Cidade mineira atrai jovens talentos pelo estilo de vida pouco convencional

A cidade de Santa Rita do Sapucaí foi recentemente anunciada pelo gigante Facebook como uma das 45 ao redor do mundo que receberão seu evento anual, o F8. No Brasil, além do município mineiro, apenas São Paulo e Porto Alegre conseguiram o feito. Na mesma semana, a Petcom, empresa fundada na cidade por ex-alunos do Instituto Nacional de Telecomunicações, o INATEL, anunciou um investimento de valor não revelado feito pela gigante suíça R&M, que passa a assumir o comando da Startup especializada em soluções inovadoras para fibra óptica. Poucos dias antes, a Confederação Brasileira de Voo Livre anunciou que a plataforma de Santa Rita do Sapucaí foi a que teve o maior número de voos registrados pela associação em 2016, com mais de cinco mil saltos.

No mesmo período, foram anunciados na cidade mais uma edição do Startup Weekend, evento global onde são criadas empresas inovadoras em apenas um fim de semana, além de um encontro em que jovens designers e programadores passarão hora a finco criando novidades em jogos digitais, conhecido como Hackathon de Games. Não bastasse, Santa Rita também receberá nos próximos dias uma série de eventos com entrada franca, como uma palestra sobre a legalização das drogas seguida de um show de Jazz em um teatro, um debate sobre o festival de inovação norte-americano SXSW seguido do show de lançamento do novo disco de uma banda local que vem se projetando nacionalmente, um encontro de programadores do Google Developers Group em um botequim, além de mais uma edição de um programa de desenvolvimento de atitude empreendedora para crianças que foi bancado por uma campanha de financiamento coletivo. Essas são apenas algumas de uma variedade enorme de atividades que a cidade realiza a cada semana, de dar inveja às principais capitais do país. O que impressionaria até mesmo em uma localidade com mais de um milhão de habitantes, surpreende ainda mais em um município tão pequeno. Santa Rita do Sapucaí tem apenas 40 mil habitantes.

A base de tudo é a educação, conta o engenheiro Vinicius Soares, que há cerca de 10 anos deixou o interior do Rio de Janeiro para estudar no INATEL e optou por permanecer na cidade. “A Escola Técnica de Eletrônica, o INATEL e o Centro Ensino Superior em Gestão, Tecnologia e Educação (FAI) formam um criadouro de profissionais de alto nível que mantem a cidade ativa e evoluindo dessa forma, mas também cultivam as raízes fortes da cultura do interior, como a simplicidade nas relações e o convívio com a natureza”. Soares lembra que, além da tecnologia, uma das paixões da população são as corridas, seu passatempo favorito. “Apenas em 2017, Santa Rita será sede de mais de dez provas nas paisagens exuberantes da cidade entre corridas urbanas e em estradas rurais”.

Quem também se diz encantada com Santa Rita do Sapucaí é a empreendedora Paula Dias, que mudou recentemente dos Estados Unidos para iniciar sua marca de café especial na cidade. “Temos amigos do mundo inteiro que vivem aqui, fazemos negócios com diversos países sem ter que sair daqui, mas também posso ter minha horta em casa, tomar café na padaria, e meu filho estudar em uma excelente escola pública”. Paula conta que o movimento Cidade Criativa Cidade Feliz, que funciona como um trampolim para novos projetos, é a iniciativa que mais admira. “A gente não vê a hora de chegar o mês de agosto para curtir as atividades do festival”, destaca. “Também gosto muito do festival de Jazz e Blues que acontece na rua e do Bazarte, feira que reúne talentosos artistas locais na praça central pelo menos uma vez por mês”. Para o australiano Luke Kiernan, o pequeno município mineiro é um caso raro de referência em criatividade e inovação fora de uma metrópole. “Santa Rita tem tudo o que uma grande cidade oferece, mas em pequena escala, com um enorme senso de comunidade e simplicidade”, destaca Kiernan, que antes de adotar Santa Rita do Sapucaí como seu lar vivia em Londres, na Inglaterra.

Para a jovem engenheira Gerusa Oliveira, que saiu de Campinas (SP) para viver em Santa Rita, além da força tecnológica que faz a cidade ser reconhecida nacionalmente como o Vale da Eletrônica, a receptividade da população com quem chega de fora é muito positiva. “Não dá pra esperar um grande shopping aqui, mas tem sempre algum churrasco cheio de gente legal, e eu adoro”. Já o músico santa-ritense Juliano Souza destaca que, além de ser um polo de tecnologia e também ter muitos movimentos artísticos, a conexão entre esses dois mundos é uma enorme vantagem. “O INATEL tem um dos melhores teatros do país não só em infraestrutura, mas também por possibilitar que os artistas locais tenham acesso irrestrito a ele”. O resultado, segundo Souza, é de uma programação extensa ao mesmo tempo em que nascem vários projetos autorais. O músico também ressalta a capacidade de conexões que a cidade oferece. “Minha banda toca em São Paulo o tempo todo, organizo festivais, tenho um programa de rádio, e ainda dou aulas de música no INATEL, como complemento da formação humana dos estudantes de engenharia”, destaca. “Santa Rita é pequena, mas tem uma visibilidade tão grande e acesso tão fácil às principais capitais, que faz com que qualquer iniciativa criada aqui tenha peso nacional”, completa.

Para João Rubens Costa, o segredo está no estilo de vida que a cidade proporciona. “A cultura empreendedora, a troca natural de ideias entre as pessoas, o envolvimento tão forte entre a universidade e a comunidade, a possibilidade de trabalhar com desafios relevantes e ainda manter uma vida simples de interior, tudo isso vem atraindo jovens talentos de toda parte, que passam a frequentar e até se mudar para cá”. O jovem designer, que trocou a capital carioca pela pequena cidade mineira, lembra que Santa Rita também é palco do Bloco do Urso, um dos principais carnavais do país, do Showrrasco, festival de música que atrai público de todo o Brasil, e do Hack Town, festival reconhecido internacionalmente, inspirado no SXSW, que reúne palestras em locais inusitados. “Apesar da cidade, obviamente, ter seus problemas e desafios, Santa Rita tem um estilo de vida totalmente singular, que talvez não seja o ideal para quem busque apenas um emprego qualquer ou uma vida padronizada”, conclui Costa, “mas que é altamente atrativo às pessoas que querem realizar trabalhos de impacto sem a pressão dos grandes centros, o que resulta numa quantidade incomparável de atividades interessantes e inclusivas”,