Estou sendo perseguido

O dono da Marítima rompe o silêncio

As mudanças implementadas por Henri Philippe Reichstul quando assumiu o comando da Petrobras, em maio de 1999, não desagradaram apenas a petroleiros e engenheiros da estatal. Atingiram em cheio também o empresário German Efromovich, um boliviano naturalizado brasileiro há mais de 20 anos e que nos últimos tempos tem estado no centro das maiores polêmicas envolvendo supostas irregularidades em contratos da Petrobras.

Efromovich é dono da Marítima Petróleo e Engenharia, a empresa que vendeu a plataforma P-36 e que fornece equipamentos e serviços desde a década de 70 para a Petrobras. Ou melhor, fornecia. Quando Reichstul assumiu, seis contratos da Marítima foram cancelados por descumprimento de prazo e alegadas irregularidades, como estouro nos orçamentos. Desde então, a Marítima ficou de fora das licitações da estatal.

A Petrobras não admite, mas comenta-se em seus corredores que a Marítima foi banida porque durante a gestão do antecessor de Reichstul, o engenheiro Joel Rennó, teria sido beneficiária de um esquema de corrupção. Segundo Reichstul, em seu depoimento no Senado Federal no dia 27 de março, em certo momento a empresa de Efromovich chegou a deter 80% dos contratos para a construção de plataformas e a prestação de serviços nos tempos de Rennó. Isso seria desproporcional ao seu patrimônio de apenas 10 milhões de dólares, considerado modesto no setor.

O dono da Marítima nega que tenha cometido alguma irregularidade e diz que está sendo perseguido pelo diretor de Exploração e Produção, José Coutinho Barbosa, o homem forte da estatal. Ele proibiu fornecedores da Petrobras de fazer negócio com minhas empresas , afirma. (Em carta enviada à EXAME, Coutinho diz que na atual diretoria da Petrobras não existe perseguição ou favorecimento de nenhum tipo.) Na sexta-feira, 23, três dias após o naufrágio da P-36, Efromovich recebeu o editor Marcelo Onaga em seu escritório, no centro do Rio de Janeiro, e deu sua versão dos fatos.

Sua empresa não pode mais participar de licitações na Petrobras e o senhor é acusado de ganhar 80% das licitações na gestão anterior utilizando-se de um esquema de corrupção…

Isso não é verdade. Em primeiro lugar, nunca fiz parte de esquema de corrupção nenhum. Em segundo, a Marítima ganhou 20% dos contratos durante a gestão do senhor Joel Rennó, e não 80% como algumas pessoas estão dizendo. Existe outra coisa: a Marítima é uma das únicas empresas nacionais que fornece plataformas de perfuração, de produção (como a P-36), serviços de mergulhadores etc. É natural que uma empresa que atua num número maior de áreas tenha mais contratos do que uma que só fornece plataformas, por exemplo.

Mas a Marítima ganhou as seis últimas concorrências das quais participou para fornecer plataformas de perfuração, todas na gestão passada.

É verdade. E só não ganhou a sétima porque não nos deixaram participar. Não há nada de errado em ganhar licitações, desde que sejam feitas dentro da lei. Ganhamos porque desenvolvemos uma plataforma compacta, mais barata, que custa cerca de 180 milhões de dólares, enquanto as tradicionais custam quase 300 milhões.

Essas plataformas de perfuração não foram entregues no prazo e a Marítima teve seus contratos cancelados. O que aconteceu?

Quando ganhamos os contratos, havia uma cláusula que nos dava uma carência de 180 dias para entregar as plataformas, depois de vencido o prazo inicial. Para cada dia de atraso havia uma multa de cerca de 30% do valor da diária. Se depois desses 180 dias não entregássemos o equipamento, a Petrobras poderia cancelar o contrato. Quando fomos para o mercado contratar as empresas que construiriam as plataformas, verificamos que não seria possível cumprir esse prazo. Voltamos à Petrobras e explicamos a situação. Mostrei que precisaria de 540 dias de carência e a empresa aceitou, desde que a multa fosse paga durante os 540 dias.

Mas a nova gestão não reconheceu essa carta e cancelou os contratos.

É verdade. Mesmo tendo a carta, propusemos alugar outras plataformas para fazer o serviço até a nossa ficar pronta. A nova diretoria não aceitou e avisou publicamente que cancelaria os contratos antes mesmo de vencerem os 180 dias. Eles também alegaram que não precisavam dos equipamentos, o que agora fica evidente que não era verdade. As mesmas plataformas Amethyst 6 e 7 que tinham sido encomendadas pela Marítima à Mitsubishi do Japão foram contratadas com outra empresa.

A atual diretoria também diz que é estranho uma empresa pequena como a Marítima receber contratos de bilhões de dólares.

Não há nada de errado em ser pequeno. Existem empresas enormes, como a Odebrecht, que têm dívidas também enormes. Nós não devemos nada. Nosso balanço é extremamente saudável, e é por isso que conseguimos financiamentos de 700 milhões de dólares de bancos estrangeiros.

A passagem da P-36 por dois estaleiros que faliram não podem ter comprometido sua estrutura?

Isso é outra mentira. Os estaleiros nunca faliram. A P-36 era a melhor plataforma que a Petrobras tinha. Ela havia sido encomendada pela empresa britânica MSR para operar no Mar do Norte. As condições daquele lugar são muito piores que as da Bacia de Campos, e por isso sua estrutura era mais fortalecida. Quem construiu a P-36, que inicialmente se chamava Spirit of Columbus, foi o estaleiro Fincantieri, um dos mais tradicionais e importantes da Itália, que continua funcionando normalmente. O que acontece é que a MSR começou a enfrentar problemas financeiros e seus credores tomaram a Spirit of Columbus. A Marítima montou uma engenharia jurídico-financeira e a Petrobras pagou 350 milhões de dólares por ela.

Para operar na Bacia de Campos foi necessário adaptar os equipamentos ao óleo do campo de Roncador, diferente do tipo do Mar do Norte. Também foram instalados flutuadores maiores, já que a capacidade de produção subiu de 100 000 para 180 000 barris diários. Essas alterações foram feitas no estaleiro canadense Davie, seguindo à risca um projeto da Petrobras. Esse estaleiro pediu concordata, mas a plataforma foi concluída dentro de normas rigorosas de qualidade. E o estaleiro está funcionando.