Adoção do medicamento genérico para Hepatite C pode sair mais caro do que tratamento convencional

A discussão sobre a possível alteração no protocolo de tratamento de pacientes portadores de Hepatite C, proposto pelo Ministério da Saúde, tem gerado questionamento entre sociedades médicas. O principal ponto de indagação é a respeito da utilização da combinação do sofosbuvir (genérico) / daclatasvir. Esta é uma alternativa utilizada anos atrás quando não se tinha a tecnologia e a eficiência dos medicamentos disponíveis hoje, inclusive que foram aprovados recentemente pela ANVISA para um novo protocolo de tratamento que não chegou a ser incorporado. O alerta é de Carlos Varaldo, representante do Grupo Otimismo, comunidade de apoio a portadores de hepatites.

De acordo com Varaldo, a possível adoção do genérico para tratamento da Hepatite C, pelo SUS, pode representar um aumento de R$ 48 milhões aos cofres públicos. “Apesar da informação de que a adoção do genérico poderia gerar uma economia de cerca de R$ 1 bilhão, foi comprovado através das tomadas de preços e simulações que os valores dos medicamentos de laboratórios sairiam mais barato”. E completa: “O valor, diferentemente do que está sendo anunciado, sai 30% mais caro que um medicamento referência – US$ 300 dólares a mais do que o melhor valor oferecido por um laboratório em simulação realizada na reunião de 11 de julho, que aconteceu no Departamento IST, Aids e Hepatites Virais”, explica.

Varaldo ainda complementa que reconhece a necessidade de ampliar o acesso a todos os pacientes infectados com a doença, porém, segundo ele, a decisão pode colocar em risco o Plano de Eliminação da doença, anunciado o ano passado pelo Ministério da Saúde, uma vez que o genérico que pode ser oferecido pelo SUS deve ser combinado com o daclatasvir, assim complica a logística de compra e distribuição por depender de dois fabricantes.

Dados do Ministério da Saúde apontam que, no Brasil, existam entre 1,4 e 1,7 milhões de pessoas com hepatite C crônica e que ocorram cerca de 10 mil novos casos por ano. Baseado nessa argumentação, Varaldo faz um alerta: os novos medicamentos aprovados no Brasil realizam o tratamento com somente um comprimido ao dia e na maioria dos casos encurtam o tempo de tratamento para 8 semanas contra 12 ao se utilizar o genérico. Por serem mais simples de utilizar permitem interiorizar o tratamento podendo ser realizado por clínicos gerais, beneficiando pacientes de cidades pequenas que atualmente devem procurar tratamento em cidades com maior infraestrutura.

Para o Presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia, Dr. Sergio Cimerman, o Brasil vem buscando melhores tratamentos existentes em nível mundial para o tratamento da hepatite C, prova disso é o anúncio do plano para a eliminação da doença até 2030, alinhado com as metas da Organização Mundial da Saúde (OMS), porém o possível retrocesso no tratamento é preocupante. “Entendemos que, se buscamos a eliminação da doença, é necessário avançar nas tecnologias em busca da simplificação do tratamento, com esquemas pangenotípicos e de duração mais curta”, declara.

Segundo Varaldo, ninguém é contrário aos medicamentos genéricos, mas diante da ilusão de uma possível economia financeira, as sociedades médicas vêm se posicionando contra a adoção do genérico para todos os infectados que necessitam tratamento da hepatite C já que existem opções melhores de tratamento para os diversos genótipos do vírus e a um custo menor para o SUS.

Confira:

Associação Paulista para Estudo do Fígado – http://www.hepato.com/2018/07/apef-asociacion-paulista-para-estudio-del-higado-de-brasil-posicionamiento-contra-el-retroceso-en-el-plan-de-eliminacion-de-la-hepatitis-c/

Sociedade Brasileira de Hepatologia – http://www.hepato.com/2018/07/la-sociedad-brasilena-de-hepatologia-tambien-se-posiciona-contra-el-retroceso-en-el-plan-de-eliminacion-de-la-hepatitis-c/

Sociedade Brasileira de Infectologia – http://www.hepato.com/2018/07/posicionamiento-de-la-sociedad-brasilena-de-infectologia-contra-el-retroceso-en-el-plan-de-eliminacion-de-la-hepatitis-c-en-brasil/

Hepatite C

A hepatite C é uma infecção causada pelo vírus da hepatite C (HCV), que possui pelo menos seis tipos (genótipos) distintos e que acomete preferencialmente o fígado, provocando uma inflamação que leva a formação de cicatrizes (fibrose hepática) e que, com o decorrer do tempo e sem um tratamento, pode levar à cirrose e ao câncer de fígado. Além do fígado, outros órgãos também podem ser acometidos.

A hepatite crônica C afeta aproximadamente 71 milhões de pessoas no mundo. No Brasil, há uma estimativa de 700 mil portadores da doença. Cerca de 155 mil foram diagnosticados entre 1999 e 2016 e há indícios de que ainda faltam 502 mil pessoas para serem diagnosticadas. Nesse período foram realizados 110 mil tratamentos, sendo 57 mil somente entre 2015 e 2017. Entre 2000 e 2015, foram identificados 46.314 óbitos relacionados à hepatite C; de cada quatro óbitos por hepatite viral no Brasil, três (75,6%) são pelo HCV. O fato é que grande parte desconhece seu diagnóstico e poucos sabem como ocorreu a transmissão ou que exista tratamento para a doença.

O HCV é transmitido pelo contato com sangue infectado, sendo que os principais meios de transmissão são reutilização e esterilização inadequada de equipamentos médicos, odontológicos e outros, compartilhamento de seringas e agulhas (como no uso de drogas ilícitas), práticas sexuais de risco e transmissão vertical (da mãe para o filho). Pessoas que receberam transfusão de sangue antes de 1993 também podem ter contraído a infecção.

A Hepatite C é a maior causa de cirrose, câncer de fígado e transplante hepático no mundo. Além das complicações relacionadas ao fígado, pode desencadear uma verdadeira doença sistêmica. Estudos comprovam que o vírus da Hepatite C aumenta os riscos do aparecimento de outras doenças como a Diabetes do tipo 2 e do Linfoma, por exemplo.