Saiba o que as empresas centenárias têm para te ensinar

Num mundo em constante mudança, essas organizações conseguiram se adaptar e antecipar tendências, escrevendo uma história que atravessa um século

Uma em cada quatro empresas abertas no Brasil fecha as portas depois de apenas dois anos de atividade, segundo um estudo do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) com companhias de todos os portes fundadas entre 2010 e 2012, período de crescimento do produto interno bruto (PIB) e da queda dos juros. Se passar dos 24 meses é um desafio até hoje, imagine sobreviver por um século.

Num mundo — e num país — em que mudança é a palavra de ordem, as organizações que atingiram a maturidade dos 100 anos, enfrentando crises, bonanças, guerras e revoluções (sociais e tecnológicas) com solidez, servem de inspiração para aquelas que estão no começo ou no meio dessa jornada.

O que essas centenárias têm em comum? “Manter a coerência entre o discurso e a prática”, diz Renato Bernhoeft, autor do livro Empresas Brasileiras Centenárias (Editora Agir) e dono da Höft, consultoria de gestão de negócios familiares, sucessão e transição de gerações. Fazer valer no dia a dia o que pregam a missão e os valores fixados na parede é o primeiro passo — e talvez o mais difícil. Outro especialmente importante nos dias de hoje é planejar e agir no longo prazo, além de saber diferenciar inovação de modismo.

Confira a seguir as lições de quem comanda algumas dessas longevas corporações: IBM, Sicredi, Bayer, Siemens, Basf e Bunge.

A LIÇÃO DA IBM

Ser capaz de se reinventar

A filial brasileira da gigante de computação cognitiva, inaugurada em 1917, foi a primeira fora dos Estados Unidos

Funcionário da IBM, no Rio de Janeiro, faz manutenção em um relógio de ponto fabricado pela empresa em 1957

Funcionário da IBM, no Rio de Janeiro, faz manutenção em um relógio de ponto fabricado pela empresa em 1957 (Divulgação/Divulgação)

“Toda grande tecnologia muda o perfil de uma sociedade. Investir em inovação apresenta seus riscos, já que tudo o que é novo causa estranhamento no começo. Quando trouxemos nosso primeiro computador para o país, em 1959, houve resistência e incredulidade de sucesso. Hoje, falamos em inteligência artificial para um cenário complexo, diversificado, com uma quantidade de dados que não temos capacidade de analisar. Então, obviamente temos de enfrentar questionamentos válidos por parte da população e das empresas. Mas, assim como fizemos antes, estamos constantemente nos reinventando. Para isso, é necessário sair da zona de conforto, o que por si só já é um grande desafio. Costumo dizer que conforto e crescimento não coexistem. Durante esse processo de transformação, lidamos com as mudanças culturais que ocorreram no país. Em 2004, por exemplo, a empresa adotou um programa que oferece aos casais homoafetivos o direito de incluir seu parceiro no plano de saúde, antes mesmo de a união estável homoafetiva ser reconhecida legalmente no Brasil. Hoje, a companhia já tem banheiros neutros para os funcionários. O segredo para ser uma companhia centenária e com uma mente jovem é manter-se firme num propósito e olhar sempre para o futuro.”

A LIÇÃO DA SICREDI

Criar um vínculo com a comunidade

A primeira cooperativa de crédito brasileira surgiu em 1902, no Rio Grande do Sul, com o nome de Caixa Rural. A marca Sicredi foi adotada em 1992

Primeira sede do Sicredi, no Rio Grande do Sul, inaugurada em 1902

Primeira sede do Sicredi, no Rio Grande do Sul, inaugurada em 1902 (Divulgação/Divulgação)

