Quando o foco empresarial não é criar produtos, e sim formar pessoas

Tendo como exemplo pessoas como Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira, empreendedores das empresas AB InBev, Kraft Heinz, Burger King, B2W Digital, dentre outras, o Brasil começou a se tornar um forte país de empreendedores. Segundo estudo realizado pela GEM (Global Entrepreneurship Monitor) em 2015, foi alcançada no país uma taxa de empreendedorismo de 39,3%, o maior índice dos últimos 14 anos, e quase o dobro do registrado em 2002, quando era de 20,9%. Este índice revela uma realidade: quatro em cada dez brasileiros adultos já possuem um negócio ou estão envolvidos com a criação de uma empresa.

Em decorrência desse crescimento, um dos assuntos que tem sido amplamente debatido é sobre qual será a filosofia e cultura adotada por essa nova geração de empreendedores, sendo que o modelo criado pelos três brasileiros da 3G Capital, focado na meritocracia, eficiência e controle rígido de custos, continua sendo um dos mais comentados no mercado.

Foi esse modelo que inspirou os idealizadores da Simbiose Ventures, que atua num segmento bem diferente da 3G. A startup é voltada a plataformas de processamento de dados e criou o SlicingDice, um banco de dados com tecnologia 100% nacional e proprietária.

Desde o princípio, em 2012, houve a percepção de que o sucesso estaria nas mãos das pessoas que ali iriam trabalhar. Até seu nome (Simbiose) representa sua razão de ser. Na empresa, cujo foco é a inteligência de dados, a regra é que toda relação seja mutuamente vantajosa para ambos os lados.

Tudo o que foi pensado está voltado para o sonho da empresa: “Desenvolver brasileiros incríveis para que criem grandes negócios, melhorando a vida das pessoas e empresas, através de inteligência de dados”. Isso significa que as pessoas não estão lá apenas para que a empresa atinja seus objetivos comerciais e financeiros, mas que se desenvolvam e sejam bem-sucedidas.

Por conta disso, a Simbiose Ventures tem atraído pessoas com determinadas características, como disciplina, organização, paixão por aprender e estudar, entre outras.

Tudo é muito transparente para todos: desde o salário inicial e plano de carreira até as metas, como está o desenvolvimento do trabalho e o que é esperado de cada um. Ali não há espaço para estrelas ou ego e todos devem falar o que pensam.

A transparência começa antes mesmo do processo seletivo. Os aspirantes a candidatos devem ler todas as características profissionais e pessoais que precisam ter para ingressar na empresa. Um dos pontos essenciais é que a pessoa deve pensar como dono e não como um funcionário tradicional.

Não existe hierarquia na Simbiose. “Acreditamos que qualquer pessoa que precise de ‘chefe’ para mandar ou cobrar não serve para empreender e, portanto, não está alinhada ao nosso sonho”, explica Gabriel Menegatti, fundador da empresa. Há obviamente cobrança, cujo objetivo é garantir que a pessoa atinja o seu melhor, ao mesmo tempo que são incentivadas a empreender.

 

Investimento na equipe

A Simbiose mantém um constante investimento em cursos e treinamentos para as pessoas, o que tem atraído muitos jovens e conseguido retê-los, além de manter os profissionais engajados. “Caí de paraquedas aqui, mas aprendi a amar esta empresa, a dar importância ao que faço, a seguir um sonho. Acabou que esse sonho está sendo compartilhado com a Simbiose”, revela Rafael Telles, 22 anos, de Santo André (SP), que continua: “Hoje, eu não consigo mais me ver trabalhar simplesmente por trabalhar”.

Outra frente é nas aulas de psicanálise, oferecidas duas vezes por semana, que reúne toda a equipe. A psicanalista clínica Anamaria Tonelli Racy capitaneia essas aulas. “Não é nada comum o que a Simbiose promove, e esse deveria ser o caminho de todas as organizações”, conta ela. Nas aulas, Racy aborda o aparelho psíquico, levando as pessoas a entenderem como funciona a cabeça e como devem enfrentar os desagrados da vida, tornando-a mais leve. “O trabalho também faz com que as pessoas olhem para dentro, descubram suas potencialidades e como desenvolvê-las, além de assumirem suas responsabilidades e não colocarem a culpa no outro”, completa.

 

Visão dos colaboradores

Déborah Andrade, 23, de Vitória (ES), que faz parte da equipe desde outubro de 2017, aprova essas aulas: “Aprendemos a ‘ser gente’”. Já em relação ao cotidiano do trabalho, ela conta que não teve dificuldades em se adaptar à cultura totalmente empreendedora. “Ser confrontada constantemente é um desafio, mas também tem um valor tremendo”, diz.

A ex-colaboradora Amanda Alves, 27, de Goiânia (GO), conta que as aulas de psicanálise fizeram muito bem a ela, fazendo-a amadurecer bastante. “Hoje, eu encaro as situações de uma forma totalmente diferente”, comenta. Ela levou de sua experiência na Simbiose o hábito criado de estudar sempre, incluindo uma rotina de leitura, além do crescimento como profissional e como pessoa.

Para Rodrigo de Bem, de Santarém (PA), um dos pontos mais positivos da empresa é a transparência em relação ao que se espera de seu trabalho e até a cobrança, assim como todo o suporte que tem para aprender, já que é seu primeiro emprego. Diz que seu maior desafio foi conseguir trabalhar em home office, o que exigiu um esforço tanto seu quanto de sua família.

Outro ex-colaborador, João Pedro Antunes Ferreira, 21, de Belo Horizonte (MG), relembra os desafios diários que sempre lhe faziam crescer. Por outro lado, acha que a pressão é demasiada, e nem todos aguentam. Ele ficou cinco meses na empresa e saiu por ter recebido uma proposta que lhe daria mais tempo para dedicar às tarefas da faculdade. Entretanto, não descarta um retorno no futuro.

Os depoimentos das pessoas confirmam a cultura e a filosofia da Simbiose Ventures, que são baseadas na visão de que o sucesso empresarial vem através do sucesso individual – pessoal e profissional – de seus colaboradores. Para isso, a empresa também é intrusiva e dura tanto na contribuição quanto na pressão. Meritocrática, sem ações paternalistas, as pessoas são consideradas essenciais para o sucesso simbiótico do todo.

Por Sandra Regina da Silva,
Jornalista freelancer, que escreve sobre business, gestão empresarial, startups, entre outros temas.  

Website: https://www.simbioseventures.com/