Eleanor Josaitis

Co-fundadora e diretora executiva da Focus:Hope, organização de direitos humanos e civis de Detroit

Lembro-me do exato momento em que minha vida mudou: foi no ano de 1962. Eu era dona-de-casa, tinha 30 anos, cuidava de cinco filhos e vivia confortavelmente num bairro de classe média de Detroit. Uma noite, eu estava sozinha em casa assistindo aos julgamentos de Nuremberg pela televisão. De repente, o programa foi interrompido por uma notícia sobre uma passeata em Selma, Alabama. Vi quando policiais investiram contra os manifestantes golpeando-os com cassetetes, ao mesmo tempo que soltavam os cães em cima deles e os atingiam com jatos dágua.

Chorei horas, ali sentada. Perguntei a mim mesma: “O que teria feito se tivesse vivido na Alemanha pouco antes da guerra? Será que fingiria não ter visto nada? Ou será que teria me envolvido no conflito?” Pensei também: “O que estou fazendo em relação ao que acontece no meu país?” Naquele mesmo instante, passei a defender Martin Luther King com todas as minhas forças. O padre William Cunningham, professor de inglês do Seminário do Sagrado Coração, que era muito amigo meu, também apoiava entusiasticamente Luther King. Quando as revoltas explodiram em Detroit, em 1967, o padre Cunningham e eu decidimos que tínhamos de fazer alguma coisa imediatamente.

Meu marido, Donald, e eu vendemos nossa casa e nos mudamos para um bairro central da cidade, porque eu não pretendia pedir a ninguém que fizesse por mim o que eu mesma não estivesse disposta a fazer. Ainda moro na mesma casa. Meu marido tem me dado todo o apoio possível, mas não é nada fácil. Minha mãe contratou um advogado para tirar meus filhos de mim. Meu sogro nos deserdou. Meu cunhado me pediu que usasse o nome de solteira para não constranger a família. Foi um período terrível, perdi muitos amigos. Certa vez, numa festa, a anfitriã disse: “Depressa, pessoal, vamos começar a comer logo. O senhor Fulano de Tal precisa trabalhar. Ele é policial e ainda tem de matar uns negros hoje”. Olhei para meu marido. Nós dois nos levantamos e saímos daquele lugar.

Descobri que, para mim, há três coisas importantes: paixão, persistência e parcerias. Eu era apaixonada pelos direitos civis, mas tinha de aprender a arte da persistência. Se você acredita em alguma coisa e se sente consumido de paixão pelo que crê, lute por isso. É preciso persistência, não importa quanto tempo leve. Desde cedo aprendi também que é necessário trabalhar em parceria. Nos últimos 33 anos, procurei me cercar de pessoas que compartilham da missão a que me propus a propagar em 8 de março de 1968: ação inteligente e prática para derrotar o racismo, a pobreza e a injustiça.