“Não nos distanciamos do ideal dos fundadores, que é o da ajuda mútua. A união em torno de uma causa é um norte claro para nossa atividade cooperativista. Crédito tem a ver com risco, por isso é preciso construir todo dia uma relação de confiança com nossos públicos e desenvolver neles o espírito de colaboração. Essa necessidade vai além de formar líderes aderentes a nossos valores e preparar sucessores que levem adiante nossa missão. Criamos vínculo com as comunidades para estimular nelas a mentalidade de fundador. Investimos em cursos, palestras e programas para jovens, estudantes, mulheres — não só para os associados mas também para familiares e interessados. Temos parcerias com escolas para desenvolver atividades de cooperação e cidadania. Fazemos reuniões dos dirigentes do Sicredi com sócios, abertas a não sócios, em todo o Brasil, para prestar contas, responder a perguntas, ouvir sugestões. Isso gera pertencimento, que não é apenas um valor exibido na parede: é uma das práticas que nos define.”

A LIÇÃO DA SIEMENS 

Atuar globalmente, valorizando a cultura local

Apesar de ter chegado ao Brasil em 1895 com representação própria, a companhia alemã de engenharia só se estabeleceu no país em 1905

Primeiro escritório da Siemens, no Rio de Janeiro, entre as avenidas Rio Branco e Presidente Vargas

Primeiro escritório da Siemens, no Rio de Janeiro, entre as avenidas Rio Branco e Presidente Vargas (Divulgação/Divulgação)

“O maior desafio de uma empresa centenária está em manter-se relevante. Para isso, é preciso antecipar as necessidades do mercado e incorporar a realidade local, estimulando o desenvolvimento de soluções próprias, quando necessário. A Siemens do Brasil é dirigida por brasileiros. Eu sou o quarto CEO brasileiro da empresa, e quase a totalidade de nossa diretoria é composta de profissionais nascidos aqui. Somos uma empresa brasileira que faz parte de um conglomerado de origem alemã, mas, acima de tudo, global. E isso nos beneficia muito, especialmente pelo conhecimento tecnológico. Um fator importante aqui na Siemens é a inserção de nossos funcionários na cadeia global da companhia. Temos mantido uma média histórica anual de pelo menos 60 brasileiros trabalhando em projetos internacionais ou em delegações em países como Alemanha, Estados Unidos, Reino Unido, Emirados Árabes e China. E também trazemos colegas dessas localidades para cá. Atualmente, temos cerca de 20 estrangeiros atuando no Brasil. A troca de experiências e a transferência de conhecimento são importantes, inclusive, para manter nossa capacidade de inovação alta.”

A LIÇÃO DA BAYER

Diversificar sem perder o foco

As operações da empresa química alemã chegaram ao Brasil em 1896. Em 1911, ganharam sede própria

Carro usado pelos funcionários da Bayer no Brasil na década de 1930

Carro usado pelos funcionários da Bayer no Brasil na década de 1930 (Divulgação/Divulgação)

“A Walty Lindt & Cia foi a primeira representante dos produtos Bayer a chegar ao Brasil, em 1896, apenas sete anos depois da Proclamação da República. O país foi um dos dez primeiros mercados em que a Bayer passou a atuar fora da Alemanha. Naquela época, o foco da companhia era o corante para tecidos e couro, mas logo em seguida, em 1899, a Bayer registrou a patente da Aspirina, que se tornaria a marca de analgésico mais conhecida e consumida no mundo. A companhia sempre se destacou por sua presença em diferentes mercados: químico, com poliuretano e policarbonato; saúde humana, com medicamentos de prescrição e não prescrição médica; saúde animal e agrícola. Mas o foco foi sempre o mesmo: dar uma vida melhor às pessoas, às plantas e aos animais. Segundo o IBGE, na década de 40, o brasileiro tinha uma expectativa de vida de 43 anos. Hoje, a média é de 75 — no Sudeste, é ainda mais elevada. A população está vivendo mais. E nós trabalhamos para tornar essa jornada melhor.”

