Dos sindicatos aos acionistas: as dúvidas sobre Embraer e Boeing

Os sindicalistas têm cobrado esclarecimentos da empresa sobre a manutenção dos empregos, e um acionista protocolou reclamação na CVM

Um encontro que já era importante acabou de ficar ainda mais. Ontem, a Justiça acatou ação de empregados da Eletrobras e suspendeu a privatização de distribuidoras, reforçando a força dos trabalhadores para barrar ou dificultar a negociação de companhias ligadas ao governo. Nesta sexta-feira, o presidente da Embraer, Paulo Cesar de Souza e Silva, deve se reunir com sindicalistas de Araraquara, Botucatu e São Bernardo do Campo para discutir os termos do negócio fechado com a americana Boeing na semana passada.

No dia 5 de julho a Embraer anunciou a venda de 80% de sua divisão comercial para a Boeing por 3,8 bilhões de dólares. As áreas de defesa e de jatos executivos, responsáveis por um quinto da receita da empresa, ficaram de fora.

Os sindicalistas têm cobrado esclarecimentos da empresa sobre a manutenção dos empregos no país. Herbert Claros, diretor do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos, afirmou ao jornal O Estado de S. Paulo que as entidades não foram procuradas para conversar antes de anunciar o memorando de entendimentos, na semana passada.

O Ministério Público do Trabalho havia recomendado, em maio, que as companhias incluíssem no acordo “salvaguardas trabalhistas” e conversassem com os sindicatos. Por se sentirem alijados do processo, os sindicalistas enviaram carta a Michel Temer pedindo que vete a operação.

Não é a única pedra no sapato da Embraer. Um dia depois do anúncio do acordo com a Boeing, o consultor Renato Chaves, acionista da Embraer, protocolou reclamação na Comissão de Valores Mobiliários contra o negócio. Ele afirma que a anunciada joint venture mascara a venda da empresa, e que a Boeing deveria pagar um prêmio pelo controle num processo que envolvesse todos os acionistas. Chaves destaca o fato de a própria Embraer tratar o negócio como “aquisição” em fato relevante.

Desde o anúncio do negócio, no dia 5, as ações da Embraer caíram 20%, ou 6 bilhões de reais. Chegar a bons termos com os sindicatos é fundamental para a Embraer dissipar as dúvidas sobre um negócio que levou oito meses para costurar.