Estão tentando nos enfraquecer

Abilio Diniz diz que a indústria só quer concentração para si

O empresário Abilio Diniz, presidente do Pão de Açúcar, a maior empresa varejista do país, diz que o grau de concentração do varejo no Brasil é inferior ao oficialmente registrado. Isso porque, segundo ele, o faturamento das pequenas e médias empresas é crescente e está sendo subestimado. Em entrevista a EXAME, Diniz diz como os fabricantes multinacionais agem para limitar o poder de fogo dos grandes varejistas.

As relações entre a indústria e o varejo voltaram a ficar tensas nos últimos tempos. Por quê?

As relações entre os grandes do varejo e a indústria são tensas, sim. O que a indústria quer em todo lugar e também aqui no Brasil? Quer uma grande concentração do lado dela e uma grande dispersão do lado do varejo. Esse é o ideal da indústria. Olhe para o tamanho das maiores empresas de alimentação no Brasil, sobretudo as globais. É um negócio monumental. Olhe para a diversificação de linhas de uma Unilever ou de uma Nestlé, que produz mais de 700 itens. Elas procuram realmente enfraquecer o varejo. E conseguem: o Sé é uma empresa que se tornou totalmente inviável, por isso está à venda. O Sonae vive a duras penas. E os outros globais estão em imensas dificuldades de se confrontar com as redes menores. Nosso grupo não tem a menor dificuldade de competir com os concorrentes globais. Agora, temos imensas dificuldades de nos confrontar com os chamados pequenos da periferia de São Paulo. É uma coisa surrealista. A maior empresa de distribuição do Brasil, talvez até da América Latina, enfrenta um global do tamanho do Wal-Mart de igual para igual. Compete em tecnologia da informação e logística. E não consegue competir com os chamados pequenos supermercados.

Por que não, se hoje os grandes do varejo têm maior poder de negociação?

Apesar do poder de negociação, as indústrias não querem deixar os grandes varejistas aumentar seu poder de fogo. Para isso, eles valorizam os pequenos, muitas vezes vendem mercadoria, principalmente próximo da virada do mês, de maneira extremamente favorecida. Não diretamente para os pequenos, mas por meio dos chamados “atacados”. Com o sistema tributário vigente, isso possibilita que a mercadoria chegue ao pequeno e seja vendida ao consumidor a um custo abaixo do que pagamos à indústria.

Mas e todas aquelas taxas –enxovais, bonificações,

descontos –, não haveria aí um componente de custo do grande varejo?

Isso aí é uma grande hipocrisia por parte da indústria, principalmente a de alimentação. É hipócrita porque não fala a verdade. Usam argumentos dizendo que estão esmagados. Depois se revoltam com os chamados contratos que os grandes varejistas fazem, essas coisas que você está chamando de enxoval, inauguração. São coisas normais que os grandes fazem nos contratos. Também temos de nos curvar ao peso de ser grandes, temos de ter uma organização diferente. Depois eles chegam aos pequenos, aos atacados e mostram os contratos que fazem conosco e vendem por um preço menor. É surrealista, só que isso é verdade.

Qual a estratégia do grupo diante da tendência de aumento de vendas nos supermercados de vizinhança?

Estamos dando força a nossas três bandeiras. A estratégia da CBD é manter mais ou menos 50% de suas vendas nos hipermercados Extra e 50% nos supermercados Pão de Açúcar e Barateiro. Estamos abrindo cinco Extra e um número maior de supermercados. Apesar das dificuldades que enfrentamos na periferia de São Paulo, estamos conseguindo impor a marca Barateiro, oferecendo aos clientes preços e serviços melhores do que os dos concorrentes.

A concentração dos cinco maiores varejistas deverá se manter em 40% ou há espaço para concentrar mais?

O número oficial da Abras reflete corretamente as vendas dos grandes, mas não as vendas verdadeiras dos pequenos. É uma estimativa frágil, já que as vendas dos pequenos estão crescendo cada vez mais. A indústria vem alimentando a crença de que estamos esmagando o pequeno varejo. Mas eles sabem muito bem que não temos condição de competir com determinados varejistas na periferia nem no interior do estado de São Paulo, onde temos imensa dificuldade em competir em preço. Temos de ser muito bons em termos de logística, em tecnologia da informação. Temos de ter gente muito boa para competir com diferenças de 20%, 30% nos preços de custo, o que dá o somatório das coisas da indústria mais o sistema tributário.