Dores do ofício

As doenças ocupacionais estão crescendo e o preço pago por empregados e patrões é alto. Até o Ministério da Saúde está de olho no problema

Ministério da Saúde aprovou no início de janeiro deste ano uma portaria que determina a criação do programa nacional de assistência à dor. Trata-se de uma iniciativa inédita no mundo, que está sendo acompanhada pela Organização Mundial da Saúde e que, se der certo, servirá de modelo para outros países. O que isso tem a ver com sua vida profissional? Muita coisa. Para começar, é bem provável que você se inclua na conta que diz que seis em cada dez brasileiros sofrem de alguma dor crônica que, em algum momento da carreira, os incapacitará para o trabalho. Se você está empregado na indústria, é provável também que já tenha sentido as fisgadas da síndrome do túnel do carpo (dor nos punhos), cuja incidência é 20 vezes maior entre profissionais desse setor que na população em geral. A dor é hoje no país a principal causa de absenteísmo, baixa produtividade, reclamações trabalhistas e licenças médicas. Na cidade de São Paulo, por exemplo, segundo pesquisa do Instituto Datafolha realizada no ano passado, 62% dos trabalhadores admitem faltar ao emprego regularmente por causa de dores nas costas (lombalgia), de cabeça ou LER (lesões por esforço repetitivo).

Tamanho sofrimento, obviamente, custa caro para empregados, empregadores e governo. Não há estatísticas precisas sobre o montante gasto com a dor no Brasil, mas especialistas dizem que o cenário aqui não é muito diferente do lá fora. Nos Estados Unidos, o custo com prevenção, tratamento e compensações trabalhistas chega a 150 bilhões de dólares. Desse total, mais de 27 bilhões são aplicados em gastos com LER. Na ponta do lápis, os americanos perdem 100 milhões de dias de trabalho por ano. Tanto aqui como lá, a doença ocupacional é um mal que desconhece hierarquia e nível de renda: afeta de estagiários a diretores, de digitadores a executivos, advogados e dentistas. “Achar que só trabalhadores braçais estão sujeitos a lesões no ambiente profissional é ilusão”, diz o médico João Figueiró, coordenador do Programa Nacional de Educação em Dor da Associação Médica Brasileira.

Problema recorrente

Dores relacionadas ao batente têm sido catalogadas na literatura médica há bastante tempo. O primeiro registro oficial foi feito pelo italiano Bernardino Ramazzini, considerado o pai da medicina ocupacional, em 1700. Hoje, três séculos depois, a natureza das atividades mudou (muitas vezes para melhor), mas o problema persiste. As soluções tecnológicas que tornaram o trabalho mais rápido são as mesmas que fizeram crescer o número de movimentos repetitivos e as horas passadas numa mesma posição. Cadeiras que não dão apoio à coluna, teclados de computador com inclinação errada e a mania de usar o pescoço como suporte para o telefone, entre outros vilões, contribuem, e muito, para triturar a condição física.

A famigerada dor nas costas (lombalgia) é a campeã de incidência nos escritórios e nas fábricas país afora. Em quase 80% dos casos, no entanto, trata-se de um sofrimento evitável. “Medidas simples, ergonômicas e de segurança resolveriam”, diz Figueiró. Em segundo lugar nas queixas dos trabalhadores aparece a LER, seguida por dores de cabeça e problemas de inchaço nas pernas. Mas vale o alerta do reumatologista Milton Helfenstein: “A dor crônica não está necessariamente relacionada a uma lesão. Em alguns casos, é uma resposta emocional às pressões do ambiente de trabalho”. Helfenstein alerta ainda para o perigo da epidemia de diagnósticos de LER. “Um número considerável de trabalhadores tem usado essa doença, cuja incidência, de fato, aumentou nos últimos anos, como álibi para conseguir licenças ou indenizações.”

Como enganar a dor

Trata-se de má-fé, sem dúvida. Mas são atos que fazem com que muitas empresas fiquem na defensiva na hora de tratar do assunto. Do lado das corporações, esperam-se aperfeiçoamento técnico para a realização das tarefas incumbidas à sua equipe, respeito à ergonomia e à duração das jornadas e o devido encaminhamento médico às queixas de doenças ocupacionais. Da sua parte, trabalhador, é sempre importante certificar-se da causalidade entre a atividade profissional e o aparecimento da dor antes de reclamar aos superiores. Nunca é demais seguir os conselhos médicos, que indicam pausas regulares a cada 50 minutos de atividade, gi-nástica laboral para alongar o corpo todo, manutenção do peso ideal e exercícios físicos e de relaxamento regulares. Buscar meios para livrar-se do estresse (vale terapia, artesanato, voluntariado etc.), aliás, é uma das ações preventivas mais eficientes. Em tempo: ficar de olho nas recomendações da Caravana da Dor, do Ministério da Saúde, que, em breve, começará a visitar 50 cidades brasileiras, dando palestras em comunidades, empresas, universidades e associações médicas, também pode ajudar a aliviar as dores do seu ofício.

FREIO NA ROTINA

Desde agosto do ano passado, César Zarza, vice-presidente de marketing para a América Latina da Computer Associates, tem exibido luvas especiais nos dois braços. Zarza é mais uma vítima da LER. Como tem negócios em 13 países, elegeu o e-mail para estar em contato com funcionários e prestadores de serviço. Em janeiro deste ano, recebeu 4,5 mil, dos quais respondeu 90%. Além disso, enviou outros 1 172. Para dar conta de tantos e-mails, fica, em média, mais de dez horas por dia na frente do micro. As primeiras fisgadas no braço surgiram no ano passado. Ele usou o convênio médico da empresa para ouvir a opinião de especialistas. A recomendação foi pouco animadora: operar. Zarza preferiu busca alternativas. Fez acupuntura para aliviar a dor e recorreu a um trabalho fisioterápico de reforço muscular. Também solicitou à empresa a avaliação de seu mobiliário de trabalho. Depois de um estudo ergonômico, tudo foi ajustado. “Da parte deles, tive apoio para buscar o melhor tratamento médico e, da minha, preciso ter disciplina para encontrar uma nova rotina que não massacre tanto meus tendões”.