Hora de investir? Quatro gurus respondem

Carol Oliveira e Lucas Amorim 

Afinal, estamos no melhor dos tempos, ou no pior dos tempos para investimentos? A bolsa subiu 32% no ano, o PIB parou de cair, a inflação arrefece a cada mês. Mas falta clareza sobre juros, sobre os projetos do governo, sobre o ambiente econômico internacional. O Brasil vai continuar atrair os investimentos que desesperadamente precisa? O mercado interno vai voltar a consumir? Enfim, dúvida é o que não falta na cabeça dos investidores. A boa notícia: até os tubarões do mercado passam sufoco para separar o som do ruído em momentos como este.

Nos dias 14 e 20 de setembro cinco dos mais incensados investidores brasileiros se reuniram para dois eventos de lançamento do livro Fora da Curva – Os segredos dos grandes investidores do Brasil – e o que você pode aprender com eles, organizado pelo investidor Florian Bartunek, sócio da gestora Constellation, pelo advogado e sócio da Casa do Saber Pierre Moreau e pela jornalista Giuliana Napolitano, editora de finanças da revista EXAME.

Em conversas descontraídas com Giuliana, André Jakurski (fundador do Pactual e da gestora de fundos JGP), Guilherme Affonso Ferreira (presidente da Bahema Participações), Luiz Fernando Figueiredo (presidente da Mauá Capital) e o próprio Florian Bartunek forneceram informações e dicas preciosas – e admitiram que a sorte a incerteza vão continuar fazendo parte do jogo.

Na teoria, crises são momentos importantes pra fazer investimentos, porque os preços dos ativos ficam mais baratos, então muitos analistas dizem que crises acabam virando oportunidades. Só que na prática pouca gente tem coragem de investir quando o país está indo mal. Qual a estratégia de vocês em momentos conturbados como esse? E no que vocês estão investindo agora, o que virou uma boa oportunidade no Brasil?

André Jakurski:
O mercado passa dois terços do tempo subindo e um terço caindo, mas quando cai, essa queda acontece rápido, de uma vez. O mundo hoje está mais para você ter posições táticas do que permanentes. Quando eu vejo uma oportunidade, eu entro pra matar. Mas essas grandes oportunidades acontecem quando você está na contramão do mercado — quando todo mundo acha que vai acontecer uma coisa e você pensa diferente — e quando aparece uma oportunidade grande, o que é raro.

No último ano e meio, a Petrobras era vista como uma empresa-lixo, uma empresa que vai quebrar, que não vai conseguir pagar suas dívidas. Com isso, os títulos da empresa, que antes rendiam 5-6% ao ano em dólares, estavam rendendo até 16% ao ano. Eu comprei 500 milhões de dólares em títulos da Petrobras curtos, com vencimento até 2019, e hoje eles estão rendendo 3%.

Essas operações de curto prazo não tem nada a ver com informação fundamental. Tem a ver com sentimento, com psicologia. É saber o que os outros estão pensando. É igual a um concurso de beleza em que você tem que apostar na vencedora. Não importa quem você acha que é a mais bonita, e sim o que os outros acham, para você fazer a aposta certa.

Luiz Fernando Figueiredo:
Os ativos ficam baratos quando o ambiente é não de risco, mas tão incerto que quase qualquer coisa pode acontecer – mais ou menos o que acontecia no final do ano passado. No final do ano passado, qual era a perspectiva do Brasil? Um governo cambaleando, um apoio político inexistente, a economia já em franca queda. Naquele momento, os ativos brasileiros já tinha muito daquilo levado em consideração. Então, eles estavam muito baratos.

Quando olhamos hoje, os ativos brasileiros já não levam em consideração um país que vai quebrar amanhã. Por exemplo, a taxa de câmbio que chegou a quatro e pouco hoje está em 3,20, 3,25. Mas ainda é quase que preço de liquidação.

Olhando para renda fixa, os ativos de longo prazo brasileiros, associados à inflação – esses títulos que são quase pornográficos, isentos de inflação, de imposto, de 10, 20 anos -, é uma loucura o que eles pagam de taxa de juros. A não ser que o Brasil quebre, é muito difícil que alguma coisa pague a inflação a 5,5%, 6%, livre de risco dentro do Brasil.

