Bancos: a disputa pela alta renda

Letícia Toledo

A concentração de mercado na mão de poucos não é novidade no Brasil. De passagens aéreas a companhias telefônicas, o consumidor encontra poucas opções de escolha com preços altos e serviços similares. Mas um setor em especial parece ter chegado ao seu limite: o financeiro.

No último sábado 8, a concentração aumentou com o anúncio da venda da divisão de varejo do banco americano Citibank no Brasil para o Itaú Unibanco por 710 milhões de reais.  A transação afeta principalmente um grupo específico de pouco mais de 5 milhões de clientes no país: o de alta renda.

A maioria dos 315.000 correntistas do banco Citi vem reforçar o segmento Personnalité do Itaú, que reúne os clientes com renda mínima de 10.000 reais ou investimentos acima de 100.000 reais. Até junho deste ano o Itaú possuía 955.000 clientes neste segmento.

Há pouco mais de um ano outra aquisição foi feita também com esse objetivo. O Bradesco, que até então tinha 800.000 correntistas com perfil de alta renda, pagou 16 bilhões de reais pelo HSBC, de olho principalmente nos cerca de 1 milhão de clientes de alta renda da instituição, numa transação que foi concluída em julho deste ano.

Não é à toa que os bancos estão em concorrência acirrada por esses clientes. Segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), no varejo tradicional os valores investidos por clientes crescem 5,6% ao ano e no segmento private (faixa de milionários e clientes de altíssima renda), 9,1%. Já no varejo de alta renda, o crescimento foi de 13,5% em 2015, mesmo com a crise. Atualmente, o saldo das aplicações financeiras deste segmento está em 570 bilhões de reais. Mas o que significa para o cliente depender apenas desses bancos?

Problema para o cliente

A concentração do mercado não é um problema em si. Escala é algo vital no setor bancário para poder diluir custos fixos com sistemas de tecnologia, centros de operação, segurança e funcionários. Ter bancos fortes também é bom para a economia do país, porque uma crise neste setor pode abalar toda a economia.

O problema é que, no caso do Brasil, os bancos ganham escala, diluem custos, mas, segundo especialistas, não repassam essa melhora aos clientes. Ou seja, as tarifas continuam altas. Além disso, no caso de quem tinha uma conta em bancos estrangeiros adquiridos, como é o caso do Citibank, perde vantagens como o acesso a agências e atendimento no exterior.

A concentração dos bancos não é uma peculiaridade brasileira. Em países como Inglaterra, Itália e Alemanha a situação é parecida com a brasileira – mais da metade dos ativos fica nas mãos de quatro ou cinco instituições, e centenas de outras dividem o que sobra. Hoje, os cinco maiores bancos do país reúnem quase 80% do total de ativos do setor financeiro.

“A diferença é que lá fora, os grandes bancos são globais, diferentemente daqui, em que os bancos que se fixaram são nacionais”, afirma João Augusto Salles, da consultoria Lopes Fillho. “Eles fazem um ótimo trabalho por aqui, mas não têm relevância no exterior”

Para Ricardo Mollo, professor de finanças da Insper e PhD em finanças pela Universidade de Londres, o fato de os principais bancos do país não terem agências no exterior não é um grande problema. “O que importa hoje é ter um serviço digital de qualidade. Isto é no que os principais bancos do país estão investindo e isto é o que vai suprir a necessidade dos clientes onde quer que eles estejam”, afirma.

Alternativas

A disputa pelo cliente de varejo de alta renda neste ano ganhou novas iniciativas. Bancos 100% digitais, como o Banco Original, prometem atender a este cliente sem precisar de agências. O banco de investimento BTG lançou no fim de junho o BTG Digital, para conquistar clientes que tenham ao menos 50.000 reais para investir. A XP Investimentos também tem opções para quem já está disposto a investir 10.000.

“A concorrência com os bancos é complicada. Alguns clientes podem investir dinheiro com essas instituições, mas vão continuar com sua conta corrente no banco tradicional”, afirma Mollo.

Numa coisa os especialistas concordam: chegamos ao limite de concentração – tanto de varejo tradicional quanto alta renda – grandes aquisições não devem acontecer mais. Quem ficou para trás, caso do Santander que perdeu a disputa pelo HSBC e pelo Citibank – precisará ganhar escala convencendo os correntistas a mudarem de banco. Trocar de banco e transferir seus investimentos sempre se mostrou uma tarefa árdua no Brasil, mas se as propostas forem boas, o consumidor pode enfim ter uma boa razão para mudar.