Demissão responsável

A Brasil Telecom demitiu mais de 5,5 mil funcionários e conseguiu o que parecia impossível: deixar todo mundo satisfeito

Demissões em massa são sempre um grande drama na vida das empresas. Diferentemente de uma demissão isolada, que pode ocorrer por causa de alguma deficiência técnica do profissional, o corte de dezenas ou centenas de pessoas da folha de pagamento geralmente atinge também bons talentos. Isso acontece porque a prioridade é a redução do número de funcionários, o que normalmente impossibilita a empresa de preservar todos os talentos que gostaria. A Brasil Telecom, empresa de telefonia criada em 1998 com a privatização do sistema Telebrás, no entanto, é um capítulo especial nessa história. Tão especial, aliás, que a maioria daqueles que deixaram a empresa são só elogios.

A Brasil Telecom atua no Distrito Federal e nos estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Tocantins, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Seu programa de demissões, batizado de Apoio Daqui e iniciado em janeiro de 2000, atingiu o impressionante número de 5 569 profissionais. “Tínhamos um quadro inchado de colaboradores, e as pessoas estavam concentradas em áreas que não eram o nosso verdadeiro core business”, afirma Eléu Magno Baccon, diretor adjunto de recursos humanos da empresa. “Não estávamos agregando valor ao cliente.” O objetivo da empresa era ampliar o foco dos negócios na área de serviços e terceirizar setores como suporte técnico, manutenção e central de atendimento entre outros. O mais impressionante, no entanto, foi como a empresa conseguiu minimizar o impacto desse corte gigantesco. Hoje, 93,2% dos demitidos já reencontraram o próprio caminho: estão recolocados em outras companhias, abriram seus próprios negócios ou colocaram em prática os projetos pessoais. Tudo com o apoio, a supervisão e a orientação da empresa. O projeto está agora entrando em sua fase final e chamou a atenção do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social. A entidade, que tem como missão incentivar a responsabilidade social nas empresas, classificou a política da Brasil Telecom como demissão responsável.

O que o programa Apoio Daqui tem de especial para obter um saldo tão positivo? Em primeiro lugar, uma curiosidade: ele nasceu das lições de um grande erro. Quando chegou à conclusão de que precisava promover uma profunda reestruturação, em 1998, a Brasil Telecom simplesmente começou a fazer os cortes sem anúncios prévios nem pacotes de incentivos. A ação caiu como uma bomba na organização. Os funcionários entraram em pânico, muitos se revoltaram com a frieza da empresa e, é claro, ninguém conseguia trabalhar direito com medo da degola e da boataria. Não é preciso dizer que isso teve também impacto no serviço prestado pela Brasil Telecom aos seus clientes. “A insatisfação foi geral, e nós, como profissionais de recursos humanos, nos sentimos frustrados”, diz Baccon. Uma falha imperdoável para uma companhia que sonhava em tornar-se referência em gestão.

Disposta a corrigir o erro, a Brasil Telecom começou a fazer a lição de casa. Criou uma comissão formada por funcionários, sindicatos, representantes do governo e até da comunidade, e a enviou à Europa para estudar casos exemplares, visitar entidades de recursos humanos e conhecer empresas. “Em vários países da Europa, como França e Espanha, as organizações são obrigadas a traçar um plano social e ajudar as pessoas a se recolocar ou a criar o próprio negócio”, diz Baccon. “Isso nos deixou surpresos.”

