Com brasileiro pedindo crédito, Santander está mais eficiente do que nunca

Banco lucrou quase 2 bilhões de reais no Brasil no primeiro trimestre, crescimento anual de 25,4%. O aumento de clientes, crédito e margens explica o número

São Paulo – A receita de bolo para o sucesso dos bancos tradicionais é conhecida: trazer novos clientes, oferecer mais crédito, gerenciar o spread, ganhar mais comissões e, por fim, saber controlar despesas e riscos.

Quem consegue equacionar esse “básico complexo” apresenta bons resultados e conquista o mercado – como é o caso do Santander hoje. O banco espanhol lucrou 2,054 bilhões de euros (na cotação atual, cerca de 8,7 bilhões de reais) no primeiro trimestre deste ano. O número é maior do que os 2,01 bilhões de euros esperados pelos analistas da Reuters e representa um crescimento de 10% sobre o primeiro trimestre de 2017.

O principal responsável por esse crescimento é um mercado geograficamente distante da sede da instituição financeira: o Brasil. Especialmente, os brasileiros que movimentam o mercado de crédito e trazem mais margens para o banco. O resultado é que, neste primeiro trimestre do ano, o Santander atingiu seu melhor nível de eficiência econômica por aqui.

Brasil, terra de crédito (e de spread)

O Brasil é o maior mercado do Santander, com participação de 27% nos resultados do banco. A terra natal, Espanha, está em segundo lugar de participação, com 18%.

O Santander Brasil lucrou 2,859 bilhões de reais no primeiro trimestre de 2018, um aumento de 25,4% sobre o mesmo período de 2017. Os lucros antes de impostos tiveram um crescimento de 36,3% e a receita aumentou 13,7% na mesma base de comparação.

A principal razão para a alta é a maior carteira de clientes ativos do Santander, que subiu 9%, para 22,2 milhões de pessoas. Hoje, o banco possui 4,6 milhões de clientes vinculados (aqueles que consideram o Santander como seu banco principal, com aumento de 25%) e 9,1 milhões de clientes digitais no Brasil (aumento de 33%).

“No sistema, mais de 60% das operações já são feitas através do mobile e da internet. Cada vez mais os clientes e os canais digitais serão importantes para as transações financeiras”, afirma Sérgio Rial, presidente do Santander Brasil.

Mais clientes geraram um maior número de transações. A captação total com clientes, incluindo aí os fundos de investimento, cresceu 11,2%, para cerca de 615 bilhões de reais. O destaque ficou com os depósitos à vista, que cresceram 13,3% no ano, e com a poupança, que cresceu 14,7% no mesmo período.

Outro grande motivo para o crescimento dos lucros do Santander Brasil é a retomada do crédito. A carteira total de empréstimos subiu 9% nos últimos 12 meses, atingindo 280,4 bilhões de reais. O Santander aumentou sua participação no mercado de crédito nacional de 7,9 para 9%. Para dar conta de tantos empréstimos e financiamentos, as provisões aumentaram 17,1% em relação ao primeiro trimestre de 2017.

A principal fonte do aumento do crédito está no varejo, especialmente para o financiamento do consumo (aumento de 21,9%, para 43,6 bilhões de reais) e para a pessoa física (aumento de 21%, para 113,7 bilhões de reais). Destacam-se linhas como consignado, crédito rural, cartão de crédito, crédito pessoal e financiamento de veículos. “O Santander cada vez mais se consolida como um grande player do setor de varejo, com o consumo sendo um grande pilar de nosso crescimento”, diz Rial.

Uma das apostas do Santander Brasil para o futuro é o crédito imobiliário, que cresceu 7,6% nos últimos doze meses dentro do banco. Por isso, a instituição irá reduzir a taxa do crédito para 8,99% ao ano até julho de 2018 e espera que isso incentive a portabilidade de créditos obtidos em outros bancos. Depois de julho, a incerteza trazida pelas eleições não permitirá manter esse desconto.

Ao mesmo tempo, o Santander Brasil também melhorou seus ganhos com crédito. A margem financeira bruta, índice que demonstra a rentabilidade das vendas, cresceu 14,6% em relação ao primeiro trimestre de 2017, com mais de 1 bilhão de reais de ampliação de margem.

Mesmo com a queda recente da taxa básica de juros, a Selic, o spread (diferença entre o que os bancos pagam na captação de recursos e o que eles cobram ao conceder um empréstimo para uma pessoa física ou jurídica) praticado pelo banco ficou em 10% neste primeiro trimestre de 2018, contra 8,9% no começo de 2017. As comissões aumentaram seu valor em 11,5% na mesma base de comparação, para 4,1 bilhões de reais.

Segundo Rial, o spread não acompanhou o movimento de queda da Selic porque ela, sozinha, não compõe o cálculo da diferença de juros. “A inadimplência, por exemplo, representa entre 40 a 50% desse cálculo. Outro grande percentual é composto por impostos, como a taxa sobre os lucros dos bancos, que é de 45% hoje. Esses custos administrativos também compõem o spread.”

O índice de inadimplência do Santander voltou aos patamares do primeiro trimestre de 2017, de 2,9%, após uma elevação no final do ano passado.

Segundo o presidente do Santander Brasil, uma discussão sobre a diminuição do spread passa pela educação financeira dos consumidores, reduzindo a inadimplência, e um cenário persistente de inflação e juros baixos – o que envolve decisões políticas. “Se não continuarmos a falar sobre as reformas que possibilitem o equilíbrio fiscal após as eleições de 2018, a discussão sobre diminuir o spread será improdutiva.”

Mais crédito e mais margem fizeram o Santander Brasil atingir seu melhor nível de eficiência econômica na história do banco, de 40%, menos 4,9% sobre o mesmo período de 2017. O cálculo é feito dividindo as despesas operacionais da instituição por sua receita bancária – quanto menor o número, melhor. O retorno sobre o patrimônio ficou em 19,1%, enquanto o valor visto há doze meses era de 12%.

Cenário global

Ao mesmo tempo que vê margens e comissões crescerem, o Santander enfrenta globalmente maiores despesas por conta dos investimentos em transformação comercial e digitalização. Segundo comunicado do banco espanhol publicado na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), as medidas de otimização ainda não refletem as sinergias propostas pelo banco e, por isso, o índice de eficiência global visto no primeiro trimestre deste ano ficou igual à média de 2017, de 47,4%.

Na sua maior atuação, que é a de banco comercial e de varejo, as despesas subiram 12,8% na comparação anual dos primeiros trimestres de 2017 e 2018. Mesmo assim, o lucro atribuível à área aumentou 21,8% no mesmo período de análise. Isso se traduziu em ganhos: nos últimos doze meses, a rentabilidade sobre o capital tangível do banco aumentou para 12,4%. De acordo com o Santander, o número é um dos melhores do setor.

Na assembleia de acionistas do último 23 de março, o Santander anunciou a intenção de aumentar o dividendo relativo a 2018 em 4,5%. A depender do otimismo de seus acionistas – as ações, ontem, fecharam com alta de 3,31% –, essa será mais uma projeção alcançada na coleção do banco espanhol.