Mercado vê amadurecimento das startups após a crise

A sabedoria popular é infalível: depois da tempestade realmente vem a bonança. O cenário econômico do Brasil é um exemplo disso. Após passar por uma grave crise nos últimos anos, o país já dá sinais de recuperação e mostra que o pior está ficando para trás. E neste cenário de retomada do crescimento, as startups consolidam a sua presença no mercado.

Nesta última década, a turbulência econômica no país exigiu muita inovação, necessidade de reinvenção, eficiência e criatividade para lidar com os problemas – justamente o que as startups têm de melhor.

Com um perfil mais resiliente, justamente porque lutam para viabilizar uma ideia, os empreendedores que investem no próprio negócio têm um preparo muito maior, o que atrai mais capital. A tecnologia, que envolve o uso do smartphone, transformou a vida da população e abriu caminho para muitas aplicações no dia a dia. Hoje, um software costuma ter funcionalidades excelentes a custos irrisórios, sem contar a capacidade de segmentação e eficiência.

A tempestade…

Os últimos anos no Brasil não foram fáceis. Em 2015 e 2016, por exemplo, o PIB (Produto Interno Bruto) recuou 3,5% nos dois anos. Em 2017, teve um ligeiro aumento de 1%, de acordo com dados do IBGE. Já os investimentos privados caíram para 13,7% do PIB no levantamento de 2017, o menor índice desde 2000, segundo estimativas do Cemec (Centro de Estudos do Instituto Brasileiro do Mercado de Capitais).

Em momentos de crise, as empresas precisam melhorar sua proposta de valor para os clientes, seja diminuindo os custos, lançando produtos mais atrativos ou oferecendo novos serviços. Do outro lado, a recessão preocupa os empresários, levando-os a cancelarem contratos, pausarem investimentos e reduzirem suas equipes.

Evidentemente, as startups são afetadas pelo cenário econômico, mas diferentemente das grandes corporações, aproveitam esses momentos para encontrar ótimas oportunidades. A entrada desses novos players ajuda a reduzir os custos, modificando mercados consolidados ou criando novos. A redução da força de trabalho, por exemplo, permite que elas possam contar com profissionais experientes que passam a estar disponíveis no mercado e com apetite de empreender.

Mas nem tudo é vantajoso. Durante um período de retração, é comum o encerramento de programas de incentivo à inovação e com a crise os consumidores tendem a ficar menos propensos ao consumo de novos produtos e serviços. Assim, é comum ver startups promissoras fecharem suas atividades do dia para a noite. Pesquisa realizada pelo Sebrae e pelo Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços indica que 30% das startups analisadas fecharam as portas no último ano.

… e a bonança

Contudo, quando a economia começa a voltar a crescer, as sobreviventes saem na frente das demais. Elas se mantêm ativas em seus mercados porque foram capazes mais eficientes no emprego do capital que tinham em mãos. Quando a maré muda e novos recursos começam a entrar, o crescimento costuma ser bem mais expressivo do que a média do setor.

Os fundos de private equity investiram R$ 15,2 bilhões em 2017, um aumento de 36% em relação ao ano anterior, de acordo com levantamento da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (Abvcap) – os números não citam os fundos globais. Os investimentos alavancaram os negócios de 175 empresas, o que significa crescimento de 10,2%.

Além disso, a Abvcap estima que as gestoras de private equity tenham R$ 30 bilhões para capitalizar empresas no Brasil, o que inclui novos fundos e outros já captados que ainda não esvaziaram o caixa. Uma das explicações é justamente a retomada do crescimento econômico, já que a expectativa é um crescimento de até 30% dos aportes no país até o fim do ano. O fluxo de capital para empresas oriundo de VCs e anjos segue o mesmo padrão.

As oportunidades de investimento atingem todos os estágios. Desde a fase inicial, com a criação da empresa, até a consolidação em seu mercado de atuação. Dessa forma, basta alguns anos com um ciclo de crescimento acelerado para que a startup seja alçada à referência e, em alguns casos, extrapole suas funções e seu setor – sendo reconhecida até por quem não utiliza seus produtos e serviços.

Companhias com alto teor de inovação no seu dia a dia e competitividade são imprescindíveis para o ecossistema empresarial e para a economia em geral. Elas são o catalisador da renovação e criação de valor, e justamente por isso, são as que mais impactam, positivamente, o período de bonança e retomada econômica.

*Eduardo Küpper é MBA pela Wharton Business School e MA em Estudos Internacionais pelo The Lauder Institute, na Universidade da Pensilvânia e Cofundador da Wharton Alumni Angels Brasil- whartonangels@nbpress.com