Empresas buscam mulheres para o conselho

Pui-Wing Tam
© 2017 New York Times News Service

San Francisco – Durante meses, as empresas de tecnologia estiveram no encalço de Amy Chang. As ligações eram constantes, afirmou Amy, executiva-chefe da Accompany, uma startup do Vale do Silício. Apesar de não aceitar as ofertas de trabalho, as empresas e seus agentes continuavam a ligar, perguntando sempre a mesma coisa: Você não quer fazer parte do nosso conselho?

“Eu neguei de 15 a 20 ofertas iniciais”, disse Amy, de 39 anos, a respeito de como entrou para a diretoria da empresa no ano passado. Ela foi executiva do Google por sete anos antes de fundar a Accompany, que produz um aplicativo de briefings para executivos. “A coisa toda foi muito louca.”

Amy acabou aceitando um convite. Em outubro, passou a integrar o conselho diretivo da Cisco Systems, a gigante do Vale do Silício. O emprego garante um salário anual de 75.000 em dinheiro e mais centenas de milhares de dólares em ações da empresa. Agora, ela é a mais jovem dos 11 membros do conselho diretivo da Cisco – ao menos uma década mais jovem que eles – e uma de quatro mulheres que integram o conselho.

Até para os padrões do Vale do Silício, onde as guerras de recrutamento são intensas, atrair mulheres para os conselhos diretivos se tornou um desafio. Embora muitas empresas ainda busquem as profissionais mais relevantes do setor – como Sheryl Sandberg, do Facebook, ou Meg Whitman, da Hewlett Packard Enterprise –, um novo conjunto de candidatas também está sendo alvo de disputas. Além disso, essas mulheres costumam ser mais jovens, etnicamente diversas e integraram o setor de tecnologia durante boa parte de suas carreiras.

A disputa por elas aumenta à medida que companhias de tecnologia sofrem uma pressão renovada com o objetivo de diversificar seus conselhos diretivos. Embora o Twitter e outras empresas de tecnologia tenham tomado medidas para acrescentar mais mulheres à diretoria, todas ainda deixam a desejar quando o assunto é diversidade de gênero. Entre as 150 maiores empresas do Vale do Silício, apenas 15 por cento dos membros dos conselhos diretivos eram mulheres em 2016, comparado a 21 por cento das empresas do 500 Index, da Standard & Poors, de acordo com a empresa de pesquisa de mercado Equilar.

A falta de diversidade permeia muitas partes da indústria de tecnologia – as equipes de empresas como Facebook, Google e outras são muito masculinas – embora os conselhos diretivos sejam um foco preferencial, já que são os centros de poder que podem ajudar a gerar mudanças mais profundas. Postos na diretoria são disputados por seu prestígio e pelos altos salários; a média salarial dos diretores de grandes empresas de capital aberto era de cerca de 270.000 dólares em 2015, de acordo com a Equilar.

Amy Chang é uma das integrantes da nova geração de mulheres do setor de tecnologia que agora estão sendo convocadas para diminuir essa diferença. Outras integrantes desse grupo são Stacy Brown-Philpot, executiva-chefe da TaskRabbit, uma startup de San Francisco que conecta pessoas a faxineiros, encanadores, eletricistas, pedreiros e outras pessoas que realizam serviços domésticos. Stacy foi convocada para seu primeiro conselho de empresa de capital aberto, a HP Inc., em 2015.

Outra profissional em alta é Selina Tobaccowala, da startup Gixo, e Clara Shih, executiva-chefe da Hearsay Systems, que entrou para o conselho diretivo da Starbucks há cinco anos, aos 29 anos de idade, afirmam recrutadores de executivos.

“As diretorias estão em busca de diversidade em múltiplas dimensões, tais como gênero, etnia, idade e habilidades. Se você for capaz de trazer esses atributos e perspectivas, sua demanda estará em alta”, afirmou David Chun, executivo-chefe da Equilar, que recruta candidatos à diretoria e salários de executivos.

A busca por essas mulheres vai além das grandes empresas de capital aberto do Vale do Silício, incluindo também as startups privadas, algumas das quais podem se tornar as próximas gigantes de capital aberto do Vale. Glenn Kelman, executivo-chefe da Redfin, empresa de compra e venda de imóveis on-line, afirmou que às vezes precisava criar iniciativas para atrair mulheres para o conselho diretivo de nove integrantes da empresa, já que muitos outros executivos de startups estavam em busca das mesmas pessoas. “Muitos executivos estão tentando fazer isso”, afirmou Kelman.

Em novembro, a Redfin trouxe dois novos membros ao conselho, incluindo Julie Bornstein, COO da Stitch Fix, um serviço de personal stylist on-line. Julie é a segunda mulher a participar do conselho diretivo da empresa. Em 2014, uma das fundadoras da Evite, Selina Tobaccowala, foi contratada, e mais tarde se tornou uma das principais executivas da empresa de pesquisas on-line SurveyMonkey.

Julie, de 46 anos, ex-CDO da Sephora, afirmou que recebeu de 30 a 40 ligações para participar de conselhos diretivos nos últimos anos, mesmo que nunca tivesse sido diretora até então. Segundo ela, antes de se tornar membro da diretoria da Redfin, conversou com duas empresas de capital aberto sobre uma posição no conselho diretivo, embora tenha sido preteria por outras mulheres.

Ainda assim, muitos outros problemas impedem as mulheres de participar de outros conselhos diretivos de empresas de tecnologia, afirmou Julie. Enquanto participava de entrevistas com outras empresas sobre vagas na diretoria, afirmou, ela descobriu que muitos diretores ficavam presos a suas redes de conhecidos na hora de pesquisar possíveis candidatos. Isso geralmente leva as pessoas a buscarem sempre as mesmas pessoas.

De forma geral, as diretorias também desejam membros experientes. Parte da razão que impediu que Julie conseguisse os outros postos era o fato de que “eles não conseguiam superar o fato de que eu não tinha sido conselheira anteriormente”. Uma vez que há “poucas mulheres no alto escalão da tecnologia, é preciso apostar em pessoas novas”.

As iniciativas visam encarar esses riscos e trazer novos candidatos à baila. Sukhinder Singh Cassidy, fundadora e diretora da Joyus, startup de vídeo e e-commerce em San Francisco, começou uma iniciativa chamada theBoardlist em meados de 2015 com o objetivo de destacar mulheres qualificadas para fazer parte de conselhos. Para entrar na lista, a candidata deve ser apoiada por um membro do Boardlist, incluindo muitos capitalistas de risco, executivos de tecnologia e pessoas do setor.

A TheBoardlist agora conta com 1.300 nomes – quando a iniciativa começou, havia 600 nomes no total, afirmou Sukhinder. Menos da metade das mulheres da lista tem alguma experiência em conselhos diretivos, o que reflete a natureza progressista do grupo. As empresas que estão à procura de uma diretora podem conferir a lista.

“É preciso educar muita gente”, afirmou Sukhinder, que é membro do conselho diretivo do TripAdvisor e da Ericsson. Contudo, ela disse que se animou com o fato de que algumas empresas grandes também passaram a se importar com a diversidade nos conselhos diretivos, o que acaba influenciando as startups. “O ecossistema todo está sentindo a pressão, o que deu força a todo o setor”, concluiu.