Estrada cheia para a Uber da carga

Mesmo com a crise que tomou conta da economia, no ano passado o mercado brasileiro de cargas e logística faturou mais de 240 bilhões de reais. Apesar do número expressivo, um problema crônico continua: cerca de um milhão de caminhoneiros autônomos sofre para encontrar mercadoria para transportar. No Terminal Fernão Dias, um dos mais importantes do país, na Zona Norte de São Paulo, motoristas costumam ficar até vinte dias estacionados à espera de trabalho. Oferta de carga não falta, mas ela nem sempre se encontra onde os caminhoneiros estão.

Com tanto dinheiro em jogo e um problemão a resolver, um número crescente de empresas de tecnologia está investindo no mercado de logística. As companhias que apostaram nesse ramo não têm muito do que reclamar.

A pioneira é a TruckPad, uma startup criada em 2014 com o objetivo de aumentar os ganhos dos caminhoneiros e diminuir o tempo de espera. O sistema idealizado pelo empresário Carlos Mira conecta o caminhoneiro à carga através de um aplicativo para smartphones e tablets. No mapa, é possível visualizar todas as ofertas de frete disponíveis. Ao aceitar uma delas, o motorista tem acesso às principais informações do serviço, como preço, distância percorrida, e local de recolhimento e entrega da mercadoria.

O valor do transporte é pago pela empresa diretamente ao caminhoneiro, que deixa uma comissão de 2,5% para a TruckPad. Na média, os motoristas autônomos recebem menos de 25% do valor total do frete. Isso porque as operadoras de logística e as transportadoras ficam com mais de 50% do dinheiro, enquanto as agências de carga, que funcionam como intermediárias entre transportadora e caminhoneiro, cobram uma comissão que pode chegar a 30%. “Eles podem ganhar até o dobro em um negócio fechado através do aplicativo”, afirma Mira.

O principal objetivo da TruckPad é quebrar com a cadeia de intermediários. A startup também tenta acabar com um dos principais problemas do mercado de fretamento brasileiro, que é a defasagem de carga. Muitos caminhoneiros autônomos percorrem mais de 1.000 quilômetros para fazer uma entrega. Ao descarregar, têm dificuldade de encontrar outro serviço próximo e, por isso, precisam dirigir até um terminal como o da Rodovia Fernão Dias, em São Paulo.

A TruckPad é responsável por quase um bilhão de reais mensais em fretamento – o que daria uma comissão de 300 milhões de reais por ano. Na base de dados da empresa já são cerca de um milhão de trabalhadores cadastrados, além de 7.500 empresas utilizando o serviço. Antes de fundar a Truckpad, em 2013, Mira trabalhou por 30 anos na transportadora da família, e chegou à presidência. Mas viu a oportunidade de mudar a cara do setor em um outro negócio. O grande salto da TruckPad aconteceu em janeiro de 2015, quando recebeu um investimento da empresa de aplicativos Movile. Com a Movile, a TruckPad ganhou não só experiência, mas também capital para encarar uma competição crescente.

No final do ano passado, um dos criadores do Uber, o mexicano Oscar Salazar, investiu na CargoX, uma empresa que realiza o mesmo serviço da TruckPad. O aplicativo ainda está em fase de testes, mas deve receber um investimento de 100 milhões de reais nos próximos dois anos, com participação de fundos de investimentos Valor Capital Group e Lumia Capital. Além da CargoX, existem outros 30 aplicativos semelhantes no mercado. Um deles é o QueroFrete, de Porto Alegre.

Lançado em fevereiro do ano passado após um programa de aceleração na incubadora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o aplicativo tem cerca de 50.000 caminhoneiros cadastrados. A QueroFrete cobra uma comissão maior do motorista, cerca de 15% sob o valor pago pelo frete. “Ainda estamos em um momento de crescimento e temos outros modelos de receita, como publicidade dentro do aplicativo e serviços de rastreamento da carga”, diz Tiago Chilanti, presidente da QueroFrete. Com mais novatos no jogo, a tendência é que a rentabilidade caia para todos, o que já tem forçado a busca por novas fontes de receita. A TruckPad já fatura cerca de 1,5 milhão de reais com serviços de dados, como análise de rotas. Nessa estrada, quem apostar em um só serviço não deve ir muito longe.

(Pedro Henrique Tavares)