Como a defesa de Carlos Ghosn busca provar sua inocência

São Paulo – Em sua primeira audiência desde a prisão, o ex-presidente da Nissan, Carlos Ghosn, reafirmou sua inocência e expôs as bases de sua defesa. A audiência marcou a primeira aparição pública do executivo desde que ele foi detido há algumas semanas, por suspeitas de violações financeiras e de ter usado bens da montadora em benefício próprio.

No início da sessão, Ghosn apresentou um comunicado em que nega as irregularidades e se diz inocente. “Eu fui acusado erroneamente e fui injustamente detido com base em alegações sem mérito e sem substância”, diz o texto. De acordo com seu advogado de defesa, Motonari Otsuru, “acreditamos que não há evidências de crime”.

Investigações internas da Nissan revelaram que o cenário não é tão positivo para o executivo, até então visto como uma das grandes lideranças do setor. Ele é acusado de deixar de declarar, nas demonstrações financeiras da Nissan, dezenas de milhões de dólares em pagamentos. Os promotores também acusam Ghosn de se aproveitar de sua posição para conseguir ganhos pessoais.

O advogado pediu esclarecimentos sobre a razão da prisão de Ghosn. De acordo com a corte, há riscos de que o executivo destrua evidências ou tente uma fuga.

Em sua defesa, o executivo e seu advogado rebateram acusações de ganho pessoal e fraudes financeiras. O executivo é acusado de ter transferido para as contas da empresa uma perda pessoal em investimentos, de cerca de 16,5 milhões de dólares, durante a crise financeira de 2008.

De acordo com a defesa, seu contrato o protegia de flutuações do dólar perante o iene, que permitiria tal transferência. A defesa afirma que, no contrato entre o executivo, a Nissan e o banco, haveria uma cláusula que determinava que qualquer perda seria paga por Ghosn.

Os procuradores acusam o executivo de ter pago 14,7 milhões de dólares, a partir da Nissan, ao empresário saudita Khaled Al Juffali, para o ajudar a sair de dificuldades financeiras. Ele é vice-presidente de um dos maiores conglomerados sauditas, o E.A. Juffali and Brothers, e também membro do conselho da Autoridade Monetária da Arábia Saudita. Também controla a empresa Al-Dahana, que detém metade de uma joint venture local chamada Nissan Gulf. A outra metade é controlada por uma unidade da Nissan.

O advogado confirmou que Juffali ofereceu bilhões de ienes em crédito a Ghosn. Mas negou que os pagamentos ao saudita, feitos pela Nissan, tenham sido por esse motivo. O valor seria relativo à ajuda de Juffali aos negócios da Nissan na região.

A acusação mais grave é a de que Ghosn teria subestimado o pagamento que recebia da Nissan nos balanços da empresa e, assim, deixado de declarar o recebimento de cerca de 44 milhões de dólares nos últimos anos.

Segundo Ghosn, o alto valor que está registrado como tendo sido pago a ele era apenas hipotético. Era visto como uma “compensação de mercado”, mas que a montadora não era obrigada a pagá-lo o valor especificado.

Ainda há muito a ser esclarecido nesse caso. O julgamento deverá demorar mais seis meses, de acordo com o advogado, por conta da montanha de documentos que precisa ser analisada e traduzida para o japonês.

De herói a vilão

O executivo foi preso logo ao desembarcar de um avião no aeroporto de Tóquio, no dia 19 de novembro. Até então, o brasileiro Ghosn era visto como um herói da indústria automotiva, por unir, há quase 20 anos, a montadora francesa Renault e a japonesa Nissan, salvando ambas de dificuldades financeiras.

Ghosn nasceu no Brasil mas ficou pouco tempo no país. Ele é descendente de libaneses e cidadão francês.

O executivo chegou à companhia em 1999 e criou uma aliança com a montadora francesa Renault que ajudou a companhia a virar a página. Depois a aliança incluiu também a Mitsubishi.

Juntas, se tornaram uma das alianças mais importantes da autoindústria. Antes de ser preso, exercia cargos importantes nas duas empresas, mas foi logo destituído das funções.