A LIÇÃO DA BUNGUE

Ser ágil para atender às demandas

A companhia holandesa de agronegócio chegou ao Brasil em 1905, com investimento inicial no mercado de moagem de trigo

Inauguração de uma das seções do Moinho Santos (antiga Bunge), no Porto
de Santos, em 1931

Inauguração de uma das seções do Moinho Santos (antiga Bunge), no Porto
de Santos, em 1931 (Divulgação/Divulgação)

Na época em que começamos, tivemos a maior onda de imigração europeia da história brasileira, que afetou não só a oferta de mão de obra como também os hábitos alimentares. Em 1929, quando lançamos o óleo Salada, o primeiro óleo vegetal comestível do país, eram usados, essencialmente, banha de porco ou, raramente, os importados e caros azeites de oliva. Na década de 90, o Brasil passou por um programa de abertura da economia e eliminou, de uma só vez, parte das tarifas aduaneiras. Com isso, as empresas e os produtores rurais viram-se obrigados a competir com concorrentes internacionais com altos índices de produtividade. Para sobreviver a esse ambiente, passamos por um reposicionamento radical: nos desfizemos de ativos alheios a nosso foco e adquirimos outros que nos fortaleceram, integrando nossa cadeia produtiva e o modelo operacional. Ainda na década de 90, Soya foi o primeiro óleo a migrar das latas de metal para garrafas PET. As pessoas têm acesso a uma crescente e gigantesca quantidade de informações sobre produtos e serviços, e as organizações precisam ser cada vez mais ágeis para atender às novas demandas.”

A LIÇÃO DA BASF

Prever e criar o futuro

As operações da química alemã começaram em 1911 no Rio de Janeiro. Em 1959, veio a primeira fábrica, em São Paulo

Primeira fábrica da Basf, em Guaratinguetá, no interior de São Paulo

Primeira fábrica da Basf, em Guaratinguetá, no interior de São Paulo (Divulgação/Divulgação)

“A o longo do último século, a indústria, de modo geral,  tornou-se mais digital e inovadora. Além de modernizar as fábricas e os laboratórios, a Basf investiu — e continua investindo — em soluções que vão atender às demandas da sociedade do futuro. Os processos de cocriação que desenvolvemos com parceiros, as parcerias com universidades e o apoio às startups ajudaram a companhia a se manter inovadora. Outro movimento significativo nestes 100 anos foi a busca pela sustentabilidade. Nas últimas décadas, o tema ganhou cada vez mais espaço, influenciando os cidadãos, as empresas e a legislação. As pessoas estão consumindo de forma mais responsável e cobram isso dos fabricantes. Existem muitos fatores que vão influenciar as próximas mudanças, como a economia e a tecnologia. Corporações que permanecem bem-sucedidas e relevantes ao longo de décadas, e até séculos, são as que entendem que prever o futuro é criá-lo.”

5 SEGREDOS DAS LONGEVAS

Boa parte das empresas conhece o discurso do sucesso, mas nem todas praticam estas atitudes que estão no DNA das centenárias

  Manter-se fiel à vocação de origem

Um dos equívocos das companhias é envolver-se em atividades que não dominam. Cada negócio tem sua peculiaridade e é preciso saber diversificar sem desprezar as origens.

Ter visão de longo prazo

Não basta planejar os anos seguintes. É preciso evitar medidas de curto prazo, como os cortes abruptos e o forte compromisso com resultados vinculados a bonificações.

Preservar a própria história

num país de memória curta e mercado desafiador, como o Brasil, valorizar os passos que conduziram a companhia ao presente serve de inspiração e transmite solidez e coerência entre o discurso e a prática.

  Comprometer-se com a comunidade

As centenárias retribuem parte do que recebem com ações sociais e ambientais sólidas. Essa prática aumenta o engajamento dos funcionários, cria vínculo com o público externo e fortalece a imagem da empresa.

  Estar atenta à inovação, não aos modismos

Mirar o futuro e antecipar tendências exige conhecer intimamente os consumidores e clientes. Para isso, mais importante do que o olhar global é ter sensibilidade para entender — e atender — os anseios dos brasileiros.

Fonte: Renato Bernhoeft, da Höft Consultoria.


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