“Eu era refém do Japão”, diz Ghosn em primeiro pronunciamento

"O Japão tem 99,5% de taxa de condenação, então não tinha nenhum sinal de que seria tratado de forma justa", declarou o executivo

São Paulo – O ex-CEO da aliança RenaultNissan, Carlos Ghosn, concede sua primeira entrevista desde que fugiu do Japão, no dia 29 de dezembro, e se asilou no Líbano. A entrevista começou às 10h de Brasília, e Ghosn, falando em pé, se concentra em explicar as injustiças de que diz ser vítima da justiça japonesa.

O executivo disse que sua prisão foi pedida em virtude de uma quantidade de dinheiro não estabelecida e não paga pela Nissan para ele. A acusação é que ele teria recebido bônus secretos da companhia que comandava. Segundo Ghosn, ele foi vítima de uma rede de intrigas criada pela procuradoria japonesa e por executivos da Nissan.

“Não fugi da Justiça, mas da injustiça e perseguição política no Japão”, disse Ghosn, preso em novembro de 2018 e libertado sob fiança em abril do ano passado, com suas comunicações e movimentos restritos e a proibição de deixar o território japonês.

O empresário, que também tem nacionalidades francesa e libanesa, é acusado de irregularidades financeiras, algo que sempre foi negado por ele e pelas quais pode enfrentar longas sentenças de prisão no Japão. Ghosn fugiu do Japão para o Líbano, onde chegou no final de dezembro, em um avião particular da Turquia.

Ele não informou como fugiu do Japão, mas que o fez porque havia sido “arrancado de seus familiares e amigos”, já que, após sua libertação sob fiança, ele foi proibido de ter contato com sua esposa Carole Ghosn.

“Não houve um só dólar pago com minha assinatura”, disse Ghosn. “Há todo um processo que deve ser seguido para pagamentos a um presidente”. Ele afirma que procurou um especialista em direito empresarial na Universidade de Tóquio que chamou a prisão de “uma vergonha”. “Em nenhum país democrático você é preso por esse tipo de acusação”.

 

O empresário acusou a justiça japonesa de atrasar o processo. “Eles tentavam o máximo possível atrasar o processo e o julgamento. Quando saí do Japão ainda não havia sido definida a data da primeira acusação. Talvez ficasse preso cinco anos no Japão antes de um julgamento”, afirmou Ghosn.

“Não tive direito à ampla defesa, nem a um julgamento rápido. O Japão tem 99,5% de taxa de condenação, então não tinha nenhum sinal de que seria tratado de forma justa. Senti que era refém de um país ao qual servi por 17 anos. Dediquei a minha vida profissional e tenho orgulho disso. Liderei uma companhia que estava mal e por 15 anos fui considerado um modelo no Japão, com mais de 20 livros de administração escritos sobre mim. E de repente procuradores e executivos dizem que sou um cara ambicioso”, disse.