Ascensão econômica, Crédito e Black Money: a contramão da realidade dos empreendedores negros no Brasil

Segundo o IBGE, brasileiros com origem no topo da pirâmide social têm quase 14 vezes mais chances de continuarem nesse estrato do que pessoas nascidas na base ascenderem para essa posição. É sabido que a base sócioeconômica brasileira pelo seu contexto histórico tem cor e raça. Nesse viés, o mesmo estudo do IBGE observou que a mobilidade social é menor entre pretos ou pardos do que entre brancos . Na análise de mobilidade de longa distância, um indivíduo branco tem o dobro das chances de conseguir migrar dos estratos D, E ou F para o A do que um preto ou pardo.
Os resultados apontam que para a população preta ou parda, é mais difícil ascender ou mesmo permanecer no mesmo estrato do que para a população branca.

“Diversos estudos que analisaram as chances relativas de mobilidade entre brancos e não brancos confirmam a existência de barreiras raciais à mobilidade intergeracional no Brasil”, afirma o instituto.
É mandatório analisarmos as estruturas que causam as barreiras raciais a essa mobilidade. No Brasil temos vários cases de sucesso de empreendedores, mas quantos destes empreendedores são negros? Será que estes são menos capazes que os empreendedores brancos?

Empreender é um grande desafio no Brasil, onde cerca de 60% das empresas fecham antes de completar 3 anos de existência. Entre os motivos: burocracia, carga tributária excessiva, dificuldade de concessão de crédito e falta de conhecimento gerencial, especialmente para os micro e pequenos empreendedores. Contudo, essa saga é ainda mais hercúlea para o empreendedor negro.

Ser negro no Brasil, além de ter mais chances de ser morto ainda na juventude, ter menor acesso à educação e ganhar proporcionalmente menos que os brancos, também representa ter menores oportunidades no mundo dos negócios.

Hoje, 51% dos empreendedores brasileiros são negros, mas apenas 29% deles empregam ao menos uma pessoa. Segundo especialistas, os afrobrasileiros enfrentam não só barreiras cumulativas devido à História brasileira, mas também devido ao racismo que persiste nas relações sociais. Eugene Cornelius Junior, que é chefe do escritório internacional da SBA nos Estados Unidos (entidade que oferece apoio para as pequenas e médias empresas, equivalente ao Sebrae que temos por aqui) afirma que, no Brasil, o empreendedor negro tem o seu pedido de crédito negado três vezes mais do que o empreendedor branco.

Isso significa que, “se uma pessoa da comunidade negra tem o desejo de empreender, mas não possui capital para isso e nem conhece alguém próximo que possa fazer um empréstimo, possivelmente não vai conseguir tirar a sua ideia do papel , expandir seu negócio ou fazer novas contratações. Porém engana-se aquele que acha que isso é um problema exclusivo dos negros – ao privar o acesso da maioria ao crédito inibimos o crescimento econômico e a criação de empregos no Brasil”, diz Alan Soares Planejador Financeiro /Sócio da Trader Brasil e fundador do Movimento Black Money . “O nosso PIB poderia crescer muito mais se não houvesse essa discriminação tão intensa dentro da economia”, complementa.

Investir em iniciativas que mudem essa realidade é um passo importante a ser dado através do apoio de toda sociedade civil aos negócios sociais, não faltam exemplos de projetos e empresas atuantes do ecossistema do Empreendedorismo Negro em todo o Brasil: o crowndfunding da parceria entre a Ganbatte e o Capital Herdeiro, onde uma formação de Mercado Financeiro será financiada para capacitar uma turma de jovens de baixa renda na intenção de inseri-los no mercado de trabalho (contribua aqui: http://juntos.com.vc/pt/impulsionando-talentos); iniciativas transformadoras como o D´Black Bank, uma fintech brasileira de negros para negros que será lançada em 2018 com o intuito do fomento à comunidade afrodescendente na manutenção do consumo de produtos e serviços para circulação de riqueza dentro de seu grupo étnico racial (http://www.dblackbank.com.br); ainda temos diversas plataformas de serviços para Negros como a Diáspora Black, plataforma digital que conecta viajantes e anfitriões interessados em vivenciar experiências de viagens focadas na história e cultura da comunidade negra em diferentes cidades do mundo, que está sendo incubada pelo Estação Hack, projeto do Facebook; na moda temos os Afrocriadores, coletivo que nasceu entre conversas nos intervalos de oficinas do projeto Sebrae Moda/RJ; e o Vale do Dendê que visa criar uma plataforma de atração de investimentos sociais e econômicos para a revitalização do centro de Salvador, restaurando espaços públicos e privados, formando mão de obra qualificada e criando um novo branding para a cidade.

“A cor da pele não define a capacidade de ninguém. Contudo, o negro enfrenta tantas dificuldades para conquistar o seu espaço desde criança, que acaba desenvolvendo soft skills como resiliência, empatia e persuasão que são características essenciais para qualquer empreendedor”, diz Débora Santos, Gerente de Projetos da IBM, líder do grupo BRGAfro e Advisor do Movimento Black Money.

Segundo Nina Silva, Executiva de TI e fundadora do DBB, “não faltam exemplos de que criatividade, coletivismo e iniciativa são pilares de sobrevivência da população negra, mesmo sem visibilidade e reconhecimento da história pelo sistema educacional e mídias. Durante e no pós período escravocrata a população afrodescendente lutou e tem lutado para garantir sua subsistência, onde o que denominamos “Black Money” tem sido a garantia de que podemos ser o nosso próprio mercado, em combate à marginalização e subalternação dos empreendedores e profissionais negros. Black Money também é resistência ao genocídio histórico da população negra”.

O MBM ( http://www.movimentoblackmoney.com.br ) tem como meta fomentar o empreendedorismo na comunidade negra e prestar suporte àqueles que têm uma nova ideia, uma nova forma de propor uma solução ao mercado, pois praticar o Black Money não tem a ver com ser contra os empreendedores ou profissionais não negros, pelo contrário, é potencializar a economia do país emergindo com todas as classes sociais. Não é justo, muito menos estratégico para nossa sociedade continuar permitindo que o preconceito racial impeça a emancipação da população negra e o crescimento de toda a economia do país.