Arquitetura voltada para as classes C, D e E ganha espaço no mercado

Apenas 15% das pessoas que fizeram uma reforma ou construção contrataram um urbanista ou arquiteto para a obra, de acordo com uma pesquisa recente publicada pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU) do Brasil. O levantamento ainda revela que as principais razões para a não convocação desse profissional são a “falta de dinheiro” e uma “não necessidade do serviço”.

A região sul do País é a que mais utiliza os serviços de arquitetos e urbanistas, com 25,9% do total de obras. A região sudeste aparece logo em seguida, com 16,4% e, por último, a nordeste com 7,1%.

O que a maioria ignora é que o serviço leva muito menos em questão a estética e mais a acessibilidade, a funcionalidade e o planejamento.

Segundo organizações internacionais, ONGs e fundações, cerca de 50 milhões de pessoas vivem em moradias autoconstruídas no Brasil – desse total, 14 milhões ficam em comunidades. O mercado, apesar de pouco explorado, vem atraindo o olhar de empresários.

Empresa disruptiva nesse setor, a Inova Urbis, escritório de arquitetura popular que oferece projetos gratuitos para moradores da comunidade da Rocinha, no Rio de Janeiro, e em Paraisópolis, em São Paulo, viu a demanda aumentar substancialmente nos últimos meses.

Cerca de 400 famílias já foram beneficiadas pelo negócio social e outras 1.000 devem ser atendidas até o final deste ano. Todos os planejamentos são realizados gratuitamente pela empresa e a execução das obras fica a cargo do morador.

Segundo Alban Drouet, sócio-fundador da Inova Urbis, o negócio social é desafiador: “Nós não fazemos a obra nem vendemos o material de construção, por isso, precisamos encontrar um modelo econômico que permita trazer esse projeto de graça para os moradores”.

O objetivo, explica Drouet, “é democratizar o acesso aos serviços de um arquiteto, oferecendo projetos que visam resolver problemas como a má distribuição dos espaços, infiltrações, fiação elétrica precária e exposta e escadas irregulares, entre outros. Do total de propostas feitas, cerca de 70% são levadas adiante”.

Augusto Branco, arquiteto da empresa, acredita que a atuação dela ajuda na formação de opinião e no entendimento a respeito da função do profissional: “É uma maneira de quebrar o paradigma de que a arquitetura é feita somente para classes mais altas e conscientizar os estudantes para que eles consigam pensá-la de forma palpável a todos”.

O escritório presente no Rio e em São Paulo foi um dos destaques do Seminário de Empreendedorismo e Novas Tecnologias em Arquitetura e Urbanismo, organizado pelo CAU/BR, em São Paulo.

Sanderland Ribeiro, coordenador da Comissão de Políticas Profissionais do Conselho de Arquitetura e Urbanismo, diz que os novos projetos voltados para as classes mais baixas enfatizam a ativa participação dos arquitetos e a importância da assistência técnica em qualquer moradia: “É um trabalho bastante árduo, mas compartilhar esse tipo de informação é a melhor forma de buscar caminhos para a transformação da sociedade”.

Ribeiro acredita que os empreendimentos que levam em conta as questões sociais estão trazendo para a superfície a arquitetura real. “O mundo está olhando para dentro de si. Esses negócios estão abrindo possibilidades para um mundo melhor”, conclui.