Edu Lyra, o empreendedor social amigo de Lemman

Com a ajuda de empresários como Jorge Paulo Lemman, Edu Lyra, do instituto Gerando Falcões, quer montar a maior rede de ONGs do mundo

No último sábado de março, o homem mais rico do Brasil caminhava anônimo pelas ruas de barro de uma favela em Poá, na região metropolitana de São Paulo. Jorge Paulo Lemman estava ali a convite de um jovem de 30 anos, tão obstinado quanto um dos fundadores do 3G capital, dono de uma fortuna estimada em quase 20 bilhões de dólares. Não, Edu Lyra não sonha em ficar milionário. Sua ambição passa por outro objetivo, não menos superlativo: criar a maior rede de ONGs do mundo e mudar o destino de milhares de jovens da periferia. Para chegar lá, ele quer modernizar o modelo administrativo das organizações não governamentais, trazendo para a gestão conceitos aplicados em grandes empresas, como, por exemplo, um sistema similar ao de franquias.

Um passo grande já foi dado. Lyra conseguiu atrair para o seu instituto, o Gerando Falcões, que desde 2013 oferece atividades e cursos de capacitação a 1.200 famílias, quatro grandes investidores: Lemman, Carlos Wizard Martins (Mundo Verde), Daniel Castanho (Ânima Educação) e Flávio Augusto (Wise Up). A presença de empresários de peso permitiu a Lyra — que chegou a iniciar a faculdade de jornalismo e não terminou e prefere ser chamado de empreendedor social — começar a colocar em prática o plano de multiplicar o mais rápido possível o número de institutos com propostas similares. Ele, porém, não está apenas atrás de quantidade.

“Tão importante quanto atrair capital, do que aumentar o número de organizações sociais, é fazer com que elas operem com uma estratégia de gestão, que inclua metas, avaliação de rendimento, esquema de bonificação e plano de carreira”, diz Lyra. Ele já conseguiu investimento para aplicar o mesmo modelo da Gerando Falcões em dez comunidades espalhadas pelo Brasil, atingindo mais de 18 mil famílias. São jovens que passarão a fazer cursos de venda, logística, empreendedorismo e sommelier. Cada instituto escolhido para o projeto receberá um aporte financeiro, não revelado por Lyra. Todas serão cobrados e terão que apresentar resultados convincentes.

Lyra é inquieto. Sua entrevista a EXAME Hoje foi um concedida de um quarto de hotel em Porto Alegre (RS), onde ele daria uma palestra para uma empresa local. “Vou aproveitar a palestra para achar novos investidores para o meu projeto”, diz Lyra. Todo tipo de ajuda é bem-vinda. O empreendedor pode tanto investir diretamente no projeto, com ajuda financeira, como fornecer profissionais de seu grupo para dar aulas nos cursos das ONGs – e também abrir vagas em suas respectivas empresas para profissionais formados nesses cursos.

“Se o empresário está disposto a ajudar, mas não sabe como, não tem problema: eu arrumo logo um jeito de ele contribuir”, brinca Lyra. Desde o início do Gerando Falcões, ele já conseguiu empregar centenas de jovens em grandes empresas. “Posso dizer, com orgulho, que ajudei a formar a primeira geração das favelas de Poá a trabalhar na Faria Lima, um dos centros financeiros do país”, afirma.

A própria ascensão social de Lyra serve como exemplo para os alunos beneficiados pelos cursos. Nascido num barraco de uma favela em Guarulhos (SP), destruído por uma tempestade quando ele tinha três anos, Lyra passou boa parte da infância sem o pai, preso por porte de arma, formação de quadrilha e assalto a banco (após cumprir pena, o pai voltou ao mercado de trabalho). A mãe, sua grande referência, foi  quem sempre o incentivou nos trabalhos voluntários, que resultaram na criação do Instituto Gerando Falcões.

Com vinte poucos anos, ao inovar justamente no formato de gestão de seu instituto, sem pudores de buscar inspiração na iniciativa privada,  Lyra se tornou uma espécie de celebridade do terceiro setor, ao ser nomeado pelo Fórum Econômico Mundial como um dos 15 jovens brasileiros que podem melhorar mundo — ele também foi incluído na lista da revista Forbes como um dos 30 jovens mais influentes do país.

Visibilidade que aumentou ainda mais após ter trabalhado como consultor do programa Caldeirão do Huck, de Luciano Huck — também sócio da grife Reserva que o escolheu como um dos representantes da campanha “Rebeldes com Causa”. O sucesso não fez Lyra, que chegou até a fazer um curso de liderança em Harvard, perder o prumo, muito menos suas origens, mas ninguém o convence a desistir da ideia que ele carrega desde menino, quando o seu barracão foi levado pela enchente: o de viver num país sem miséria. “Vou dedicar os meus próximos 30 anos a criar a maior rede de institutos sociais do mundo. Quero ajudar nessa transformação do meu país. Se homem está planejando ir a Marte, já está mais do que na hora de favela virar atração de museu”.