Atalho para o próximo século

Para o Algar, a responsabilidade social é¿um investimento na perenidade do negócio

O bairro, Jardim Espírito Santo, incrustado na periferia da cidade mineira de Uberaba, é pobre. As crianças ali residentes também. Mas o lugar onde 288 delas estudam, a Escola Municipal Reis Júnior, destoa desse cenário. Desde o ano passado, quando se tornou uma das 12 escolas públicas apoiadas pelo grupo Algar, sediado em Uberlândia, a Reis Júnior é um motivo de orgulho da cidade. Hoje seu índice de evasão escolar é zero e faltam vagas para atender ao aumento da demanda. Com projetos de capacitação pedagógica e muito treinamento, os professores passaram a ter qualidade no ensino das matérias fundamentais. Dessa forma, menos de 20% dos alunos precisam, atualmente, de aulas de reforço. Elas também dão aulas de civilidade e cidadania (a pressão sobre empresas e sobre a prefeitura para a conservação do meio ambiente faz parte da disciplina). As instalações da Reis Júnior estão em perfeito estado. Não há depredação ou pichação.

O segredo é o envolvimento com a comunidade local. A criançada participou de um mutirão organizado por seus pais. Juntos, eles consertaram carteiras, pintaram grades e trocaram vidros. A escola tem também uma horta, cultivada pelos alunos, e um viveiro feito com garrafas plásticas recicladas. As mudas são cedidas a uma outra horta, no próprio bairro, mantida pelos moradores.

O envolvimento permanente com as escolas da região e a capacitação de professores e alunos são a parte central da política social do grupo Algar, um dos maiores grupos de telecomunicações do país. A educação é o pilar mestre da nossa atuação social , diz Luiz Alberto Garcia, o maior acionista e presidente do conselho do grupo. Temos planos para os próximos 100 anos. Não chegaremos lá se as pessoas que um dia trabalharem conosco não forem devidamente preparadas.

Para garantir o futuro e a consistência dos projetos, o Algar está criando seu próprio instituto. Ele será o guardião e o transmissor de seus valores sociais. Sem esse vigia tudo ficaria solto, sem foco , diz Garcia. O Instituto Algar, que controlará uma verba anual de cerca de 1 milhão de reais, amarrará a política de cidadania das 23 empresas do grupo e lhe dará uma feição única. É um processo de evolução. Até o ano passado, na educação, as práticas ainda tinham um pé no assistencialismo. As escolas recebiam verbas para consertos e outros gastos de infra-estrutura. No final das contas, os recursos se dispersavam e os resultados de longo prazo não apareciam. Percebemos que, em vez do Adote uma Escola, nome do nosso programa anterior, deveríamos criar a Escola do Futuro , diz Dilson Dalpiaz Dias, vice-presidente de assuntos corporativos. Isso requer outro tipo de apoio, o pedagógico.

Requer também compromisso por parte dos professores. As diretoras das escolas apoiadas assinaram um termo assumindo o cumprimento, por dois anos, de um calendário de atividades que atualiza os conhecimentos e melhora a didática das suas equipes. (Quando o compromisso vencer, o Algar passará a apoiar outras escolas de cidades onde tem algum tipo de atuação.) Cerca de 400 professoras já fizeram reciclagem e recebem apoio para fazer cursos que envolvem até mesmo pós-graduação. Os melhores resultados foram observados na escola municipal Reis Júnior. Os professores, que agora trabalham com a metodologia de projeto pedagógico, desenvolveram nas crianças o gosto pela leitura. A biblioteca recebeu do Algar novos livros e a assinatura de um jornal de grande circulação. Em atividades extraclasse, as crianças vão a asilos, onde fazem leitura voluntária para os internos. Os professores também se comprometeram a multiplicar os esforços transferindo metodologia aos colegas da região.

O Algar, com 5 mil funcionários, vem tentando detectar e desenvolver as vocações sociais encontradas em cada uma de suas empresas. Se a da CTBC Telecom, a maior empresa do grupo, é a Educação foi lá que a Escola do Futuro nasceu , na ABC Inco, que produz óleo e farelo de soja, é o meio ambiente. Já na ACS, empresa de centrais de atendimento com sede em Uberlândia, é o voluntariado que está em alta entre os quase 2 mil funcionários. De acordo com o plano de participação nos resultados da ACS concebido numa parceria entre a empresa e as pessoas que lá trabalham , o voluntariado é uma das cinco metas avaliadas. Se o funcionário não participa, não leva para casa a premiação plena, que pode chegar a 2,2 salários. É uma forma de aumentar a motivação , afirma Dias. A ACS também emprega cerca de 30 portadores de deficiências físicas e visuais e pessoas da terceira idade. O treinamento e capacitação dado a eles foi estendido a toda a comunidade.

Atualmente, algo como 20 portadores de necessidades especiais têm cursos de matemática, português, geografia, atendimento ao cliente e computação. Em tese, aqueles que não conseguirem vagas na própria ACS terão mais chances de se empregar em outras empresas da região. Fazemos isso porque, sozinha, nenhuma empresa pode mudar a realidade de uma região , diz Dias. Estamos abertos às parcerias.