Na volta, com a ajuda da filial brasileira da consultoria francesa BPI, a Brasil Telecom implementou o programa Apoio Daqui. A empresa decidiu que tudo deveria ser feito com a maior transparência possível. Criou um abrangente plano de comunicação interna para que todos, sem exceção, soubessem com antecedência quais seriam as medidas adotadas. As informações circulavam por revistas, impressas e eletrônicas, jornais internos e murais. Os gerentes se reuniam com freqüência com suas equipes para tirar todas as dúvidas. Dessa forma, os funcionários conheceram os setores que seriam atingidos e, portanto, quem teria de deixar a Brasil Telecom. A partir daí, eles tinham algumas opções:

1) Solicitar uma recolocação dentro da própria empresa. Quando foi possível, a empresa atendeu ao pedido. Cerca de 500 pessoas foram remanejadas;

2) Receber salários extras (em geral, aproximadamente 0,5 salário por ano trabalhado na empresa) para realizar projetos pessoais, como viajar ou estudar. Um total de 2267 profissionais fez essa opção;

3) Contar com a ajuda da empresa para buscar uma recolocação no mercado, montar o próprio negócio ou tornar-se autônomo.

A Brasil Telecom criou oficinas de reflexão, nas quais os funcionários fizeram, com o apoio de consultores especializados, um balanço geral da carreira e de suas competências. Também prepararam um novo currículo e analisaram as oportunidades do mercado que poderiam explorar. Quem não tinha planos de montar o próprio negócio foi encaminhado para as células de emprego, grupos de funcionários que buscavam uma recolocação e tentavam, na medida do possível, ajudar o colega a encontrar também uma oportunidade. Resultado: a empresa conseguiu recolocar 1407 ex-funcionários em outras companhias e ajudou a criar 334 novos negócios bancando cursos de empreendedorismo e intermediando linhas de crédito no Banco do Brasil. Outras 1473 pessoas se beneficiaram de iniciativas como a criação de cooperativas e de grupos de prestadores de serviços para a própria Brasil Telecom. A empresa conseguiu negociar também a recolocação de 200 deficientes físicos de sua antiga central de atendimento na empresa terceirizada para prestar serviços de telemarketing.

São inúmeras as vantagens para empresas que adotam políticas de demissão responsáveis. Uma delas é a preservação de sua boa imagem perante o mercado e os clientes, o que é fundamental nos dias de hoje. Outra, é evitar os boatos e o pânico, que certamente vão prejudicar os negócios. A terceira vantagem é dar um recado claro aos funcionários que permanecem: a empresa jamais os deixará na mão. “Não há nada pior para um profissional do que sentir que é uma pessoa descartável para a organização”, afirma Valdemar de Oliveira Neto, superintendente do Instituto Ethos. Com tantas vantagens, chega a ser difícil entender por que boa parte das empresas ainda mantém certa truculência na hora de demitir. Para Oliveira Neto, a resposta talvez seja a visão de curto prazo de algumas delas. “Fazer um programa de demissões bem elaborado dá trabalho e leva tempo”, diz ele. “Mas isso vem mudando aos poucos, principalmente naquelas organizações que dependem de mão-de-obra especializada, como telecomunicações e tecnologia.” Uma política de demissão responsável, aliás, é um dos fatores que determinam se uma empresa é ou não um bom lugar para trabalhar.

Com seu programa Apoio Daqui, a Brasil Telecom evitou que a empresa sofresse sérias conseqüências. Segundo uma pesquisa feita durante 18 anos pelo professor Wayne Cascio, da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos, muitas organizações promovem grandes cortes visando não só reduzir despesas como provocar aumento no valor das ações. O problema é que a receita também tende a cair, pois os funcionários que permanecem geralmente passam a sofrer da chamada síndrome da sobrevivência. Eles sentem raiva, medo, ansiedade, frustração e não se expõem ao risco. Justamente quando você mais precisa das pessoas para dar uma virada nos negócios, elas tendem a ficar entrincheiradas e sem coragem para enfrentar os desafios.

