Do zero aos 4 bi, e de volta ao zero

A empreendedora americana Elizabeth Holmes é um daqueles fenômenos típicos do Vale do Silício. Aos 19 anos, começou a trabalhar escondida em um novo projeto para revolucionar o mercado de diagnósticos. O negócio, batizado de Theranos, foi anunciado em 2014, e realizava exames médicos usando apenas algumas gotas de sangue do paciente, com resultados instantâneos.

Aos 30 anos, Elizabeth virou a mulher mais rica dos Estados Unidos. A Forbes estimou sua fortuna em 4,5 bilhões de dólares em 2015 (apenas um ano após o lançamento de sua companhia). Mas depois da fama, do sucesso e da fortuna, veio o baque. Após alcançar o topo da lista das mulheres mais ricas das Américas, a maior revista de negócios do mundo acaba de anunciar que a riqueza de Holmes neste ano passou da cifra bilionária para… zero.

O voo de galinha se explica por uma série de problemas descobertos no negócio da Theranos. Estudos mostraram que a inovação de Elizabeth indicava níveis mais baixos de colesterol do que os valores apontados por exames realizados em clínicas tradicionais. Além disso, dos 240 exames que a empresa oferecia comercialmente, apenas 15 eram de fato realizados em uma supermáquina (o resto era feito nos aparelhos tradicionais).

De qualquer forma, a queda de 4,5 bilhões para zero é tão drástica que a Forbes precisou se explicar. Elizabeth tem 50% da Theranos que, no auge, chegou a ser avaliada em 9 bilhões de dólares. Daí sua posição no ranking do ano passado. Agora, com a enxurrada de problemas o valor de mercado da empresa caiu para algo perto dos 800 milhões de dólares. O problema é que investidores já colocaram quase esse valor na companhia, e têm um tipo de ação que lhes permite receber antes da fundadora.

Para Holmes, sobra apenas a propriedade intelectual de sua invenção. Como um número crescente de analistas acredita que, após essas revelações, a Theranos pode não ter sequer um mercado potencial, sua invenção também, hoje em dia, não vale nada. Ou seja: nas condições atuais, Holmes não tem nada. Nothing. Nichts.

O paralelo com Eike

Elizabeth é o exemplo limite, mas ganhar e perder bilhões (ou até dezenas de bilhões) é coisa da vida para os bilionários da Forbes. Bill Gates, fundador da Microsoft, permanece, como de costume, na primeira posição. O mexicano Carlos Slim Helu, dono de um império de telecomunicações, caiu da segunda para a quarta colocação – ficou 27 bilhões menos rico por causa de mudanças regulatórias no México, desvalorização do peso e crise no Brasil.

Um dos exemplos mais próximos à derrocada de Holmes é o empresário Eike Batista, dono do grupo EBX, com negócios em mineração, petróleo e outras indústrias. Eike chegou a ser o ser o sétimo mais rico do mundo, em 2012. Mas, após seu império cair como um baralho de cartas, e seus principais negócios pedirem recuperação judicial, ele viu a fortuna despencar de 30 bilhões para 2,9 bilhões de dólares de 2012 para 2013. Em 2014, ele saiu da lista, com fortuna estimada em 300 milhões de dólares. Há outros Eikes por aí.

Um deles é Sean Quinn, um irlandês que abandonou a escola com apenas 14 anos de idade. Ainda muito jovem começou a ganhar dinheiro com a pedreira do pai e, com o tempo, construiu conglomerado que atuava em diferentes áreas ( de seguros a produção de cimento). Em 2007, com uma fortuna de aproximadamente 6 bilhões de dólares, perdeu tudo. Como? Comprando 25% de um banco que estava sofrendo com a crise da Irlanda. A instituição financeira acabou sendo nacionalizada e, em 2011, o empresário declarou falência. Em 2013, tinha uma dívida de dois bilhões de dólares. Quinn e dois de seus filhos já foram presos por tentar esconder da justiça irlandesa alguns ativos que a família possuía.

Já Allen Stanford entrou para a história não apenas pelo dinheiro que conseguiu acumular, mas também por ter sido um dos maiores fraudadores dos Estados Unidos. Ele construiu sua fortuna no ramo imobiliário na década de 80 e com parte do dinheiro abriu o banco Stanford Financial Group. A instituição chegou a movimentar cerca de 30 bilhões de dólares em ativos de mais de 140 países.

Em 2008, Stanford teve sua fortuna estimada em dois bilhões de dólares. Mas no ano seguinte, foi revelado um esquema de fraude em seu banco que acabou não só com sua fortuna, mas também com qualquer chance de recomeçar: Stanford foi condenado a 110 anos de prisão. Elizabeth Holmes, 32 anos, ainda pode ganhar – e perder – muitos bilhões de dólares.

(Rafael Ihara)