Da China aos EUA: como os tênis da Nike desagradaram aos dois lados

Após tênis na China ser retirado de circulação por designer apoiar protestos em Hong Kong, Nike é criticada nos EUA por cancelar tênis sobre independência

Na guerra comercial entre China e Estados Unidos, a empresa de artigos esportivos Nike conseguiu desagradar aos dois lados. Depois de um tênis da marca lançado na China ser tirado de circulação no mês passado (por ter sido feito em parceria com uma empresa japonesa cujo principal designer fez um tuíte favorável aos protestos de Hong Kong), a Nike enfrenta agora uma briga com figuras do governo do presidente Donald Trump.

A empresa anunciou na terça-feira, 2, que suspendeu o lançamento de um tênis comemorativo feito para celebrar a independência dos Estados Unidos, que aconteceu em 1776 e é comemorada todo dia 4 de julho.

A peça foi considerada ofensiva por usar um desenho antigo da bandeira americana, que rememora tempos em que a escravidão era permitida no país.

O tênis traz a bandeira americana do século 18, que foi usada entre 1777 (um ano depois da independência) e 1795. A escravidão só seria abolida nos Estados Unidos em 1865.

A decisão da Nike de abolir o modelo veio após reclamação do ex-jogador da liga de futebol americano do país (a NFL), Colin Kaepernick, que atua como um consultor independente para a Nike. Outras pessoas também expressaram preocupação com a mensagem que poderia ser passada pelo tênis, segundo a imprensa americana.

Kaepernick ficou famoso em 2016, quando durante a execução do hino nacional americano nos jogos da NFL, ajoelhava ou ficava ao lado do campo, sem cantar. Ele explicou que o ato era um protesto contra a violência contra a população negra nos Estados Unidos.

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O tênis com a antiga bandeira americana — chamada de “Betsy Ross”, por ter sido desenhada por Elizabeth Griscom Ross após a independência — já havia sido entregue a alguns varejistas.

Segundo o jornal The Wall Street Journal, o tênis deveria começar a ser vendido na segunda-feira, 1, por 140 dólares. A Nike pediu que os comerciantes devolvessem o produto.

“A Nike tomou a decisão de parar a distribuição do Air Max 1 Quick Strike Quatro de Julho baseada em preocupações de que ele poderia, de forma não intencional, ofender e desvirtuar o feriado patriótico nacional”, disse a empresa em nota à rede de televisão americana CNN, afirmando também que “a Nike é uma empresa que se orgulha de sua herança americana”.

Repercussão

O caso fez o governador republicano do Arizona, Doug Ducey, afirmar que vai retirar 1 milhão de dólares em incentivos fiscais oferecidos à Nike para que a empresa construísse uma fábrica no estado.

Em seu perfil no Twitter, Ducey escreveu que está “envergonhado” pela empresa e que “palavras não podem expressar meu desapontamento com essa decisão terrível”. “A economia do Arizona está indo muito bem sem a Nike. Não precisamos bajular empresas que conscientemente denegrem a história da nossa nação”, escreveu.

Já a prefeita Georgia Lord, mandatária da cidade de Goodyear, no Arizona, onde a fábrica seria construída, afirmou que a Câmara da cidade passou um pacote de incentivos para que a Nike continuasse considerando o local para sua fábrica. A prefeita afirmou que a fábrica traria 500 empregos e oportunidades de investimento para Goodyear.

Donald Trump Jr., filho do presidente americano, por sua vez, criticou a ação da Nike, publicando no Twitter a imagem de um tênis com a bandeira da União Soviética e afirmando que “se a Betsy Ross, a bandeira da Revolução Americana, é ofensiva demais para a Nike usar na celebração do 4 de Julho, talvez a Nike devesse usar isso… Parece mais de acordo com a visão deles”. O presidente Donald Trump não se pronunciou sobre o caso.

No passado, a Nike já havia sido criticada por setores conservadores ao contratar Kaepernick como estrela de uma ação celebrando o impossível. Uma das peças, com a foto do jogador, diz: “Acredite em algo, mesmo que isso signifique sacrificar tudo”.

O protesto do jogador na NFL foi seguido por outros jogadores e apoiado por ativistas, mas também foi criticado por conservadores, como o próprio presidente americano, Donald Trump, que o acusaram de antipatriotismo. Após aquela temporada, ele não encontrou um clube para jogar e está longe da NFL desde então. Até então, ele jogava pelo San Francisco 49ers, clube que defendeu desde 2011.

Polêmicas na China

Enquanto isso, na China, a Nike retirou de circulação no fim de junho uma linha de tênis feitos em parceria com a marca japonesa Undercover. O motivo é que o principal designer da nova linha compartilhou um post de cunho político no Instagram sobre as manifestações que têm varrido Hong Kong desde o início do mês contra uma proposta de lei que prevê a extradição de residentes da ilha para julgamento na China.

O profissional da Undercover declarou-se a favor dos opositores, com a mensagem “Nenhuma extradição para a China” acompanhada de uma foto dos protestos. A postagem, feita na página da marca, gerou controvérsia nas mídias sociais e atraiu reações dos consumidores chineses, o que obrigou o estúdio a apagar o post, chamando-o de “opinião individual”.

Após o episódio, a Nike removeu das lojas os produtos criados em parceria com a empresa japonesa. Ao jornal britânico Financial Times, um funcionário da Nike disse que a remoção foi feita com base nas “primeiras impressões dos consumidores chineses”, e não devido à polêmica com o designer.

A Nike tem na China uma peça importante para seu crescimento. As receitas no país tiveram alta de 22% no último trimestre, ante crescimento de 8% nos Estados Unidos. Além disso, 25% dos produtos da Nike são produzidos na China.

Os Estados Unidos, contudo, continuam sendo o principal mercado da empresa, com faturamento de 4,2 bilhões de dólares no período, ante 1,7 bilhão de dólares na China.