Como os bancos brasileiros crescem no exterior

Instituições financeiras do país estão de olho nos três milhões de brasileiros que moram fora do Brasil

São Paulo – A aquisição do norte-americano Eurobank pelo Banco do Brasil (BB), anunciada há algumas semanas, é uma amostra da investida dos bancos brasileiros no exterior. O BB havia anunciado sua primeira aquisição em 2010, relativa a uma fatia do Patagônia e, agora, planeja investir também em outros países da América do Sul, África e Ásia. O Bradesco e Itaú não ficam atrás e já fizeram suas compras lá fora.

A estratégia dos bancos brasileiros de se internacionalizarem está atrelada a um movimento comum das empresas brasileiras e tem se intensificado nos últimos quatro anos, segundo Sherban Leonardo Cretoiu, professor do núcleo de negócios internacionais da Fundação Dom Cabral.

A observação pelos bancos nacionais de que algumas instituições estrangeiras começam a ser players relevantes em certos mercados – e também começaram a desembarcar no Brasil – é outro propulsor desse movimento. “Os bancos brasileiros olham e pensam que precisam dar um passo nessa direção”, disse Celso Cláudio de Hildebrand e Grisi, o professor do curso de administração da FEA.

Há casos, no entanto, em que o banco precisa explorar outros mercados, porque, no Brasil, as possibilidades de crescimento, via fusões e aquisições, se esgotaram. O Itaú Unibanco é um exemplo. Após a fusão com o Unibanco, em 2008, a instituição percebeu que as chances de expandir no país ficaram menores e as oportunidades lá fora mais atraentes.

Varejo

Segundo Admilson Monteiro Garcia, diretor da área internacional do Banco do Brasil, três vetores empurram os bancos para o exterior: a concentração de empresas brasileiras, a concentração de brasileiros e o fluxo de comércio entre os países.

O Banco do Brasil, por exemplo, vai transformar seu escritório em Xangai, em uma agência bancária. Para esse ano, o diretor também espera uma atuação mais forte do BB no Chile – paralelamente à aquisição do norte-americano Eurobank, o BB já negociava com uma instituição daquele país.


Buscar o público brasileiro no exterior significa ir atrás de, aproximadamente, três milhões de brasileiros que residem fora de sua terra natal, segundo dados de 2008 do Ministério das Relações Exteriores. Desse total, 1,28 milhão está nos EUA (a maior parte em NY, Boston e Miami), 300 mil no Paraguai e 280 mil no Japão.

“Há mais brasileiros no exterior e em melhor situação de renda”, disse Paulo Di Blasi, professor de finanças internacionais, finanças corporativas e mercado de derivativos do Ibmec/Rio de Janeiro.Essas pessoas acabam atraindo a atenção dos bancos.

O banco brasileiro mais próximo do ponto final do caminho no exterior – a atuação no varejo – é o Itaú, segundo especialistas. “O mais próximo disso é o Itaú que já tem posição de varejo na Argentina e no Chile, com menor dificuldade para ampliar sua posição de varejo em outros países”, diz Grisi.

Mas não são todos os bancos que estão de olho no potencial do varejo lá fora. O Bradesco tem como decisão estratégica a não internacionalização da operação de varejo. “Achamos que nessa atividade a maior oportunidade está no Brasil onde há o maior retorno sobre investimento”, afirmou Norberto Pinto Barbedo, vice presidente do Bradesco.

Desafios

O processo de internacionalização, de forma geral, impõe desafios organizacionais significativos, principalmente nas aquisições, quando a empresa passa a atuar em um país de cultura diferente e sindicatos de trabalhadores diferentes.

“É mais caro ter um banco lá fora, é de risco e também envolve investimentos que não são desprezíveis em tecnologia, por exemplo”, diz Grisi. Uma vantagem de entrar em outro país através de aquisições é herdar os clientes da antiga operação.

A maior dificuldade de operar no exterior, segundo Norberto Pinto Barbedo, vice presidente do Bradesco, está em identificar os setores econômicos locais que mais devem se desenvolver. “O maior desafio é conhecer as tendências econômicas locais”, diz. 

Ajuda da crise

A crise econômica de 2008 favoreceu o movimento dos bancos brasileiros, segundo alguns especialistas.  “As instituições financeiras dos EUA e da Europa saíram combalidas da crise (de 2008). Os bancos brasileiros continuaram sólidos e agora estão aproveitando para ocupar espaço no mercado externo”, diz Di Blasi.


“A crise de 2008 para nós foi uma belíssima oportunidade. Fizemos quatro aquisições no Brasil e partimos para aquisições no exterior”, diz Garcia, diretor da área internacional do Banco do Brasil.

Já para Grisi, a crise de 2008 não estimulou nem desestimulou, mas barateou alguns ativos. “O dólar está muito barato, é hora de comprar”, disse.

O Bradesco avalia que a crise de 2008 em si não foi importante para a decisão estratégica de internacionalização do banco.  Segundo Norberto, o que colaborou foi o incremento da internacionalização das empresas brasileiras a partir do momento de crescimento do país.

Estratégias de cada banco

O Banco do Brasil abriu sua primeira unidade no exterior em 1941. Nos anos 90, começou a atuar no varejo no Japão, para atender brasileiros. A partir dos anos 2000, percebeu um incremento da internacionalização das empresas brasileiras, e então revisou novamente sua atuação.

No começo de 2011, o banco comprou o norte-americano Eurobank. O banco planeja investir 25 milhões de dólares nos próximos três anos nos EUA  e, até 2015, inaugurar 20 agências nos país.

O Itaú Unibanco iniciou sua internacionalização em 1980, com a inauguração de sua primeira agência fora do Brasil, em Nova York. O banco incorporou ao Itaú Argentina o Banco Del Buen Ayre em 1998 e em 2006 comprou o Bank Boston – movimento que é considerado por Grisi, como o início da nova fase de aquisições no setor.

O Bradesco desembarcou no exterior em 1981, em Nova York, com o intuito de se dedicar ao trade finance. E, em 2009, comprou o banco Ibi Brasil. Com a operação, ele incorporou uma unidade do Ibi México, voltada para o cartão de crédito e que tem convênio com a C&A.