Clima de fim de festa na Smiles, uma campeã de lucro

Empresa de fidelidade deve voltar a apresentar bons números. Mas reincorporação pela Gol pesa no pessimismo

Para os acionistas da Smiles, administradora do programa de fidelidade da companhia aérea Gol, os dias de divulgação de resultados trimestrais sempre foram de alegria. Até agora. Como a Gol inesperadamente anunciou há duas semanas que vai reincorporar a Smiles, comprando a participação de 47% que ainda não detém na empresa e fechando o seu capital, o balanço do terceiro trimestre de 2018 da plataforma de recompensas – a ser divulgado após o fechamento da bolsa nesta terça-feira – deve ter um sabor de fim de festa para os investidores. Principalmente caso se confirme a expectativa média de mercado de um aumento nos lucros de 22% ante o período de julho a setembro de 2017, para 414 milhões de reais, e de 34% nas receitas, para 591 milhões de reais.

Desde o lançamento de ações na B3, em 2013, os lucros da Smiles cresceram 266%, totalizando 760 milhões de reais em 2017. Em cinco anos, foram pagos 2,8 bilhões de reais em dividendos. A companhia sempre foi uma das queridinhas do mercado acionário brasileiro pelo elevado retorno proporcionado, e prometia entregar resultados ainda melhores conforme o projeto de se tornar um marketplace de turismo e lazer se concretizassem, ao longo dos próximos anos. Mas a Gol, lutando para ficar no azul em meio aos ciclos de sobe-e-desce da moeda americana ante o real e o petróleo, preferiu ficar com todos os ganhos para si. “A empresa aérea não vai se beneficiar apenas de maior flexibilidade na relação com a Smiles, mas também de sinergias fiscais de cerca de 1,5 bilhão de reais”, Samuel Alves e Renato Mimica, analistas do banco de investimentos BTG Pactual, escreveram em relatório a clientes.

Aos minoritários, muito prejudicados com a decisão da Gol, resta esperar os detalhes da transação. Em 15 de outubro, dia seguinte à divulgação do plano, o valor de mercado da Smiles despencou quase 40% na B3, para 4,2 bilhões de reais, porque a companhia aérea não informou quanto pretende pagar pela fatia dos minoritários, em uma operação que deve envolver ações da própria Gol. “Pelas nossas contas, em uma troca de ações o investidor da Smiles poderia receber entre duas e três ações da companhia aérea”, Victor Mizusaki e Raphael Frankel, analistas do Banco Bradesco, escreveram em relatório a clientes.

O papel da Gol fechou a segunda-feira cotado a 17,03 reais, cerca de metade do preço, ontem, da ação da Smiles, a qual estava na casa de 52 reais até 14 de outubro. Em 15 dias, a administradora do programa de fidelidade recuperou 11% do seu valor, porém as dúvidas permanecem. Comentários feitos no momento do anúncio da reincorporação pelo diretor financeiro da controladora, Richard Lark, de que a Smiles estava superavaliada têm que ser esclarecidos.

A conferência por telefone de investidores e analistas com a administração da companhia, amanhã de manhã, deve ser a grande oportunidade para os acionistas entenderem um pouco mais sobre as intenções da controladora para a plataforma. Por exemplo, se a Smiles vai ter espaço para seguir expandindo sua atuação, desenvolvendo novos negócios a partir da sua base de dados de 15 milhões de clientes, ou se terá que ficar focada no programa de milhagem apenas. Os minoritários também precisam estudar se querem continuar sendo sócios da Gol depois dessa surpresa desagradável.