libin, estava sendo substituído por Chris O’Neill, até então executivo da companhia de tecnologia Google por nove anos. O’Neill foi convidado por um dos principais investidores do Evernote, o fundo americano Sequoia Capital, para substituir Libin e resgatar a startup. O fato de ser a primeira experiência dele como presidente de uma empresa também virou motivo para críticas.

Um ano depois, o O’Neill fechou metade dos escritórios que o Evernote tinha ao redor do mundo, sobraram sete. Ele cortou 20% dos funcionários da companhia – que eram 400 – e substituiu seus principais diretores, tirou regalias de seus funcionários como o serviço de limpeza para o apartamento de cada um e simplificou a linha de produtos.

O número de usuários hoje está em 200 milhões, ante os 150 milhões de quando assumiu e o número de clientes que pagam para usar seu aplicativo deve crescer mais de 40% este ano. No trimestre que se encerrou em setembro, a companhia afirma que teve o melhor faturamento de sua história, mas não revela quanto.

“Nós estávamos fazendo muitas coisas ao mesmo tempo. A primeira coisa que fiz quando cheguei foi pensar: ‘no que nós devemos nos focar? O que nós fazemos melhor que qualquer outra companhia no mundo?”, diz Chris O’Neill em entrevista a EXAME Hoje. Decidido a colocar todos os esforços no seu aplicativo de bloco de notas, O’Neill deu fim a uma série de aplicativos que a companhia oferecia, incluindo o de culinária e o de comércio eletrônico. “O nosso foco agora é crescer em receita”, afirma O’Neill.

A morte dos unicórnios?

As críticas que o Evernote tem enfrentado não são um caso isolado. Startups do Vale do Silício, principalmente os unicórnios, têm sido atacados por grandes investidores desde o ano passado, que desconfiam de seu real valor e predizem suas quedas. “Ao olhar para a lista dos chamados unicórnios, um punhado dessas empresas se tornarão grandes e duradouras, mas a maioria tem edificações frágeis”, escreveu Michael Moritz, famoso empreendedor e um dos principais sócios da empresa de investimentos Sequoia Capital.

Um colapso maior ainda pode estar por vir, mas ainda há dinheiro de sobra para as empresas de tecnologia. Até setembro deste ano, os fundos de venture capital levantaram 33,7 bilhões de dólares para investir em companhias americanas, segundo o serviço de informações financeiras Dow Jones. O valor é 24% a mais do que a quantia coletada no mesmo período de 2015. Mas a cautela para investir, garantem especialistas, está maior. “Os investidores estão menos tolerantes com companhias que estão operando no duplo negativo, que não dão lucro e nem geram receita, e menos dispostos a continuar a financiá-las”, diz Geoff Ralston, sócio da Y Combinator, uma das maiores aceleradoras do mundo.

“Eu acho que há uma mudança de volta para o que antes era normal. Perguntas como: ‘a sua receita está crescendo? Você está criando a equipe certa para sua companhia? O seu produto resolve um problema real?’ voltaram ao cenário. Há um ano e meio ou dois a realidade era crescer a qualquer custo”, afirma O’Neill.

O valor de uma startup

Apesar de garantir que está crescendo e que é rentável, o Evernote ainda enfrenta problemas. Em abril deste ano, um dos fundos que investiu na companhia, o T. Rowe Price Group, rebaixou o valor de seus principais investimentos em startups de tecnologia. A lista inclui empresas como o aplicativo de motoristas Uber, a companhia de armazenamento em nuvem Dropbox e, é claro, o Evernote.

O corte feito no valor do Evernote foi um dos maiores: 21%. Ao todo, desde que a T. Rowe Price aportou dinheiro na Evernote, em maio de 2012, o fundo já baixou em mais de 75% a estimativa do valor da companhia. A quantia aportada pelo fundo na startup não é pública. Mas, em uma conta simples, se todos os investidores da companhia resolvessem fazer o mesmo cálculo, seu valor poderia passar dos 1 bilhão de dólares para apenas 250 milhões de dólares.

“É preciso ter foco e crescer em receita, esse é o meu trabalho. Se fizermos isso, o resto toma conta de si mesmo. Tem muitas pessoas obcecadas com o quanto a companhia vale e não é isso que vai nos ajudar a construir a empresa”, afirma O’Neill.

Para isso, seu desafio principal é fazer com que as 200 milhões de pessoas que utilizam o Evernote assinem o pacote pago do aplicativo de notas. Isso enquanto concorrentes como o Google Drive e o Microsoft One Drive não cobram nada. “Nosso objetivo é ser uma extensão do cérebro do indivíduo. Nosso processo é mais simples: você abre o aplicativo e já pode escrever, inserir uma foto, um número ou o que mais precisar com um toque. As outras ferramentas de concorrentes são mais complicadas e o objetivo não é bem o mesmo”, afirma O’Neill.

O Vale do Silício monitora como nunca os passos e os sinais vitais da companhia, que já foi chamada de “o primeiro unicórnio morto”. Em seu perfil no LinkedIn, ao lado de seu cargo como presidente, O’Neill faz questão de ressaltar a qualquer um que a companhia não só vai muito bem, como também que “está contratando”. Pelo visto, o trabalho agora é provar que o unicórnio existe e que ainda terá muitos anos de vida pela frente.