Um ano de vida, e já é um sucesso
A Lab Telecom Serviços de Comunicação, localizada em Curitiba (PR), é uma empresa com pouco mais de um anode vida. Teve, no entanto, um faturamento de fazer inveja a muita gente no ano passado: 3 milhões de reais. Nada mau para um negócio que exigiu um investimento inicial de 112 mil reais. O engenheiro Antonio Helio Alves Nunes, de 50 anos, um dos sócios da Lab Telecom, espera já neste ano dobrar o faturamento. Nunes trabalhou durante 22 anos na Telepar. Seu último cargo na empresa, após a privatização, foi o de engenheiro do centro de reparo, unidade responsável pelo conserto de placas de telefonia. Sabendo da inevitável extinção da área, ele e outros 15 colegas optaram por abrir o próprio negócio. “O conhecimento técnico não era problema para nós, mas não sabíamos como gerenciar o negócio”, afirma. A Brasil Telecom deu todo o suporte necessário e fechou, logo de cara, um contrato de prestação de serviços. A empresa tem atualmente 35 funcionários, além de 15 sócios. A Lab Telecom foi credenciada pela Anatel para fazer testes de credenciamento de novos equipamentos. Recentemente acertou sua participação na sociedade da Lab Telecom do Rio Grande do Sul. “Ainda neste ano chegaremos a 100 funcionários e planejamos levar a Lab Telecom a Mato Grosso do Sul.

O empurrãozinho que faltava
Ao completar 16 anos de casa, o gerente de manutenção de telefonia pública da Brasil Telecom, José Geraldo de Oliveira, 43 anos, soube que seu setor seria terceirizado. Depois de refletir bastante sobre o futuro, tomou uma decisão: em vez de aceitar passivamente que a Brasil Telecom contratasse outra empresa para prestar esse tipo de serviço, ele abriria seu próprio negócio e faria o trabalho. “Eu me questionava: por que deixar para os outros aquilo que eu conheço e sei fazer tão bem?” Oliveira convenceu quatro colegas da empresa a investir na idéia. A Brasil Telecom bancou cursos de empreendedorismo e de gestão para os futuros sócios, emprestou gratuitamente os equipamentos para começarem o negócio e cedeu temporariamente um espaço dentro da própria companhia para abrigar o escritório. Assim, nascia em 2001 a Skala Telecomunicações, hoje com faturamento mensal médio de 150 mil reais, 42 funcionários e sede própria com 600 metros quadrados de área construída, em Brasília (DF). “Vamos construir outros 840 metros quadrados em breve”, diz, orgulhoso. “Se tudo der certo, fecharemos este ano com um faturamento de 200 mil reais. Vamos atrás de novos clientes e desafios.”

A receita vitoriosa da Sabor Daqui
A coordenadora da central de atendimento Áurea Costa Garcez, 44 anos, sempre teve a mão muito boa para cozinhar. Seus salgados e assados faziam sucesso em muitas festas de aniversário na cidade de Florianópolis (SC). O trabalho extra dos fins de semana ajudava a complementar o salário que recebia da Brasil Telecom. Quando foi informada de que sua área seria extinta, achou que era o momento ideal para realizar o antigo sonho de se dedicar em tempo integral à cozinha profissional. Em novembro de 2000, depois de 25 anos

de trabalho na Telesc de Santa Catarina, ela desligou-se da companhia recém-privatizada para criar a Sabor Daqui, uma empresa especializada na produção de salgados, lanches naturais e assados. Montou uma cozinha industrial e hoje emprega dez pessoas. A Brasil Telecom deu um grande apoio: permitiu que ela abrisse uma lanchonete na sede

da empresa e vendesse seus produtos ali. Foi o pontapé inicial. Depois, Áurea inaugurou outro estabelecimento dentro da Universidade Federal de Santa Catarina e passou a vender seus produtos para lanchonetes localizadas em regiões mais nobres de Florianópolis. A Sabor Daqui comercializa algo em torno de 900 salgados por dia e fatura cerca de 35 mil reais por mês. “A empresa tem só um ano de vida e ainda não tive o retorno do capital investido, mas os negócios vão bem e há ótimas chances de crescimento”, diz ela.