Duelo na Volks

Negociação entre Volkswagen e sindicalistas prova que leis trabalhistas flexíveis garantem emprego e produção

A quinta-feira 15 de novembro foi atípica em Hannover, cidade industrial alemã. Embora fosse quase inverno, o dia, de sol, estava mais quente do que o habitual. Durante a viagem de uma hora e meia numa Van até Wolfsburg, sede do QG mundial da Volkswagen, Luiz Marinho, presidente do sindicato dos metalúrgicos do ABC, em São Paulo, e Mário Barbosa, representante da América do Sul no comitê mundial dos funcionários Volkswagen, conversavam com o presidente do comitê mundial, Hans Jürgen. Explicavam o impasse entre a empresa e os funcionários no Brasil, que terminou na dispensa de 3075 trabalhadores. Marinho e Barbosa estavam lá para tentar reverter essas demissões. Uma visita inédita nos 43 anos de história da Volks no Brasil.

Ao chegar à fábrica, por volta das 2 da tarde, os sindicalistas foram direto para a primeira reunião, com Peter Hartz, diretor de RH mundial da empresa. Depois de 45 minutos, os três foram para a reunião decisiva. Na sala, de 80 metros quadrados, sentaram com Herbert Demel, presidente da Volks no Brasil, e outros dois altos funcionários de RH da empresa. A decisão de fazer a reunião na Alemanha foi uma tentativa de colocar um ponto final numa situação de greve que estava minando a imagem da Volkswagen e prejudicando a produção. Para combater a recessão e os maus resultados da empresa, dias antes, em 22 de outubro, Demel havia sugerido aos empregados uma redução de 20% na jornada de trabalho e nos salários e comprometimento de parte do 13o, entre outras coisas. O sindicato não aceitou. Demel, então, decidiu demitir. “Ele não tinha escolha”, diz José Roberto Ferro, especialista no setor automobilístico e presidente do Lean Institute, de São Paulo. “Com tanta gente ociosa, a empresa não poderia continuar pagando os salários como antes.” As 3075 cartas de demissão chegaram pelo correio na casa dos funcionários. Os metalúrgicos entraram em greve, e o caso tomou proporção mundial.

A conversa em Wolfsburg começou tensa, por volta das 2 e meia da tarde. Marinho e Demel, auxiliados por uma intérprete, tentavam fazer valer suas posições. O primeiro não abria mão das demissões. O segundo queria todos de volta à fábrica. Nos primeiros 90 minutos, tudo continuava como no Brasil, sem acerto. Nesse momento, Marinho, reconhecido como exímio negociador, tirou um trunfo da manga. Sugeriu a volta ao emprego de 1,5 mil dos demitidos, licença remunerada para os demais até 31 de janeiro de 2002 e um plano de demissões voluntárias para 700 empregados. Proposta aceita, a empresa, em contrapartida, diminuiu jornadas e salários em 15%. “Também conseguimos a promessa de investimento de 500 milhões de reais”, diz Marinho. O dinheiro vai ser usado para a produção de uma segunda versão do modelo Polo no Brasil.

Foi uma vitória incontestável dos sindicalistas. Difícil de reconhecer para Demel, tido como executivo sincero e extremamente direto em seus atos (foi dele a declaração de que a Volks sairia do Brasil caso o fornecimento de energia fosse cortado durante a crise do apagão). Publicamente, diz que, sim, a negociação foi boa para ambos os lados. “Acordo é acordo e todos ganham, mesmo cedendo um pouco”, disse Demel a VOCÊ s.a. Na reunião, porém, demorou a reconhecer. Depois de receber a proposta, continuou insistindo na redução dos empregos. Sugeriu a Marinho, inclusive, que deixassem para acertar alguns pontos na volta ao Brasil. O sindicalista disse que, se isso fosse possível, não precisariam ter viajado até a Alemanha. A discussão esquentou. Quase três horas depois, a diplomacia de Hartz, diretor de RH mundial, falou mais alto e encaminhou a reunião para um encerramento.

Se para alguns a atitude de Demel pareceu draconiana, sob a lógica dos negócios era perfeitamente plausível. A Volkswagen precisava cortar empregos para compensar as perdas na queda das vendas. O papel do presidente é buscar os meios de fazer isso. No primeiro momento, a demissão é a maneira mais eficiente e rápida — para a empresa, claro. No entanto, nem de longe é a mais simpática. Tampouco, nesse caso, mostrou ser a mais sensata. A boa negociação entre patrão e empregado foi o que levou a uma solução ideal. “O Brasil está evoluindo bem nas relações trabalhistas”, diz Edgard Vianna, diretor da A.T. Kearney, especialista em indústria automotiva. Coincidência ou não, na mesma semana das negociações, o congresso brasileiro colocou na pauta de votação o projeto de flexibilização da Consolidação das Leis Trabalhistas, a arcaica CLT. Se aprovado, convenções e acordos coletivos entre empregados e empregadores passam a valer sobre a lei.

A reunião em Wolfsburg provou que mais flexibilidade nas leis garante empregos e margem de manobra para lidar com os altos e baixos do mercado. “Não sentei à mesa apenas como negociador trabalhista”, diz Demel. “Travamos um diálogo com vistas ao futuro, em um país com aproximadamente 50% de ociosidade na produção.” A flexibilização, nesse cenário, é interessante para todos. Entretanto, a melhor lição que ficou daquela quinta-feira, um dia que começou quente e acabou frio, foi a certeza de que argumentos claros e disposição para negociar são ferramentas indispensáveis para atingir um bom resultado.