Florian Bartunek:
A beleza da bolsa é que tem uma diferença entre valor e preço. E o preço oscila muito, por questões aleatórias, humor dos mercados e tal. O dono do seu negócio privado sabe disso. Minha empresa não vale 5% a menos porque teve o Brexit. Não vou vender minha empresa hoje porque de repente Nasdaq está caindo 2%, não vou vender minha empresa mais barato hoje. E na bolsa há essas oportunidades.

Tem vez que o mercado quer pagar mais, porque está eufórico, e tem vez que o mercado quer pagar menos. Isso fica muito claro quando se pensa num apartamento. O sujeito tem lá um apartamento no décimo andar, que ele sabe que vale 500.000, e de repente chega um cara que diz “olha, eu estou vendendo o meu aqui no nono por 200.000, porque eu estou achando que o Brexit…”. Está errado. Às vezes chega um eufórico e diz “ah, eu acho que vale 700.000 por causa do impeachment e outras coisas”. Então, se você sabe o valor do ativo e você tem a frieza de não entrar nessas euforias, nesses pânicos, você consegue se beneficiar das crises.

Mas para isso, se você é um investidor de fundos, precisa de um passivo adequado. Não adianta querer comprar na crise se os seus clientes estão sacando. Isso é um problema dos investidores brasileiros. O investidor brasileiro na bolsa é muito oportunista.
Para pessoa física, acho que um percentual adequado faz toda a diferença. E é difícil porque na euforia teu amigo no clube tem ações, está ganhando dinheiro, é difícil você ter a frieza de ter o percentual adequado e como gestor de fundos ter um passivo adequado.

Guilherme Affonso Ferreira:
Minha impressão é a seguinte: ou as pessoas criam coragem e investem em renda variável, ou vão perder o bonde de novo. Está na cara que o bonde está passando. É engraçado a gente olhar que a maioria dos gestores brasileiros hoje têm uma posição de caixa enorme. O que, de certa forma, traduz uma certa desconfiança com o que vai acontecer. Não é razoável. Nós já temos razões racionais suficientes para estar acreditando que o futuro pode ser melhor. Tem gente que olha múltiplos como se eles fossem números absolutos, eles não são, são números relativos, o múltiplo do resultado desse ano é desse ano, não de qualquer ano. Quem olha a bolsa como um todo, tem hoje a chance de escolher as companhias premium, as melhores companhias, porque elas têm preços razoáveis. Meu conselho é: não percam essa oportunidade.

Se vocês pudessem falar algo pra vocês mesmos com 18, 19 anos, o que vocês falariam?

André Jakurski: 
Tenha sorte, muita sorte. É igual a estar numa batalha ou numa guerra: você pode levar um tiro ou sobreviver. Tem aquela frase dos americanos: “success is when preparation meets opportunity”. Mas a maior sorte é encontrar sua vocação. Tem gente que passa a vida toda e não encontra. Você tem que se preparar e, quando o cavalo passar selado, monta em cima. Eu trabalhei no Unibanco dez anos. Fazia crédito, investment banking, até que eu descobri que o que eu gostava mesmo era descer na corretora, no andar de baixo, e operar para mim.

Você tem que fazer o que você gosta. Se eu oferecer a você estar agora com 80 anos e10 bilhões de dólares, você aceitaria? Claro que não, né? E por um motivo simples: porque a viagem até lá tem que ser tão agradável quanto o destino.

Luiz Fernando Figueiredo:
Eu sempre disse para esse pessoal mais júnior, de 27, 30 anos, o seguinte: se você sair daqui para ir a um lugar para ganhar mais, eu bato em você. Agora, se você sair daqui pra aprender mais, eu levo você no meu carro. Por que isso? Porque faz toda diferença o que a gente vai acumular de experiência, entendimento, até os 30 anos. Ali sim começa um outro ciclo – pode ser um pouco mais, um pouco menos que 30 anos -, onde estou acumulando conhecimento, mas também já estou entregando.

Tem uma fase que diz que a única coisa que pode orientar a carreira é aprender. E ponto. Pode ser um chefe chato, salário pequeno, não importa. Se tiver aprendendo muito, é o que vale, porque vai fazer toda a diferença lá na frente.

