Santander pode ser o mais prejudicado com nova poupança

Segundo estudo do Credit Suisse, Santander perderia até 5,5% da receita com Selic a 7,5% ao ano; na média, bancos seriam impactados em 3,3%

São Paulo – A mudança na política de remuneração da poupança anunciada ontem pelo ministro da Fazenda Guido Mantega mexe com as regras de um jogo que mantinha-se inalterado desde 1861. E a receita dos grandes bancos não deve escapar ilesa: se a Selic cair para 7,5% ao ano – um ponto percentual abaixo do piso que aciona o novo retorno da caderneta – o lucro dos grandes bancos será afetado em 3,3% em um ano.

Pelo menos é o que acredita o Credit Suisse, em relatório assinado pelos analistas Marcelo Telles, Daniel Sasson e Victor Schabbel. De imediato, as instituições perderiam com os seus investimentos atrelados à Selic. “O excesso de liquidez é a posição dos bancos que é remunerada conforme a taxa básica. Se ela cai, diminui também a expectativa de lucro com esses recursos”, afirma Victor Schabbel.

A nova regra da poupança faria o faturamento das instituições sangrar por outro flanco. A partir desta sexta, a caderneta renderá 70% da Selic acrescida da variação da TR quando a taxa básica de juros for ajustada para menos de 8,5% ao ano – hoje, ela está em 9%.

Com a mudança, que vale apenas para os novos depósitos, o governo impede a massiva migração dos recursos investidos em títulos públicos – os financiadores da sua dívida – para a tradicional aplicação: em um cenário de juros cada vez mais baixos, a poupança, que é livre de imposto de renda, se tornaria mais rentável que fundos de renda fixa que sofrem incidência tributária e ainda cobram taxas de administração.

A princípio, os bancos até sairiam ganhando, já que precisariam desembolsar menos dinheiro para remunerar os titulares da poupança. Mas segundo o Credit Suisse, o benefício só se tornaria realidade em um prazo mais estendido. O governo estima que, em média, 20% dos recursos da poupança sejam retirados e repostos na mesma proporção todos os anos. Desta forma, cinco anos seriam necessários para que todo o estoque velho (remunerado pela regra de 6,17% ao ano + TR), virasse estoque novo (remunerado por 70% da Selic + TR), formato mais vantajoso para os bancos.

Até lá, as instituições financeiras amargariam perdas. Com juros mais baixos, os poupadores da “regra velha” continuariam ganhando o mesmo tanto que antes, diminuindo a diferença que antes era embolsada pelos bancos. Pelos cálculos do Credit, com a Selic a 7,5% ao ano, o Santander seria o mais prejudicado e poderia perder até 5% da receita em 12 meses. Para o Itaú, o impacto seria de 3,3% no faturamento. O percentual seria de 3,1% para Banco do Brasil e Bradesco (veja tabela na página seguinte).

Taxas de administração

“A outra parte da equação que está sendo esquecida pelo mercado são as altas taxas de administração cobradas nos fundos de investimento”, afirma o Credit em relatório. De acordo com a Anbima, 54% do total de ativos administrados na indústria de fundos está alocada em fundos de renda fixa, que investem majoritariamente em títulos do governo. Se considerado os fundos multimercados com aplicações nesses papéis, o percentual chega a 76%. 


Apesar do investimento em títulos públicos não demandar estratégias muito intrincadas por parte dos gestores – já que o rendimento é mais previsível que na renda variável e os papéis podem, inclusive, ser adquiridos diretamente pelos investidores via Tesouro Direto – as taxas de administração cobradas nesses fundos estão entre 2% e 5% ao ano.

Se a Selic caísse para 8,5% ao ano, e as taxas cobradas continuassem as mesmas, elas abocanhariam de 25% a 55% dos rendimentos desses fundos. Com a mudança nos juros, portanto, o governo também pressiona as instituições a diminuírem suas margens para manter o apelo dos produtos aos investidores. Não por acaso, a Caixa Econômica Federal já anunciou redução nas taxas e o Banco do Brasil afirmou estudar medidas semelhantes.

“Esta é uma outra potencial fonte de risco para os ganhos dos bancos, já que a as comissões por gestão de ativos representam 14% do lucro das instituições, antes dos impostos”, escreveram os analistas do Credit Suisse. Como se vê, a discussão sobre a redução dos juros nas linhas de crédito pode ser apenas a ponta do iceberg para a tormenta que os bancos devem enfrentar daqui para frente.

Impacto da redução de cada 1% na Selic abaixo do patamar de 8,5% ao ano

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  1 ano 2 anos 3 anos 4 anos 5 anos
Remuneração da poupança nova 3,9% 4,6% 5,4% 6,2% 7%
Remuneração da poupança velha -3,2% -3,2% -3,2% -3,2% -3,2%
Excesso de liquidez (posição do banco atrelada à Selic) -4% -2,7% -2,2% -1,7% -1,1%
Impacto agregado -3,3% -2,5% -1,8% -1% -0,2%

Impacto da mudança para os bancos

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  1 ano 2 anos 3 anos 4 anos 5 anos
Banco do Brasil -3,1% -1,7% -0,3% 1,1% 2,4%
Bradesco -3,1% -2,4% -1,8% -1,1% -0,5%
Itaú -3,3% -2,7% -2,2% -1,7% -1,1%
Santander -5% -4,2% -3,5% -2,7% -2%

Fonte: Credit Suisse