Com o JP Morgan, Bradesco se torna o maior gestor de recursos privados

O banco de investimentos americano JP Morgan anunciou na manhã desta terça-feira a venda da sua empresa de administração de recursos para o Bradesco, por um valor não revelado. A Bradesco Asset Management, empresa de gestão de recursos do Bradesco, vai assumir 7 bilhões de reais em ativos geridos pelo JP Morgan. É a segunda aquisição que o Bradesco faz este mês. No dia 13, o banco já havia anunciado a compra do BBV Banco por 2,63 bilhões de reais em dinheiro e ações.

A compra da área de administração de ativos do JP Morgan torna o Bradesco o maior gestor de recursos privados do Brasil, com 60 bilhões de reais em ativos sob sua responsabilidade. Para o banco de Osasco, a principal vantagem na aquisição é conseguir uma das melhores carteiras de clientes institucionais do país. O JP Morgan sempre teve atuação destacada como administrador de recursos de fundos de pensão fechados. Seus fundos também recebem uma boa quantia de recursos de investidores pessoa física de alta renda, que são clientes de private banks.

Em comunicado, o JP Morgan informou que o negócio deverá ser concluído em 60 dias. A venda das atividades de gestão de recursos faz parte de uma decisão estratégica do banco de se concentrar em áreas como banco de investimento, emissão de papéis de empresas e private banking.

Negociações
A venda da empresa de gestão do JP Morgan é apenas mais uma de uma lista já longa. A maior parte das empresas estrangeiras vendeu ou simplesmente fechou suas divisões de administração de recursos nos últimos dois anos. O maior movimento ocorreu em meados de 2001, quando o Lloyds Bank vendeu sua empresa para o Banco Itaú. Posteriormente, bancos internacionais de primeira linha como Deutsche Bank e Dresdner Bank passaram suas gestoras adiante. O primeiro, também para o Bradesco; e o segundo, para o ABN Amro, depois que seus fundos de renda fixa perderam 5% do patrimônio devido à inadimplência da Companhia Elétrica do Maranhão (Cemar).

O Bank of America anunciou nesta terça-feira (28/1) que está reestruturando suas operações no Brasil e na Argentina e vai centralizar suas atividades nos dois países no negócio de títulos do governo. Com isso, devem ser eliminados cerca de 200 postos de trabalho.

A companhia vinha perdendo recursos e clientes desde que o mais conhecido de seus fundos, o Bank of America High Yield, apresentou perdas em junho passado. O banco indenizou parcialmente os clientes, mas toda a tensão afetou a confiança do mercado. O Bank of America também vem sofrendo com maus investimentos e com a disputa judicial entre os sócios americanos e os antigos controladores brasileiros.

O JP Morgan já vinha discutindo a venda de sua empresa de gestão de recursos há pelo menos dois anos, quando a atividade de administrar dinheiro de terceiros começou a apresentar uma alarmante queda de rentabilidade. As empresas iniciaram uma forte disputa por recursos com base nas taxas de administração cobradas dos clientes. Quem, como o JP Morgan, atuava mais perto dos investidores institucionais, sentiu mais de perto a queda de retorno. Esses investidores passaram a pagar taxas cada vez menores, tornando inviável manter uma atividade custosa e altamente especializada como a administração de recursos.

Segundo executivos do mercado, o JP Morgan pode ter vendido a empresa por algo entre 2% e 3% do valor total da carteira, percentual tradicional de negociação. “Como a superposição entre os dois bancos é pequena, o valor cresce para o Bradesco”, diz um executivo do setor que já participou de várias transações. Além do Bradesco, pelo menos outros dois bancos chegaram a conversar com o Morgan. Um deles, afirma um consultor, foi o Unibanco, que não chegou a apresentar proposta. Comenta-se também a participação, nos momentos finais da negociação, de outro participante nacional, mas sem sucesso.

Estratégia
A venda da empresa de gestão de recursos do JP Morgan vai ao encontro das decisões do banco de reduzir custos e aumentar a rentabilidade das operações no Brasil. O JP Morgan foi adquirido pelo Chase Manhattan Bank no auge da euforia com a internet. A estratégia do Chase, estabelecida antes da compra, era ser um dos bancos com maior participação em start-ups de internet, não apenas emprestando dinheiro como também investindo diretamente.

Essa estratégia revelou-se desastrosa quando a “bolha” da internet explodiu no ano 2000. Como resultado, as ações do novo banco, que chegaram a ser negociadas a 57 dólares na Bolsa de Nova York recuaram a um mínimo de 15 dólares. Hoje, os papéis estão cotados a 23,60 dólares. Além dos maus investimentos, o Chase revelou-se um mau emprestador. O banco emprestou cerca de 1 bilhão de dólares à finada Enron, dinheiro que teve de ser lançado nos livros como prejuízo com a concordata da empresa de energia texana. O banco também sofreu um baque com a investigação promovida pelas autoridades americanas em suas operações.

Todos esses maus negócios fizeram com que o JP Morgan Chase fosse malvisto pelos investidores. Não foi o único – suas ações caíram mais de 80% no pior momento, mas outros, como o Citi, viram seus papéis se desvalorizar 80%. No entanto, a menor capitalização do JP Morgan Chase tornou os analistas e investidores menos pacientes com os maus resultados e mais demandantes de medidas de contenção de gastos.

Esse cenário internacional negativo tornou o banco no Brasil mais propenso a aceitar ofertas de compra de ativos não estratégicos, caso da empresa de administração de recursos. O banco nega que esteja saindo do Brasil ou fechando as portas por aqui. Profissionais do mercado financeiro tendem a acreditar nisso.