Echo, o inesperado hit da Amazon

Em junho de 2014, Jeff Bezos fez algo raro nos 20 anos de história da Amazon: reuniu a imprensa para anunciar um produto. Bezos subiu ao palco do Fremont Theatre, em Seattle, e apresentou o Fire Phone, a esperada entrada da Amazon no mercado de smartphones. A grande novidade do aparelho era um sistema que emulava uma tela tridimensional sem a necessidade de óculos especiais. O Fire Phone usava uma versão adaptada do sistema Android — o sistema tinha atalhos para os usuários comprarem na Amazon, por exemplo. Só seis semanas depois, porém, o preço do telefone foi cortado de 199 dólares para 99 centavos. O smartphone da Amazon, que exigiu anos de desenvolvimento e era visto como um ponto estratégico da empresa para competir com Apple e Google, foi um fracasso vergonhoso.

Cinco meses depois, talvez com o gosto amargo da humilhação ainda na boca, a empresa lançou um novo produto, dessa vez em silêncio. Inicialmente, o Amazon Echo era uma caixa de som bluetooth meio diferente. Por fora, não tem nada demais. O aparelho é um cilindro preto de uns 25 centímetros de altura, com perfurações para o alto falante na metade inferior. O Echo servia para tocar músicas do smartphone, mas não era portátil, pois tinha de ficar o tempo todo ligado na tomada. Por outro lado, oferecia uma ideia inovadora: uma audição superaguçada. Ao ouvir o nome “Alexa”, mesmo que falado do outro lado da sala, o aparelho escutava e respondia, com voz feminina, a perguntas simples, como a previsão do tempo, o sumário das notícias do dia ou informações triviais, como a população do Brasil. E, é claro, o Echo permitia fazer compras na Amazon usando apenas comandos de voz. A recepção dos jornalistas especializados foi morna, e um analista disse que o Echo era “uma solução procurando um problema”.

Um ano e meio depois, o que era um aparelho meramente intrigante passou a ser visto como uma promessa revolucionária, um hit adormecido. O Amazon Echo tem o potencial de abrir um novo modelo de computação — natural, intuitiva e invisível. Nos meses que se passaram desde o lançamento, o software — a assistente virtual Alexa — passou por vários atualizações, sempre automáticas. Mais importante que isso, porém, é a melhoria constante que ocorre nos bastidores. “Alexa”, a assistente virtual e o nome da plataforma de inteligência artificial desenvolvida pela Amazon, fica cada vez mais inteligente e mais capaz.

Já é possível pedir um carro do Uber, encomendar uma pizza da rede Domino’s e consultar a situação de sua conta no banco Capital One. A Amazon também permite que desenvolvedores criem aplicativos. Ainda não são muitos, e a maioria são mais brincadeira que qualquer outra coisa. Peça a Alexa para abrir o Cat Facts e ela lê uma informação aleatória sobre gatos; tente acertar cinco perguntas sobre o seriado Seinfeld ou sobre músicos de jazz, e assim por diante. Mas há apps — ou skills, habilidades, como diz a Amazon — úteis, como os que informam horários de trens e têm receitas. Quando a Apple liberou a criação de aplicativos de terceiros para o iPhone, os primeiros apps também eram rudimentares — hoje, são milhões e representam uma fatia bilionária do negócio do software. O analista Scot Wingo, da empresa de consultoria Channel Advisor, acredita que o Echo possa se tornar o próximo negócio de 1 bilhão de dólares da Amazon.

O mais curioso na história do Echo é que ele explodiu de repente. A Apple lançou a Siri há mais de quatro anos. Celulares que usam o sistema Android têm o equivalente no Google Now. A Microsoft criou a Cortana. Mas todos esses assistentes virtuais dependem de um smartphone ou de um computador. O Echo fica plantado na sala e está sempre às ordens. O reconhecimento de voz é excelente, mesmo que se fale de longe, com a TV ligada, por exemplo. E Alexa responde imediatamente. O Echo também funciona como uma central de automatização doméstica, controlando lâmpadas, fechaduras, sistemas de irrigação e cortinas que antes dependiam de um aplicativo no celular.

No dia 31 de março, a Amazon começou a entregar outros dois produtos baseados na plataforma Alexa. Um é o Echo Dot, uma versão menor do Echo tradicional. O outro é uma caixa de som portátil (mas que não está o tempo todo ouvindo o ambiente, pois funciona com baterias). A expectativa é que a voz feminina da Alexa esteja presente em outros produtos, talvez até mesmo de outros fabricantes. Enquanto isso, não tenha dúvida de que os engenheiros da Apple, do Google e da Microsoft estejam coçando a cabeça, se perguntando como vão responder a esse sucesso inesperado.

(Sérgio Teixeira Jr., de Nova York )