Guilherme Affonso Ferreira:
A única coisa que eu diria é a seguinte: não abra mão de princípios. Princípios são muito mais importantes do que o sucesso ou as opções. Os princípios são o que vale. Isto posto é o seguinte: de quem tem mais capacidade se espera muito mais. E na vida, não interessa de onde você sai e aonde você chega, interessa o quanto você anda. Acho que isso é que o ponto importante da história.

Como acertar o timing? Qual o segredo para comprar no melhor momento?

André Jakurski:
Para ter sucesso nessas operações, não é o fundamento que importa. O investidor não tem de adivinhar o futuro da bolsa ou dos juros, mas tentar antecipar o que as pessoas acham que vai acontecer. Minha teoria é de que todos nós temos pelo menos 5 minutos de estupidez por dia. O segredo é não exercer os seus 5 minutos muito agressivamente… Mas errar é uma constante: ou você escolheu o papel errado, o timing errado, ou errou o tamanho da posição… Mas você tem que acordar no dia seguinte e não se lembrar mais disso. É claro que você tem que aprender lições, mas você tem que olhar pra frente.

Guilherme Affonso Ferreira:
Quer meu palpite? Não tente. Não tente acertar o timing porque é aí que as besteiras são feitas. Está achando que está bom? Vai. Mas se o tempo está certo ou errado, não sei. Quando você tomou a decisão de investir naquela empresa, é porque achou que o preço estava adequado. A pergunta é a seguinte: e se amanhã ela estiver 20% a menos? Eu errei o timing, deveria ter esperado. Não, você acertou o timing: se a empresa é boa, você comprou com 20% a mais mas um dia ela vai valer mais que os 20% que você pagou a mais.

Florian Bartunek:
O timing é muito difícil mesmo, não tem muita mágica. A gente usa gráficos e tudo mais, mas vale o que o Guilherme falou: se a ação vai subir 200% em cinco anos, não faz muita diferença o ponto de entrada.

Há uma frase que as pessoas usam e acho muito perigosa: “ninguém nunca quebrou tirando dinheiro da mesa”. Mas, assim, você perde grandes oportunidades. Porque você é o sujeito que vende o Neymar no primeiro ano de Santos, e depois você perde toda a história do sujeito. Você ganhou dinheiro, mas ele virou ídolo no Barcelona. Então, tentar ficar fazendo timing é muito difícil.E mais uma coisa: mais da metade da alta da bolsa, no ano, geralmente, é feita em cinco dias. Então, se você está fora nesses cinco dias, perde mais da metade da alta. E esses dias de alta são precedidos de dias muito ruins, porque geralmente teve uma crise alguma coisa, a bolsa caiu muito. Então é muito contra-intuitivo.E se você está fora desses cinco dias você perdeu mais da metade da alta do ano estatisticamente.

Investir em ações de setores cíclicos é um bom investimento agora?

Florian Bartunek: 
Eu me focaria mais no Brasil agora. Se você pegar o capex de manutenção sobre o ativo total, sobre as vendas, está no mínimo dos últimos anos, as empresas não estão investindo em capacidade – até porque não tem demanda. Mas as empresas vão ter que voltar a investir. Os bens de capital domésticos vão melhorar – já estão melhorando, devagarzinho. Eu acho que tem tantos negócios legais.

Uma coisa interessante do Brasil é que o que faz diferença na rentabilidade das boas empresas brasileiras não é só a gestão, mas também barreira de entrada. Outra coisa: num cenário mais auspicioso, o real tende a ficar relativamente apreciado. E o real apreciado não é bom para as empresas brasileiras exportadoras de commodities. Quem comprar empresa de commodities brasileiras agora está apostando em um cenário desfavorável.

O Warren Buffet fala uma coisa genial: eu tenho uma pilha do que é muito difícil. Então, se algo é muito difícil, eu boto numa pilha e não olho. No brasil, é um pouco mais difícil fazer isso porque a quantidade de opções na bolsa é menor. Mas as pessoas gostam do difícil, do complicado. Simplificar é uma arte, e é difícil.