De Corote a Catuaba: as bebidas que ameaçam a cerveja no Carnaval

Há cada vez mais empresas novatas que se valem da explosão dos blocos de rua para chegar aos jovens das classes B, C e D

Qual será a bebida do Carnaval? De uns anos para cá, a data mais festiva do ano deixou de ser exclusiva das grandes cervejarias. Há cada vez mais empresas novatas que se valem da explosão dos blocos de rua para além do Rio, de Salvador e de Recife, e da queda no poder de compra trazido pela crise para chegar aos jovens das classes B, C e D. 

O nicho de bebida barata e irreverente começou a ganhar forma em 2016, quando as cervejas passaram a disputar espaço com as catuabas e as vodcas saborizadas no Carnaval e em festas universitárias. Geralmente comercializadas em garrafas PET, as bebidas popularzonas são mais alcoólicas que a cerveja e geralmente combinam açúcar e xaropes à base de frutas. O gosto adocicado fez com que quebrassem a resistência de quem torcia o nariz para cachaça e o uísque. O compartilhamento de experiências e a fidelidade aos produtos fizeram com que o ramo se consolidasse espontaneamente entre os jovens, principalmente nas redes sociais.

São bebidas que conseguiram romper uma barreira importante: a renda. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), os brasileiros bebem muito menos que os cidadãos de países desenvolvidos – como Estados Unidos, França e Alemanha. O consumo de bebidas alcoólicas está diretamente ligado à renda per capita de cada país. Quanto mais dinheiro, mais consumo. Por isso, historicamente, cerveja e cachaça foram tidos como bebidas das classes C e D no Brasil.

Mas o cenário muda rapidamente, puxado principalmente por duas marcas: Corote e Catuaba. Criada em 1958, a Missiato, fabricante da cachaça Corote sempre apostou em bebidas tradicionais. Até que viu que, mais de 50 anos depois de sua fundação, a empresa deslanchou com drinks que conquistariam o paladar dos mais jovens. Hoje, a Corote Sabores, feita com vodca, conta com mais de oito sabores — limão, morango, pêssego, maracujá, blueberry, canelinha, açaí com catuaba e menta.

Conhecida por suas supostas propriedades estimulantes e afrodisíacas, a Catuaba Selvagem nasceu em 1992 , inspirada por Instinto Selvagem o clássico filme com Michael Douglas e Sharon Stone. Ao longo dos vinte e seis anos de história da bebida, apenas a embalagem mudou. A modificação do formato e material da garrafa veio junto com uma mudança também no consumo. Aos poucos, os jovens abandonam os copos plásticos para beberem diretamente da garrafa — que pode ser transportada facilmente durante o “rolê”.

Juntas, as bebidas criaram seu próprio nicho. Mesmo sofrendo certo preconceito, as bebidas não só tomaram as ruas e os ambientes universitários como também guinaram o setor. Aos poucos, não só o consumo aumentou como também a variedade de marcas e sabores das bebidas de baixo custo.

“Os movimentos hipster, LGBT e do funk impulsionaram muito a Catuaba Selvagem. A marca se transformou em algo não apenas encontrado nas periferias, mas também em bairros nobres de São Paulo”, diz Anna Speroni, gerente de marketing e eventos da Arbor, fabricante da bebida à base de vinho.

Para o presidente da Missiato, Paulo Missiato, a Corote Sabores deslanchou em grandes festas universitárias do interior do estado de São Paulo (Tusca e InterUnesp) e grandes festas de carnaval. “Vimos uma grande oportunidade voltada ao público universitário, pois além de fazer muitas festas, esse público busca produtos mais acessíveis”, diz Paulo.

As empresas criaram estratégias de marketing que falam diretamente com consumidores hiperconectados. Para o especialista em comportamento jovem, Rony Rodrigues, os millennials querem consumir experiências — como festas e viagens. “Com um maior investimento voltado para a experiência — gastos com ingresso, locomoção, etc — o jovem começou a ter que fazer escolhas. E uma escolha foi, de fato, optar por bebidas mais baratas”. A Catuaba Selvagem foi um dos propulsores deste mercado de bebidas prontas e baratas, com teor alcoólico em torno de 14%, ou seja, quase 3 vezes maior que a cerveja.

Para analistas, a tendência era que o mercado pendesse para produtos premium. Segundo uma pesquisa divulgada pela Mintel, 57% dos brasileiros preferem beber pequenas quantidades de cerveja de melhor qualidade. Mas a crise dos últimos anos mudou o roteiro. Casos peculiares como o da Catuaba mostraram que os jovens acabam se conectando com marcas menores. “O jovem olha essas empresas menores e acha verdadeiro, humano, e acaba simpatizando com a marca”, afirma Rony.

O Carnaval deve impulsionar essas marcas, ou abrir espaço para novatas que tentem roubar o nicho das novatas de anos atrás. Para manter seu público, a Catuaba Selvagem inaugurou a “Casa Selvagem”, em um dos mais famosos bairros do Carnaval de São Paulo, a Vila Madalena. “Sempre apoiamos grandes blocos tradicionais de Carnaval de rua em São Paulo. Mas nosso apoio tem que ir além do tradicional. A gente tem que gerar experiências reais, experiências essas que possam ser reverberadas nas redes sociais também”, afirma Anna.

Casa Selvagem, em São Paulo Casa Selvagem, em São Paulo

Casa Selvagem, em São Paulo (Arbor/Divulgação)

Mas, e o litrão? 

Apesar do avanço de Catuabas e Corotes, não se engane: a cerveja ainda reina no carnaval. Segundo um estudo da Euromonitor, a cerveja é, de longe, a bebida mais consumida no Brasil. Acontece que, para as grandes fabricantes, perder o ar “cool” com o público jovem em momentos de festa é um problema potencial para o longo prazo.

Quando as bebidas “ice” — de baixo teor alcoólico — foram lançadas na Europa, elas correspondiam apenas a 1% do mercado de cerveja. Desde então, vêm ganhando espaço, embora a cerveja ainda tenha seus ambientes sagrados. “Você não vai ver um jovem sentando em um bar pedindo uma Catuaba para ficar conversando. A bebida para fazer isso é a cerveja”, diz Adalberto Viviani, consultor especializado no mercado de bebidas.  

Mesmo invadindo o carnaval, as novatas ainda têm desafios pela frente. Atingindo pessoas de diferentes idades, hábitos e renda, especialistas têm dificuldade de classificá-las — seja pelo boom recente ou até mesmo por preconceito — e faltam explicações para seu sucesso. Mas as empresas parecem não se preocupar com a supremacia da cerveja, crescendo junto ao número de fiéis e transcendendo a uma simples moda de Carnaval.