Clube com 200 torcedores ganha US$ 14 mi com transferências

Deportivo Maldonado, do Uruguai, é usado por empresário para aliviar a carga fiscal aplicada a investidores que possuem direitos de transferência de jogadores

Madri/Montevideo – Um clube de futebol uruguaio administrado pelo proprietário de um cavalo de corrida do Reino Unido tem uma atividade secundária incomum: negociar jogadores sul-americanos de elite que nunca jogaram uma partida com suas cores.

O Deportivo Maldonado SAD, que está na segunda divisão do campeonato nacional do Uruguai, foi criado em 2010 quando Malcolm Caine e o advogado de Londres Graham Shear se tornaram presidente e vice-presidente, segundo documentos do registro da empresa obtidos pela Bloomberg News em Montevidéu. Antes disso, e desde 1928, o Deportivo Maldonado operava como um clube de sócios.

Encaminhar transferências pelo Uruguai pode aliviar a carga fiscal aplicada a investidores que possuem direitos de transferência de jogadores, o que é comum na América do Sul, segundo Ariel Reck, advogado de Buenos Aires que trabalha em negócios de transferência. A Fifa, órgão que regula o futebol, permite que os jogadores sejam registrados em até três clubes por temporada e joguem por até dois, disse Reck.

“Claro, essa não é a ideia da Fifa, mas é muito difícil” fazer a distinção entre os motivos esportivos e os financeiros, disse Reck, por telefone.

No que chamou de um movimento inédito, a Fifa, com sede em Zurique, multou quatro clubes argentinos em valores entre 15.000 francos suíços (US$ 17.160) e 50.000 francos suíços por negociar seis jogadores por meio da Institución Atlética Sud América, do Uruguai, por “motivos que não tinham natureza esportiva”.

Caine, que é um dos donos do cavalo Curbyourenthusiasm em conjunto com o agente de jogadores de futebol Jonathan Barnett, disse em um e-mail que o Deportivo Maldonado opera “exatamente da mesma forma que qualquer clube de futebol dirigido profissionalmente” e que suas negociações são aprovadas pela Fifa e pela federação de futebol do Uruguai.

Administrado profissionalmente

Diferentemente de alguns outros clubes, o Deportivo Maldonado “paga seus jogadores em consonância com suas obrigações contratuais e contabiliza e paga a totalidade dos impostos e demais exigências estatutárias”, disse Caine.

O Deportivo Maldonado lucrou 10,1 milhões de euros (US$ 14 milhões) desde 2011 negociando o brasileiro Alex Sandro com o Porto e emprestando o paraguaio Marcelo Estigarribia à Juventus, segundo documentos regulatórios. Em janeiro, o clube emprestou outro brasileiro, Willian José da Silva, ao Real Madrid. Não há registro de atuações dos três jogadores pelo Deportivo Maldonado, que na última temporada teve uma média de 208 torcedores em seus jogos em casa, segundo dados do site de futebol transfermarkt.com.


A receita com negociações de jogadores do Deportivo Maldonado é aproximadamente o dobro da média das equipes da primeira divisão do Uruguai no mesmo período, mostram dados do transfermarkt.com.

Caine não respondeu diretamente a perguntas enviadas por e-mail a respeito de Alex Sandro, Estigarribia e Willian José terem sido negociados sem nunca terem jogado pelo Deportivo Maldonado, e não respondeu aos telefonemas realizados em busca de mais informações.

Sem lucros

Ele disse, em outro e-mail, que seu grupo está ajudando a desenvolver o Deportivo Maldonado como clube e que ainda não obteve lucro com seu investimento.

“Nosso investimento inclui infraestrutura, gestão, conhecimentos técnicos, médicos e instalações, além de formação, treinamento e transferência de jogadores”, disse Caine.

Shear, advogado da Berwin Leighton Paisner em Londres, não respondeu a dois e-mails e dois telefonemas em busca de comentário.

Jogador do Real

Em uma de suas últimas negociações, o Deportivo Maldonado emprestou Willian José ao Real Madri. Willian José não vestiu a camisa do Deportivo Maldonado e jogou pela última vez pelo Santos, disse seu agente, Nick Arcuri, por telefone. O Santos está entre os maiores clubes da primeira divisão do Brasil. O Real Madri negociou o empréstimo com os investidores ingleses do Maldonado, disse Arcuri, que não quis revelar os detalhes do acordo de seu cliente com eles.

Em um esforço para interromper as transferências via Uruguai, no ano passado o governo aumentou a carga tributária sobre negociações de jogadores de 4 para 12,5 por cento, disse Fernando Sobral, tesoureiro da federação de futebol uruguaia, por telefone. Contudo, os investidores não pagam impostos sobre os ganhos de capital se encaminharem a renda para o exterior por meio de uma empresa uruguaia, disse Reck, acrescentando que pagaria uma taxa de 35 por cento na Argentina.

“Eu não sei se a Fifa tem o apetite para interromper” essas transações, disse Reck. “Se é difícil para o FBI seguir o dinheiro por aí, imagina quão difícil é para a Fifa”.