De volta às corridas de 1966

Stephen Williams

© 2016 New York Times News Service

Chichester, Inglaterra – Uma boa razão para crer que a Inglaterra permanecerá para sempre: o Goodwood Revival.

Imagine um local no campo em que o cheiro de óleo de motor queimado se misture com a fragrância de água de toalete Guerlain e onde mecânicos em macacões sujos de graxa e gravatas mexem nos carburadores de velhos Jaguares e MGs. Onde se toma Veuve Cliquot diretamente da garrafa. Onde as damas desfilam de casacos de pele falsos, vestidos de bolinhas e maquiagem brilhante, enquanto os cavalheiros se pavoneiam em bonés impetuosos e coletes de tweed.

Essa extravagância retrô está cercada por uma pista de corrida de quase quatro quilômetros a oeste de Londres, onde os sons dominantes são os rosnados e os sons de motores de automóveis com décadas de idade. (Há ainda os ocasionais rugidos dos motores de aviões a hélice, porque o Goodwood, que foi um campo de pouso da Força Aérea Real durante a Batalha da Grã-Bretanha, também tem relação com velhos Lancasters e Spitfires.) O evento anual foi criado em 1998 por Charles Gordon-Lennox, também conhecido nessas paradas como Lord March.

Goodwood é uma peça de época visual e auditiva assim como um encontro de carros de corrida antigos que ainda correm. Freddie March, o falecido avô do atual Lord March, começou as corridas em sua propriedade de Goodwood em 1948, mas parou em 1966 quando foi considerado que as velocidades crescentes dos carros de desempenho de então os tornaram inseguros. Quando Charles Gordon-Lennox trouxe as corridas de volta, elas foram restritas a carros antigos.

“A coisa mais fundamental que Lord March tentou criar nos últimos 15 anos é a atmosfera daquele período de 1946 a 1966”, explica Andy Smith, que dirigiu seu MG por 483 quilômetros, de sua casa em Cornwall até Goodwood. Foi a 12a vez que ele e sua mulher, Sarah, compareceram. “A característica disso aqui é que é uma coisa muito inglesa”, diz Smith. Mesmo assim, “as pessoas que vêm são da Europa toda e de várias origens.”

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Aqui, os valiosos automóveis antigos não são apenas pilotados, mas também comprados e vendidos. Durante o evento deste ano, a loja Bonhams leiloou um Porsche 550RS Spyder, parecido com o de dois lugares no qual o ator James Dean morreu em 1955. O Porsche leiloado, de chassis número 90 com um motor de quatro cilindros que acelera de zero a quase 100 quilômetros por hora em cerca de dez segundos, foi vendido por 4,6 milhões de libras, ou cerca de US$ 6 milhões.

Existem formas menores de comércio também. No que é chamada de Rua Revival High, quiosques vendem cópias de arte, blusões militares, chocolates de menta Bendicks e partes de carburadores. Também há um parque de diversões com brinquedos que não têm relação com a corrida.

Em um quiosque está o salão de Beleza e Cabeleireiro Betty, administrado por Rebecca George. “Podemos fazer o estilo do período e outros também”, conta Rebecca, que cobra cerca de 72 dólares por um corte de cabelo e maquiagem. “As pessoas que vêm aqui realmente querem se mostrar.”

Mas as corridas são a alma do Goodwood Revival. O famoso piloto de Fórmula Um Stirling Moss já competiu aqui em um MG. E Goodwood recebeu outras lendas da direção, como Jim Clark, Mike Hawthorn e Jack Brabham. Brabham, um australiano que construiu seu próprio carro, foi lembrado este ano em Goodwood no aniversário de 50 anos de seu terceiro campeonato de Fórmula 1.

Mas a pista também traz algumas memórias mais sombrias, de antes do Goodwood Revival. O piloto e projetista Bruce McLaren morreu aqui em 1970 em seu carro experimental Can-Am, quando a lataria traseira se rompeu em alta velocidade.

Desastres como esse são raros no Goodwood Revival, mas por um triz. Com alguns desses antigos, Aston Martins, Jaguares e Ferraris chegando a velocidades de até 217 quilômetros por hora na Reta Lavant do circuito, manter-se no rumo é uma arte por aqui.

E bater também. Durante a corrida Kinrara Trophy, um Chevrolet Corvette de 1962 bateu em um Aston Martin DB4 de 1960 enquanto os dois brigavam por um pedaço da pista. Ninguém se machucou. “É uma pista para adultos e é muito rápida. Mas os profissionais não vêm aqui para tripudiar sobre os amadores, o que é uma coisa boa”, diz um piloto, que pediu para não ter o nome divulgado porque havia faltado ao trabalho.

Uma marca britânica carinhosamente abraçada por muitos dos 150.000 visitantes do Goodwood é a Austin. A marca é comemorada com a corrida St. Mary’s Trophy, que apresenta os modelos A30 e A35 com seus pequenos motores de 110 cavalos. “Este foi o meu primeiro carro, comprei quando tinha 16 anos”, afirma Julian Crossley, apontando para seu Austin A30 azul-bebê de 1954.

Crossley diz que o adquiriu em um leilão em meados dos anos 1980, “um pouco ultrapassado e cansado, mas já tinha 30 anos na época”. “Estudei engenharia mecânica na faculdade, mas aprendi muito mais desmontando o carro”, conta ele. Seu Austin não ganhou a corrida, Crossley ficou em 22º entre os 30 automóveis que competiram. “Estamos vivendo o sonho de Goodwood”, explicou.

Entre os pilotos veteranos de Goodwood esse ano estava Mark Gillies, que trabalha em comunicações corporativas na Volkswagen da América, na Virgínia. Gillies, que é inglês, ganhou meia dúzia de corridas no evento ao longo dos anos. Em Goodwood, ele exibe seu coração britânico com sua jaqueta de tweed. Este ano, pilotou um A-Type ERA Voiturette de 1934 da English Racing Automobiles.

“Esses carros são tão bem balanceados que gostam de deslizar”, diz ele, referindo-se à tendência desses veículos de ir de lado a lado quando perdem tração. “Eles não são tão rápidos quanto um carro moderno. Mas a beleza – bem, para mim – está mais nas qualificações do que nas corridas.”

Nessa corrida, o evento Goodwood Trophy, Gilles estava na frente quando uma vela de ignição do motor explodiu e ele fez uma parada. Terminou em nono, mas adorou a experiência. “Essa é a minha ideia de paraíso”, diz ele.